segunda-feira, 22 de julho de 2019

Esbath de Lua Minguante

Entrada de Lua Minguante 24 julho 2019 às 22:20:29
A lua minguante representa o período de envelhecimento e morte de todos os seres e coisas, é natural as mulheres menstruarem na lua minguante, pois seu óvulo não fecundado morre e é descartado nesse período. Na Lua Negra transformamos, na Nova criamos, na crescente colocamos em prática nossos objetivos, na cheia eles se fortalecem e na minguante eles são ‘arquivados’, morrem para que possamos na lua negra iniciar todo o ciclo de analise, criação, expansão, fortalecimento e término novamente.
Nesse momento a Deusa percorre os portais até o submundo, ela é a Senhora, a Anciã que em breve será Rainha das transformações. Esse é um período de grande transição, nervosismo, conflitos, dúvidas são características muitos presentes durante a lua minguante. Assim como a Deusa percorre os portais entre os mundos, nós estamos no fim de um ciclo, finalizando por completo projetos e tendo a necessidade de começar a buscar por novos. É também um período de descanso, já que na Lua Cheia muito da energia foi desprendida.
LIMPEZA, PURIFICAÇÃO, DECORAÇÃO E SINTONIZAÇÃO
A Decoração do Esbbat de lua minguante é muito individual, sua cor, normalmente é o marrom, vinho ou o negro, cores ligadas aos términos, a morte, ao envelhecimento. Se quiser você pode utilizar outras cores, desde que não sejam cores muito chamativas. Você deve espalhar por todo o local; símbolos, imagens ou objetos para onde você irá enviar as energias de término. A decoração deve auxiliar em suas reflexões e no envio de suas energias para o objetivo da celebração.
A Sintonização corresponde a uns 15 minutos que você deve dedicar ao ambiente onde ocorrerá a celebração. Respire fundo, sinta os cheiros, ouça os sons do local, olhe a sua volta e veja onde está, tente sentir a energia do lugar. Caso seja um lugar com uma história bonita reflita um pouco sobre essa história, tente entender porque você foi celebrar ali, ande por todo o local, interaja com a energia emanada por esse ambiente. Faça tudo isso em silêncio, respirando fundo, e preparando todo o seu corpo para o Esbbat que está sendo iniciado.
ABERTURA DO CÍRCULO E INVOCAÇÕES
Cada esbbat corresponde a um aspecto das divindades, a Lua Minguante possui princípios muito similares aos da Lua Negra, sendo assim os DEUSES negros e os Deuses relacionados a términos são celebrados nesse momento. Alguns exemplos são: Ísis, Perséfone, Osíris, Hades e vários outros que vocês podem encontrar na sessão Deuses.
Na simbologia do Esbbat, a Deusa é a Anciã, já amadurecida e pronta para a morte. Nesse momento o altar dos ancestrais deve receber maior atenção, caso alguém tenha falecido a pouco tempo é comum pedir que essa pessoa seja encaminhada pelos DEUSES para Sunmerland de modo que não fiquem vagando pelo astral ou aprisionados no submundo. Aqueles que se encontram entre a vida e a morte também devem receber atenção, esse é um bom período para trabalhar curas, já que apenas com a morte é possível vida e vice-versa.
Apenas após estudar, conhecer e se sintonizar com uma divindade é que estamos aptos para chamá-la em um RITUAL , com isso depois de trabalhar com a face do seu panteão você deve criar sua forma de invocar tal divindade, pois já saberá como.
MEDITAÇÕES
As meditações são direcionadas ao término dos projetos, a resolução dos problemas. Nesse momento meditamos para esquecer todos os nossos objetivos alcançados para que tenhamos a mente livre para novos projetos.
Essa meditação também deve possuir uma reflexão para o nosso poder interno, devemos verificar o que ocorreu desde o sabbat passado e organizar e equilibrar tudo, eliminando todas as energias indesejadas.
Podemos meditar sobre lendas ou histórias de conquistas, finalização de construções ou artes, de mortes e afins.
DANÇAS, CÂNTICOS E ORAÇÕES
Na Lua minguante as danças devem objetivar o fim de ciclos, sejam eles energéticos, emocionais ou espirituais, utilize a força dos términos em sua dança e elimine tudo que desejar direcionando suas energias com movimentos do corpo.
A dança mais comum é chamada de dança dos sons naturais ou ritmos silenciosos, consiste em ficar de pé – quando sozinha(o) e em local adequado pode ficar nua(ú) – e em pleno silêncio. Comece a movimentar o corpo calmamente da forma que desejar, com o tempo aumente a força e rapidez dos movimentos até que esteja dançando em seu próprio ritmo livre, solto e de acordo com o seu corpo, crie seus movimentos.
Enquanto dança tente colocar para fora sons variados, use da sua criatividade, trabalhe o seu interior, acalme seu coração, organize suas energias, equilibre seu corpo.
É comum criar Cânticos para os DEUSES presentes nos esbbats, use sua criatividade, use ritmo, rimas e sons variados todos ligados ao princípio básico do esbbat: Término, Conclusão, Morte, CURA , purificação.
Orações? Sim orações! Os Bruxos conversam com suas divindades, obviamente de uma forma diferente (não ajoelham ou se colocam inferiores), mas conversam, pedem e agradecem da mesma forma que todas as outras religiões. As orações podem ser espontâneas ou montadas com antecedência, podem ser ritmadas ou não, devem apenas estar relacionadas ao esbbat, conversem com os Deuses, peçam ajuda para enfrentar, compreender e controlar as energias e pensamentos que os circundam. Encarem todas as imagens e sensações que os DEUSES vão lhe mandar para auxilia-los nesse momento. Apenas não esqueçam o Adágio:
“Cuidado com o que pede aos Deuses, pois eles podem realizar.”
Se você não está pronto para enfrentar determinada situação, não peça, não busque, não tente amplia-la. Se você pedir aos DEUSES auxilio em algo que você ainda não está pronto para ter, eles podem te dar exatamente para você ‘sofrer’ naquilo e aprender a não pedir coisas com as quais não está pronto para conviver.
TRABALHOS MÁGICOS
As(os) Bruxas(os) fazem feitiços, encantamentos e RITUAIS de magia variados, com diferentes finalidades. Cada Lua possui uma influência diferente nas energias que são usadas nesses ritos, a Lua minguante representa o momento mais propício para trabalhos de CURA e purificação, pois é nesse período que as forças cósmicas estão eliminando o velho, reciclando a natureza, é a morte para um futuro renascimento. É o momento em que tudo já foi produzido, enraizado, organizado, expandido, fortalecido e concluído. Família, relacionamentos, emprego, tudo deve ser purificado, finalizado.
DESTRAÇAMENTO DO CÍRCULO E AGRADECIMENTOS
Há um antigo adágio na minha Tradição que diz:
“Se você não é capaz de agradecer por tudo que ganha ou conquista, pare de pedir e buscar, pois não é merecedor de nada.”
Todo bruxo(a) sabe que só ganha aquilo que merece, sabe também que para merecer, ele precisa ser grato por tudo, grato a ele mesmo por ter vencido suas dificuldades e grato aos DEUSES por esses permitirem o prazer da vida, dando-lhe condições de viver livremente usufruindo daquilo que deseja.
Então use sua criatividade, seja sincero e agradeça a presença de todos os participantes do seu esbbat: ELEMENTAIS , ancestrais, amigos (caso celebre em grupo ou coven), agradeça a você mesmo e aos Deuses.
BANQUETE
Não precisa ser exatamente um banquete variado, apenas uma refeição simples para celebrar o momento, no esbbat de lua Minguante recomenda-se o uso de alimentos leves e nutritivos, principalmente para aqueles que exercem trabalhos de purificação e cura, ou que passaram pela morte de alguém próximo. Lembrando sempre de verificar se você possui algum tipo de alergia a qualquer ingrediente, e sempre usem ingredientes naturais, nunca comam ou bebam nada que não conhecem ou saibam a procedência.
RITUAL A CERRIDWEN
Cerridwen está relacionada ao renascimento e a ligação com os outros mundos. Seus rituais são realizados na Lua Minguante, que é seu símbolo. Sua cor é o negro e por isso recebe o título de NIGREDO, Senhora da Noite. Para realizar seu ritual e dar boas vindas à lua minguante você vai precisar de: 
1 Vela Branca
1 Vela Vermelha
1 Vela Preta
O Caldeirão com Água
A Taça com Água
O Athame
Folhas de Louro ou Eucalipto

Disponha as 3 velas em forma de triângulo sobre o altar de forma que a preta fique a esquerda, a branca a direita e a vermelha no topo do triângulo, coloque o caldeirão no meio do triângulo formado pelas velas, coloque a taça abaixo do triângulo de velas então chame por Cerridwen :

"Oh antiga Deusa que reside no Norte
aquela que conhece o passado de todas as coisas,
ouça o meu chamado e que
minha invocação seja agradável aos seus olhos,
Oh Nigudo senhora da sabedoria e compreensão.
Cerridwen Mãe Celeste que a Lua Minguante
seja bem vinda e que seus poderes de exterminar
com todas as coisas negativas se espalhe sobre o mundo,
transmutando os Karmas,
solucionando os problemas,
curando as doenças,
afastando as intrigas,
a inveja, os obstáculos e
problemas que nos impedem de chegar a plena felicidade.
Oh Deusa da Inspiração e Criação,
venha em nosso auxílio!"

Espalhe as folhas de louro ou eucalipto sobre o altar coloque o athame em cima das mesmas dizendo:

"Mãe do caldeirão sagrado que sua face minguante seja bem vinda a este mundo para que tenhamos paz, saúde e bons presságios.
Que assim seja e que assim se faça para o bem de todos."

Extraído do site Portal A&E e
Old Religion - por Allan Lima

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Nossos "Demônios" Interiores



"Não há despertar de consciência sem dor. As pessoas farão de tudo, chegando aos limites do absurdo para evitar enfrentar a sua própria alma. Ninguém se torna iluminado por imaginar figuras de luz, mas sim por tornar consciente a escuridão." - Carl Jung

Cada um de nós projeta uma sombra mais escura e compacta quando menos encarnada se faz em nossa vida consciente. Essa sombra constitui, em todos os efeitos, um impedimento inconsciente que inibe as nossas melhores intenções.” - Carl Jung

Costumamos usar milhares de metáforas para nos referimos ao nosso lado mais obscuro, como descobrir os nossos demônios, nossa sombra, nosso alter ego, etc, mas eu gosto mais de me referir a isso como o grande saco que todos nós arrastamos.
Um saco invisível que nos acompanha durante toda a vida, no qual começamos a lançar, desde pequenos, todas aquelas facetas da nossa personalidade que desagradavam os que estavam a nossa volta e que exerceram algum tipo de influência em nossas vidas, com o intuito de continuarmos sendo merecedores do seu amor.

A sombra de cada um de nós vai sendo desenvolvida durante a infância de forma natural, assim como o nosso ego, partindo ambos da mesma experiência vital.
Por um lado, identificamo-nos com alguns traços ideais da nossa personalidade como a simpatia ou a boa educação e, por outro, desenterramos aquelas qualidades que não se adequam à nossa imagem ideal, como o egoísmo ou a inveja, as frustrações ou experiências dolorosas, escondendo-os nas profundidades do nosso saco.
Cada cultura e, inclusive, cada família, determina do seu jeito o que corresponde ao ego e o que corresponde à sombra, com relação aos membros do seu sistema. Algumas irão permitir a expressão da raiva, a agressividade, a sexualidade, ou as emoções intensas, enquanto outras irão reprimi-los.
Dessa forma, nosso saco vai crescendo, assim como o da nossa família, nossa cultura ou sociedade. Enchemos este saco imaginário durante os primeiros vinte anos da nossa vida e, durante o resto do tempo, tentamos esvaziá-lo…
E quanto mais cheio ele estiver, quanto mais coisas tivermos dentro dele, menos energia teremos no nosso dia a dia, e mais energia estará inacessível dentro dele.
O que acontece é que, num dia qualquer, ou quando decidirmos abri-lo, tudo o que colocamos em nosso saco surgirá como uma grande sombra e com uma grande dose de hostilidade; quando nos negamos a aceitar uma parte da nossa personalidade, ela se torna hostil, como se tivesse organizado um motim contra nós mesmos.
O que não enfrentamos acaba nos surpreendendo de forma desagradável em algum momento.

Assim, podemos entender a sombra como sendo aquelas qualidades que não aceitamos em nós mesmos. Aquelas que quando, nos olhamos no espelho, não são visíveis em nosso reflexo, porque somente vemos o que queremos ver. E o encontro com ela implica um confronto consigo mesmo.
E mesmo que os sentimentos e as capacidades desterrados à sombra alimentem o poder oculto do lado escuro da natureza humana, nem todos eles são negativos. A sombra não alberga somente apegos emocionais, partes infantis ou sintomas neuróticos, mas também aptidões e talentos que a pessoa não chegou a desenvolver.

Dessa forma, a nossa sombra pessoal contém capacidades e qualidades potenciais que não chegaram a se manifestar; constitui uma parte do inconsciente que complementa o nosso ego, e que representa as partes da nossa personalidade consciente que não desejamos conhecer, que esquecemos ou enterramos nas profundezas de nossa mente, para reencontrá-las mais adiante nos enfrentamentos que teremos com os outros.
Mas não podemos perceber a sombra diretamente, pois ela foge da luz da consciência e só se faz visível fora de nós mesmos, por meio dos outros, dos seus trações e ações.
Podemos observá-la se formos conscientes de que, quando admiramos ou rejeitamos de maneira desproporcional uma qualidade de uma pessoa, como a preguiça ou a sensualidade, provavelmente estamos nos projetando nela, com a intenção de nos desfazer dessa característica em nossa sombra.
Portanto, para descobrir algumas características da nossa sombra, temos que examinar quais traços ou atitudes nos incomodam ou nos agradam desproporcionalmente e em qual medida nos afetam.
O que de nós projetamos sobre os outros?

Recuperar a nossa sombra implica, portanto, enfrentá-la e integrar os seus conteúdos em uma imagem mais global e completa de nós mesmos, deixando de lado a nossa rigidez e os nossos medos. Este processo que costuma ocorrer quando vemos a nossa vida estancada e quando perdemos o interesse por ela e pelo seu sentido.
O trabalho com a nossa sombra é o processo voluntário e consciente, no qual submergimos com a intenção de assumir tudo aquilo que havíamos decidido ignorar ou reprimir. Isso nos permitirá sanar os nossos problemas de relacionamento, levando luz à escuridão e penetrando em nosso próprio eu, integrando-o.
Quando aceitamos as nossas facetas mais cruéis, aprofundamo-nos em nossos aspectos mais positivos.
A reconciliação com os nossos demônios ou inimigos não os elimina, mas muda a relação que temos com eles, sendo esta muito mais humana. Podemos fazê-lo por meio da terapia ou, inclusive, da arte.
Quando a nossa força descobrir a sua própria vulnerabilidade e nos dermos conta de que, além da luz, também somos compostos por sombras, quando deixarmos de acreditar que a responsabilidade por todos os males está fora de nós, quando formos conscientes de que a capacidade de fazer o mal se alberga também – de alguma forma – em nosso interior, poderemos fazer as pazes com a nossa sombra e navegar a salvo das adversidades e da fatalidade.

Porque quando mantemos uma relação correta com a sombra, o inconsciente deixa de ser perigoso. Já dizia Jung “a sombra só é perigosa quando não lhe damos a devida atenção”.
Já abraçou seu demônio hoje?⠀



Encontro com a Sombra. O poder do lado oculto da natureza humana, Connie Zweig.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

A ressurreição da Mulher Selvagem: La Loba


"La Loba é a guardiã da alma. Sem ela, perdemos nossa forma. Sem uma linha direta com ela, diz-se que os seres humanos ficam desalmados ou que sua alma está perdida. Ela dá forma à casa da alma e constrói mais com suas próprias mãos. Ela é a que usa um avental velho. Ela é a que tem um vestido mais comprido na frente do que atrás. Ela é a que dá pancadinhas, alisa, afaga. Ela é a criadora de almas, de lobos, a guardiã do lado selvagem."

As histórias são bálsamos medicinais. Elas têm uma força!
Não exigem que se faça nada, que se seja nada, que se aja de nenhum modo — basta que prestemos atenção. A cura para qualquer dano ou para resgatar algum impulso psíquico perdido está nas histórias. Elas suscitam interesse, tristeza, perguntas, anseios e compreensões que fazem aflorar o arquétipo, nesse caso o da Mulher Selvagem.
As histórias conferem movimento à nossa vida interior, e isso tem importância especial nos casos em que a vida interior está assustada, presa ou encurralada.
As histórias lubrificam as engrenagens, fazem correr a adrenalina, mostram-nos a saída e, apesar das dificuldades, abrem para nós portas amplas em paredes anteriormente fechadas, aberturas que nos levam à terra dos sonhos, que conduzem ao amor e ao aprendizado, que nos devolvem à nossa verdadeira vida de mulheres selvagens e sagazes.
Assim, para promover nosso relacionamento de intimidade com a natureza instintiva, seria de grande ajuda se compreendêssemos as histórias como se estivéssemos dentro delas, em vez de as encararmos como se elas fossem alheias a nós. Penetramos numa história pela porta da escuta interior.
Osso a osso, fio a fio de cabelo, a Mulher Selvagem vem voltando. Através de sonhos noturnos, de acontecimentos mal compreendidos e parcialmente esquecidos, a Mulher Selvagem vem chegando. Ela volta através das histórias.
La Loba
Existe uma velha que vive num lugar oculto de que todos sabem, mas que poucos já viram. Como nos contos de fadas da Europa oriental, ela parece esperar que cheguem até ali pessoas que se perderam, que estão vagueando ou à procura de algo.
Ela é circunspecta, quase sempre cabeluda e invariavelmente gorda, e demonstra especialmente querer evitar a maioria das pessoas. Ela sabe crocitar e cacarejar, apresentando geralmente mais sons animais do que humanos.
Dizem que ela vive entre os declives de granito decomposto no território dos índios tarahumara. Dizem que está enterrada na periferia de Phoenix perto de um poço. Dizem que foi vista viajando para o sul, para o Monte Alban3 num carro incendiado com a janela traseira arrancada. Dizem que fica parada na estrada perto de El Paso, que pega carona aleatoriamente com caminhoneiros até Morelia, México, ou que foi vista indo para a feira acima de Oaxaca, com galhos de lenha de estranhos formatos nas costas. Ela é conhecida por muitos nomes: La Huesera, a Mulher dos Ossos; La Trapera, a Trapeira; e La Loba, a Mulher-lobo.
0 único trabalho de La Loba é o de recolher ossos. Sabe-se que ela recolhe e conserva especialmente o que corre o risco de se perder para o mundo. Sua caverna é cheia dos ossos de todos os tipos de criaturas do deserto: o veado, a cascavel, o corvo. Dizem, porém, que sua especialidade reside nos lobos.
Ela se arrasta sorrateira e esquadrinha as montañas e os arroyos, leitos secos de rios, à procura de ossos de lobos e, quando consegue reunir um esqueleto inteiro, quando o último osso está no lugar e a bela escultura branca da criatura está disposta à sua frente, ela senta junto ao fogo e pensa na canção que irá cantar.
Quando se decide, ela se levanta e aproxima-se da criatura, ergue seus braços sobre o esqueleto e começa a cantar. É aí que os ossos das costelas e das pernas do lobo começam a se forrar de carne, e que a criatura começa a se cobrir de pêlos. La Loba canta um pouco mais, e uma proporção maior da criatura ganha vida. Seu rabo forma uma curva para cima, forte e desgrenhado.
La Loba canta mais, e a criatura-lobo começa a respirar.
E La Loba ainda canta, com tanta intensidade que o chão do deserto estremece, e enquanto canta, o lobo abre os olhos, dá um salto e sai correndo pelo desfiladeiro.
Em algum ponto da corrida, quer pela velocidade, por atravessar um rio respingando água, quer pela incidência de um raio de sol ou de luar sobre seu flanco, o lobo de repente é transformado numa mulher que ri e corre livre na direção do horizonte.
Por isso, diz-se que, se você estiver perambulando pelo deserto, por volta do pôr-do-sol, e quem sabe esteja um pouco perdido, cansado, sem dúvida você tem sorte, porque La Loba pode simpatizar com você e lhe ensinar algo — algo da alma.
Todos nós começamos como um feixe de ossos perdido em algum ponto num deserto, um esqueleto desmantelado que jaz debaixo da areia. É nossa responsabilidade recuperar suas partes. Trata-se de um processo laborioso que é mais bem executado quando as sombras estão exatamente numa certa posição, porque exige muita atenção. La Loba indica o que devemos procurar — a indestrutível força da vida, os ossos.
É um conto de ressurreição acerca do vínculo do mundo subterrâneo com a Mulher Selvagem.
Na história, La Loba canta sobre os ossos que reuniu. Cantar significa usar a voz da alma. Significa sussurrar a verdade do poder e da necessidade de cada um, soprar alma sobre aquilo que está doente ou precisando de restauração. Isso se realiza por meio de um mergulho no ponto mais profundo do amor e do sentimento, até que nosso desejo de vínculo com o Self selvagem transborde, e em seguida com a expressão da nossa alma a partir desse estado de espírito. Isso é cantar sobre os ossos.
O símbolo da Velha é uma das personificações arquetípicas mais disseminadas no mundo.
No mito e seja pelo nome que for, La Loba conhece o passado pessoal e o passado remoto pois ela vem sobrevivendo pelas gerações afora e é mais velha do que o tempo. Ela é a memória arquivada das intenções femininas. Ela preserva a tradição feminina. Seus bigodes pressentem o futuro; ela tem o olho opaco e sagaz da velha; ela viaja simultaneamente para frente e para trás no tempo, equilibrando um lado com a dança que realiza com o outro.
La Loba, a velha. Aquela Que Sabe, está dentro de nós. Ela viceja na mais profunda alma-psique das mulheres, a antiga e vital Mulher Selvagem. A história de La Loba descreve sua casa como aquele lugar no tempo no qual o espírito das mulheres e o espírito dos lobos se encontram — o lugar onde a mente e os instintos se misturam, onde a vida profunda da mulher embasa sua vida rotineira. É o ponto onde o Eu e o Tu se beijam, o lugar onde as mulheres correm com os lobos.
Essa velha está entre os universos da racionalidade e do mito. Ela é a articulação com a qual esses dois mundos giram. Esse espaço entre os mundos é aquele lugar inexplicável que todas reconhecemos uma vez que passamos por ele, porém suas nuanças se esvaem e têm a forma alterada se quisermos defini-las, a não ser quando recorremos à poesia, à música, à dança… ou às histórias.
Embora ela possa assumir muitos disfarces nos nossos sonhos e experiências criativas, ela não pertence à camada da mãe, da virgem, da mulher medial, nem da criança interior. Ela não é a rainha, a amazona, a amada, a vidente. Ela é só o que é. Chamem-na de La Que Sabé, Aquela Que Sabe; chamem-na de Mulher Selvagem, de La Loba, chamem-na pelos seus nomes nobres ou pelos seus nomes humildes; chamem-na pelos seus nomes mais novos ou mais antigos; ela continua sendo apenas o que é.
A Mulher Selvagem como arquétipo é uma força inimitável e inefável que traz para a humanidade um abundante repertório de idéias, imagens e particularidades. O arquétipo existe por toda a parte e, no entanto, não é visível no sentido comum da palavra. O que pode ser visto dele no escuro não é visível à luz do dia.
Cada mulher tem acesso potencial ao Rio Abajo Rio, esse rio por baixo do rio. Ela chega até ele através da meditação profunda, da dança, da arte de escrever, de pintar, de rezar, de cantar, de tamborilar, da imaginação ativa ou de qualquer atividade que exija uma intensa alteração da consciência. Uma mulher chega a esse mundo-entre-mundos através de anseios e da busca de algo que ela vê apenas com o cantinho dos olhos.
Livro Mulheres que correm com os lobos de Clarissa Pinkola Estés
Por Tamaris Fontanella