segunda-feira, 15 de julho de 2019

Nossos "Demônios" Interiores



"Não há despertar de consciência sem dor. As pessoas farão de tudo, chegando aos limites do absurdo para evitar enfrentar a sua própria alma. Ninguém se torna iluminado por imaginar figuras de luz, mas sim por tornar consciente a escuridão." - Carl Jung

Cada um de nós projeta uma sombra mais escura e compacta quando menos encarnada se faz em nossa vida consciente. Essa sombra constitui, em todos os efeitos, um impedimento inconsciente que inibe as nossas melhores intenções.” - Carl Jung

Costumamos usar milhares de metáforas para nos referimos ao nosso lado mais obscuro, como descobrir os nossos demônios, nossa sombra, nosso alter ego, etc, mas eu gosto mais de me referir a isso como o grande saco que todos nós arrastamos.
Um saco invisível que nos acompanha durante toda a vida, no qual começamos a lançar, desde pequenos, todas aquelas facetas da nossa personalidade que desagradavam os que estavam a nossa volta e que exerceram algum tipo de influência em nossas vidas, com o intuito de continuarmos sendo merecedores do seu amor.

A sombra de cada um de nós vai sendo desenvolvida durante a infância de forma natural, assim como o nosso ego, partindo ambos da mesma experiência vital.
Por um lado, identificamo-nos com alguns traços ideais da nossa personalidade como a simpatia ou a boa educação e, por outro, desenterramos aquelas qualidades que não se adequam à nossa imagem ideal, como o egoísmo ou a inveja, as frustrações ou experiências dolorosas, escondendo-os nas profundidades do nosso saco.
Cada cultura e, inclusive, cada família, determina do seu jeito o que corresponde ao ego e o que corresponde à sombra, com relação aos membros do seu sistema. Algumas irão permitir a expressão da raiva, a agressividade, a sexualidade, ou as emoções intensas, enquanto outras irão reprimi-los.
Dessa forma, nosso saco vai crescendo, assim como o da nossa família, nossa cultura ou sociedade. Enchemos este saco imaginário durante os primeiros vinte anos da nossa vida e, durante o resto do tempo, tentamos esvaziá-lo…
E quanto mais cheio ele estiver, quanto mais coisas tivermos dentro dele, menos energia teremos no nosso dia a dia, e mais energia estará inacessível dentro dele.
O que acontece é que, num dia qualquer, ou quando decidirmos abri-lo, tudo o que colocamos em nosso saco surgirá como uma grande sombra e com uma grande dose de hostilidade; quando nos negamos a aceitar uma parte da nossa personalidade, ela se torna hostil, como se tivesse organizado um motim contra nós mesmos.
O que não enfrentamos acaba nos surpreendendo de forma desagradável em algum momento.

Assim, podemos entender a sombra como sendo aquelas qualidades que não aceitamos em nós mesmos. Aquelas que quando, nos olhamos no espelho, não são visíveis em nosso reflexo, porque somente vemos o que queremos ver. E o encontro com ela implica um confronto consigo mesmo.
E mesmo que os sentimentos e as capacidades desterrados à sombra alimentem o poder oculto do lado escuro da natureza humana, nem todos eles são negativos. A sombra não alberga somente apegos emocionais, partes infantis ou sintomas neuróticos, mas também aptidões e talentos que a pessoa não chegou a desenvolver.

Dessa forma, a nossa sombra pessoal contém capacidades e qualidades potenciais que não chegaram a se manifestar; constitui uma parte do inconsciente que complementa o nosso ego, e que representa as partes da nossa personalidade consciente que não desejamos conhecer, que esquecemos ou enterramos nas profundezas de nossa mente, para reencontrá-las mais adiante nos enfrentamentos que teremos com os outros.
Mas não podemos perceber a sombra diretamente, pois ela foge da luz da consciência e só se faz visível fora de nós mesmos, por meio dos outros, dos seus trações e ações.
Podemos observá-la se formos conscientes de que, quando admiramos ou rejeitamos de maneira desproporcional uma qualidade de uma pessoa, como a preguiça ou a sensualidade, provavelmente estamos nos projetando nela, com a intenção de nos desfazer dessa característica em nossa sombra.
Portanto, para descobrir algumas características da nossa sombra, temos que examinar quais traços ou atitudes nos incomodam ou nos agradam desproporcionalmente e em qual medida nos afetam.
O que de nós projetamos sobre os outros?

Recuperar a nossa sombra implica, portanto, enfrentá-la e integrar os seus conteúdos em uma imagem mais global e completa de nós mesmos, deixando de lado a nossa rigidez e os nossos medos. Este processo que costuma ocorrer quando vemos a nossa vida estancada e quando perdemos o interesse por ela e pelo seu sentido.
O trabalho com a nossa sombra é o processo voluntário e consciente, no qual submergimos com a intenção de assumir tudo aquilo que havíamos decidido ignorar ou reprimir. Isso nos permitirá sanar os nossos problemas de relacionamento, levando luz à escuridão e penetrando em nosso próprio eu, integrando-o.
Quando aceitamos as nossas facetas mais cruéis, aprofundamo-nos em nossos aspectos mais positivos.
A reconciliação com os nossos demônios ou inimigos não os elimina, mas muda a relação que temos com eles, sendo esta muito mais humana. Podemos fazê-lo por meio da terapia ou, inclusive, da arte.
Quando a nossa força descobrir a sua própria vulnerabilidade e nos dermos conta de que, além da luz, também somos compostos por sombras, quando deixarmos de acreditar que a responsabilidade por todos os males está fora de nós, quando formos conscientes de que a capacidade de fazer o mal se alberga também – de alguma forma – em nosso interior, poderemos fazer as pazes com a nossa sombra e navegar a salvo das adversidades e da fatalidade.

Porque quando mantemos uma relação correta com a sombra, o inconsciente deixa de ser perigoso. Já dizia Jung “a sombra só é perigosa quando não lhe damos a devida atenção”.
Já abraçou seu demônio hoje?⠀



Encontro com a Sombra. O poder do lado oculto da natureza humana, Connie Zweig.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

A ressurreição da Mulher Selvagem: La Loba


"La Loba é a guardiã da alma. Sem ela, perdemos nossa forma. Sem uma linha direta com ela, diz-se que os seres humanos ficam desalmados ou que sua alma está perdida. Ela dá forma à casa da alma e constrói mais com suas próprias mãos. Ela é a que usa um avental velho. Ela é a que tem um vestido mais comprido na frente do que atrás. Ela é a que dá pancadinhas, alisa, afaga. Ela é a criadora de almas, de lobos, a guardiã do lado selvagem."

As histórias são bálsamos medicinais. Elas têm uma força!
Não exigem que se faça nada, que se seja nada, que se aja de nenhum modo — basta que prestemos atenção. A cura para qualquer dano ou para resgatar algum impulso psíquico perdido está nas histórias. Elas suscitam interesse, tristeza, perguntas, anseios e compreensões que fazem aflorar o arquétipo, nesse caso o da Mulher Selvagem.
As histórias conferem movimento à nossa vida interior, e isso tem importância especial nos casos em que a vida interior está assustada, presa ou encurralada.
As histórias lubrificam as engrenagens, fazem correr a adrenalina, mostram-nos a saída e, apesar das dificuldades, abrem para nós portas amplas em paredes anteriormente fechadas, aberturas que nos levam à terra dos sonhos, que conduzem ao amor e ao aprendizado, que nos devolvem à nossa verdadeira vida de mulheres selvagens e sagazes.
Assim, para promover nosso relacionamento de intimidade com a natureza instintiva, seria de grande ajuda se compreendêssemos as histórias como se estivéssemos dentro delas, em vez de as encararmos como se elas fossem alheias a nós. Penetramos numa história pela porta da escuta interior.
Osso a osso, fio a fio de cabelo, a Mulher Selvagem vem voltando. Através de sonhos noturnos, de acontecimentos mal compreendidos e parcialmente esquecidos, a Mulher Selvagem vem chegando. Ela volta através das histórias.
La Loba
Existe uma velha que vive num lugar oculto de que todos sabem, mas que poucos já viram. Como nos contos de fadas da Europa oriental, ela parece esperar que cheguem até ali pessoas que se perderam, que estão vagueando ou à procura de algo.
Ela é circunspecta, quase sempre cabeluda e invariavelmente gorda, e demonstra especialmente querer evitar a maioria das pessoas. Ela sabe crocitar e cacarejar, apresentando geralmente mais sons animais do que humanos.
Dizem que ela vive entre os declives de granito decomposto no território dos índios tarahumara. Dizem que está enterrada na periferia de Phoenix perto de um poço. Dizem que foi vista viajando para o sul, para o Monte Alban3 num carro incendiado com a janela traseira arrancada. Dizem que fica parada na estrada perto de El Paso, que pega carona aleatoriamente com caminhoneiros até Morelia, México, ou que foi vista indo para a feira acima de Oaxaca, com galhos de lenha de estranhos formatos nas costas. Ela é conhecida por muitos nomes: La Huesera, a Mulher dos Ossos; La Trapera, a Trapeira; e La Loba, a Mulher-lobo.
0 único trabalho de La Loba é o de recolher ossos. Sabe-se que ela recolhe e conserva especialmente o que corre o risco de se perder para o mundo. Sua caverna é cheia dos ossos de todos os tipos de criaturas do deserto: o veado, a cascavel, o corvo. Dizem, porém, que sua especialidade reside nos lobos.
Ela se arrasta sorrateira e esquadrinha as montañas e os arroyos, leitos secos de rios, à procura de ossos de lobos e, quando consegue reunir um esqueleto inteiro, quando o último osso está no lugar e a bela escultura branca da criatura está disposta à sua frente, ela senta junto ao fogo e pensa na canção que irá cantar.
Quando se decide, ela se levanta e aproxima-se da criatura, ergue seus braços sobre o esqueleto e começa a cantar. É aí que os ossos das costelas e das pernas do lobo começam a se forrar de carne, e que a criatura começa a se cobrir de pêlos. La Loba canta um pouco mais, e uma proporção maior da criatura ganha vida. Seu rabo forma uma curva para cima, forte e desgrenhado.
La Loba canta mais, e a criatura-lobo começa a respirar.
E La Loba ainda canta, com tanta intensidade que o chão do deserto estremece, e enquanto canta, o lobo abre os olhos, dá um salto e sai correndo pelo desfiladeiro.
Em algum ponto da corrida, quer pela velocidade, por atravessar um rio respingando água, quer pela incidência de um raio de sol ou de luar sobre seu flanco, o lobo de repente é transformado numa mulher que ri e corre livre na direção do horizonte.
Por isso, diz-se que, se você estiver perambulando pelo deserto, por volta do pôr-do-sol, e quem sabe esteja um pouco perdido, cansado, sem dúvida você tem sorte, porque La Loba pode simpatizar com você e lhe ensinar algo — algo da alma.
Todos nós começamos como um feixe de ossos perdido em algum ponto num deserto, um esqueleto desmantelado que jaz debaixo da areia. É nossa responsabilidade recuperar suas partes. Trata-se de um processo laborioso que é mais bem executado quando as sombras estão exatamente numa certa posição, porque exige muita atenção. La Loba indica o que devemos procurar — a indestrutível força da vida, os ossos.
É um conto de ressurreição acerca do vínculo do mundo subterrâneo com a Mulher Selvagem.
Na história, La Loba canta sobre os ossos que reuniu. Cantar significa usar a voz da alma. Significa sussurrar a verdade do poder e da necessidade de cada um, soprar alma sobre aquilo que está doente ou precisando de restauração. Isso se realiza por meio de um mergulho no ponto mais profundo do amor e do sentimento, até que nosso desejo de vínculo com o Self selvagem transborde, e em seguida com a expressão da nossa alma a partir desse estado de espírito. Isso é cantar sobre os ossos.
O símbolo da Velha é uma das personificações arquetípicas mais disseminadas no mundo.
No mito e seja pelo nome que for, La Loba conhece o passado pessoal e o passado remoto pois ela vem sobrevivendo pelas gerações afora e é mais velha do que o tempo. Ela é a memória arquivada das intenções femininas. Ela preserva a tradição feminina. Seus bigodes pressentem o futuro; ela tem o olho opaco e sagaz da velha; ela viaja simultaneamente para frente e para trás no tempo, equilibrando um lado com a dança que realiza com o outro.
La Loba, a velha. Aquela Que Sabe, está dentro de nós. Ela viceja na mais profunda alma-psique das mulheres, a antiga e vital Mulher Selvagem. A história de La Loba descreve sua casa como aquele lugar no tempo no qual o espírito das mulheres e o espírito dos lobos se encontram — o lugar onde a mente e os instintos se misturam, onde a vida profunda da mulher embasa sua vida rotineira. É o ponto onde o Eu e o Tu se beijam, o lugar onde as mulheres correm com os lobos.
Essa velha está entre os universos da racionalidade e do mito. Ela é a articulação com a qual esses dois mundos giram. Esse espaço entre os mundos é aquele lugar inexplicável que todas reconhecemos uma vez que passamos por ele, porém suas nuanças se esvaem e têm a forma alterada se quisermos defini-las, a não ser quando recorremos à poesia, à música, à dança… ou às histórias.
Embora ela possa assumir muitos disfarces nos nossos sonhos e experiências criativas, ela não pertence à camada da mãe, da virgem, da mulher medial, nem da criança interior. Ela não é a rainha, a amazona, a amada, a vidente. Ela é só o que é. Chamem-na de La Que Sabé, Aquela Que Sabe; chamem-na de Mulher Selvagem, de La Loba, chamem-na pelos seus nomes nobres ou pelos seus nomes humildes; chamem-na pelos seus nomes mais novos ou mais antigos; ela continua sendo apenas o que é.
A Mulher Selvagem como arquétipo é uma força inimitável e inefável que traz para a humanidade um abundante repertório de idéias, imagens e particularidades. O arquétipo existe por toda a parte e, no entanto, não é visível no sentido comum da palavra. O que pode ser visto dele no escuro não é visível à luz do dia.
Cada mulher tem acesso potencial ao Rio Abajo Rio, esse rio por baixo do rio. Ela chega até ele através da meditação profunda, da dança, da arte de escrever, de pintar, de rezar, de cantar, de tamborilar, da imaginação ativa ou de qualquer atividade que exija uma intensa alteração da consciência. Uma mulher chega a esse mundo-entre-mundos através de anseios e da busca de algo que ela vê apenas com o cantinho dos olhos.
Livro Mulheres que correm com os lobos de Clarissa Pinkola Estés
Por Tamaris Fontanella

sexta-feira, 21 de junho de 2019

A Roda do Ano e sua Celebração



Há muitos anos comemoro os Sabbats pelas datas do Hemisfério Norte. E é muito comum ouvir todo tipo de críticas a essa decisão, algumas até impregnadas de surpresa (“Ora, que absurdo! Verão é verão e inverno é inverno!), revolta ( que coisa ridícula! Aqui é Hemisfério Sul!) ou até de certo ar de superioridade (“Quem é ligado realmente à Terra celebra os ciclos pelo Sul).

Não obstante a maioria das pessoas com o tempo aceite que cada um celebra de acordo com o que sente e acredita, e sempre a celebração funciona – seja a Roda Norte, a Sul ou a Mista – é preciso que deixe de haver tanto preconceito. Muitas pessoas acham que celebrar pelo Norte é algum tipo de ignorância ou loucura, em que os “pseudo bruxos” expressam o quanto ignoram a natureza. Porém, muito longe desse preconceito, há muitos fundamentos para celebrar pelo Norte, e os exporei a seguir.

Quando comecei a praticar Wicca, rodei pelo Norte, depois experimentei rodar pelo Sul e não me adaptei. Com o aprofundar dos estudos e vivências da Roda, passei a uma profunda reflexão sobre o assunto.

Para que as pessoas saiam da superficialidade dessa discussão, como se a coisa se reduzisse a um simples critério geográfico, ou um inverter de datas, é preciso que paremos para pensar se sabemos mesmo o que estamos comemorando na Roda do Ano.

A Roda do Ano como é celebrada na Wicca representa festivais sazonais de plantio e colheita. Sua origem está nos primórdios dos tempos, no período Neolítico, há mais de 10 mil anos, quando surgiram a agricultura e o pastoreio.

Engana-se redondamente quem acha que estamos celebrando festividades celtas (os povos celtas viveram na Europa entre 2000 AEC – Antes da era Comum- e 400 DEC – Depois da Era Comum) . Praticamente todas as culturas pagãs do mundo celebraram os festivais da colheita.

Considerando que os celtas existiram na Europa há cerca de 2 mil anos, só por esse dado se percebe que estamos celebrando muito mais que festivais de um povo ou etnia. Estamos celebrando a dança da natureza, tal como ela se apresentou a nossos ancestrais desde o tempo em que a agricultura e os ciclos dos vegetais plantados, e a criação de animais em cativeiro, mostraram à espécie humana que existiam ciclos solares, que antes passavam desapercebidos porque são de grande duração e difícil observação se não acompanhados pragmaticamente, no dia a dia.

Considerando, pois, que a Roda surge em função das atividades humanas relacionadas a plantio e colheitas, temos que lembrar que ela tem diversas dimensões e funções sociais: ela é notoriamente impregnada de intenção mágica, porque essas celebrações visavam garantir que as colheitas fossem fartas e as pessoas sobrevivessem aos rigores do inverno. Por outro lado, elas faziam com que a sociedade humana marcasse seus eventos – namoros, casamentos, festas de maioridade, celebração dos mortos – em função dos ciclos dessas colheitas.

Pensando assim, temos que perceber que a Roda do Ano tem diversas dimensões:

1)      a sequência dos ciclos solares em si, e das mudanças de temperatura e duração de luz solar a cada dia;

2)      as atividades agrícolas;

3)      as atividades de pastoreio (se era tempo de engorda, reprodução, aleitamento do gado ou se era tempo de corte);

4)      a alternância de disponibilidade da comida ( se era tempo de fartura de grãos ou de economizar, se era tempo de colher vegetais e frutas perecíveis ou tempo de alimentar-se de sementes nutritivas, por exemplo);

5)      as atividades humanas que correspondiam a esses ciclos – se era tempo de grandes festas coletivas com comida farta ou se era tempo de se recolher dentro de casa só com a família e economizar comida para sobreviver ao inverno.

Considerando-se tudo isso, é muito importante que acordemos para o seguinte: muita gente fala daRoda do Ano como se ela fosse uma lei que a Deusa escreveu para os celtas ou para Gardner e ele desceu do Monte Tor com chifres de luz e deu ao povo pagão… Ridículo! A Roda do Ano não é como os dez mandamentos cristãos, não foi “legada” pela Deusa, nem é “indiscutível”.

Quem, afinal, determinou que a Roda do Ano funcionaria com datas invertidas no Hemisfério Sul, simplesmente? Certamente isso surgiu quando a Wicca começou a ser praticada na Australia, de acordo com critérios advindos de grupos que seguiam a wicca gardneriana ou alexandrina. Não é absurdo crer que ninguém realmente pensou na Roda e como ela funcionaria, que podia haver muitas diferenças. Simplesmente alguém que morava no Hemisferio Norte e nada sabia da natureza do Hemisfério Sul, quando foi orientar os novos praticantes do Sul, agiu racionalmente e simplesmente trocou as datas de acordo com a estação do ano. Mas será que isso é válido mágica e energeticamente ou é uma simples operação mental sem grande fundamento?

Para responder isso, temos que continuar pensando nas origens da Roda e no que ela realmente significa.

Tudo o que significa a Roda do Ano é construção cultural humana sobre eventos naturais. Ritos de celebração, ritos propiciatórios (para obter melhores colheitas), rituais de magia simpática para que a fartura voltasse depois do inverno.

Quem se apega muito à questão Hemisfério Sul/ Norte, se atém ao fato de que “Ué, aqui é primavera e não outono”… mas esquece que os próprios conceitos do que é primavera e do que é outono são CONSTRUÇÕES CULTURAIS HUMANAS.

Somos tão condicionados a aceitar primavera/verão/outono/inverno como coisas “naturais” que nem paramos para pensar que até mesmo isso, essa divisão, tem um conteúdo definido culturalmente. Nem toda natureza do planeta apresenta ciclos quaternários bem definidos. Em muitos ecossistemas o sistema binário é muito mais óbvio (chuva e seca, por exemplo), e acabam se aplicando os termos primavera/verão/outono/inverno muito mais por inércia cultural do que porque são a descrição da realidade da natureza.

Por todos os ângulos que se estude quer a Roda do Ano, quer o próprio conceito cultural que definiu como são as 4 estações, sempre se chegará a uma só conclusão: TUDO ISSO FOI DEFINIDO EXCLUSIVAMENTE EM FUNÇÃO DE COMO A NATUREZA SE COMPORTA NO HEMISFÉRIO NORTE.

A Roda do Ano celebrada na Wicca (na maior parte das tradições, porque existem tradições que celebram outras sazonalidades, como a egípcia ou a grega, por exemplo) que trata de uma mitologia em que a Deusa engravida do Deus, o mata na colheita e depois o faz renascer em seu ventre para recomeçar o ciclo, é a mitologia nascida da interpretação dos povos antigos para o fato de que no Hemisfério Norte, especialmente na Europa, em certa época do ano tudo morria sob a neve. Nos solstícios chega a haver 6 a 8 hs de diferença entre o tempo de luz solar, ou seja, na Inglaterra, no solstício de verão, o Sol nasce as 6 da manhã e só se põe perto da meia noite, enquanto no inverno nasce as seis para se por perto das 3 ou 4 da tarde. Notem que essa foi a natureza que inspirou os mitos da Roda, em que o Deus morre e renasce, porque o regime de iluminação solar é muito diferenciado.

No Hemisfério Sul essa enorme diferença, mesmo nos locais mais próximos do pólo, jamais é tão marcada. Nem no Brasil, nem na Austrália, por exemplo, há tanta diferença entre a iluminação no verão e no inverno. Nossa vegetação JAMAIS morre toda ao mesmo tempo e há colheitas e plantio o ano todo… logo, é mais que óbvio que como os ciclos se expressam aqui JAMAIS terá correspondência com o que ocorre na Europa.

Então, essa foi a primeira grande conclusão que cheguei quando pensei a Roda: TENTAR FAZER COM QUE OS 8 SABBATS EXPRESSEM A REALIDADE DA NATUREZA DO HEMISFERIO SUL É COMPLETAMENTE IMPOSSÍVEL. Nosso Sol, mesmo no inverno, jamais morre de vez, nem há longos períodos de escuridão. A diferença entre as horas de iluminação de inverno e verão não chega a 2 hs… então, o que muda aqui? Certamente, se fossemos construir uma mitologia que expressasse os ciclos da natureza do Brasil ou do Hemisfério Sul, teríamos uma mitologia centrada não no desaparecimento do Sol, mas sim no da água. Muito mais que a diferença de iluminação, no Hemisfério Sul, os ciclos da água é que denotam mais a sazonalidade. No verão chove muito mais, no inverno há seca.

TENTAR ADAPTAR A RODA DO ANO À NATUREZA DO HEMISFERIO SUL EQUIVALE A TENTAR ENCAIXAR UM PINO REDONDO EM UM BURACO QUADRADO – NÃO FUNCIONA. A Roda Norte, que é a roda de 8 sabbats, com um ciclo de plantio e 3 colheitas seguidas, jamais poderá servir para descrever a natureza brasileira, por exemplo, em que há 3 ciclos diferentes de plantio de grãos – há, por exemplo, 3 colheitas de milho no ano, a maior delas em pleno inverno!. As pessoas que simplesmente invertem as datas acabam celebrando falsamente os ciclos agrários, porque jamais conseguirão com uma Roda de apenas 8 festivais computar todos os tempos de nossos plantios e colheitas.

É forçoso, pois, concluir que quem celebra pelas datas do norte celebra “ ao contrário’ das estações, mas quem celebra pelas datas do sul TAMBÉM NÃO CELEBRA A REALIDADE DA NATUREZA. E ai, o que isso significa?

Durante algum tempo até pensei, com outros pagãos brasileiros, se não seria de se construir uma mitologia diferente. Logo abandonamos essa idéia. Mitologias não são inventadas, não são fruto de um grupo de pessoas, nem apenas de atos racionais. São fruto da alma de povos, precisam surgir espontaneamente, e ser transmitidas pelas gerações, senão não tem força e não expressam verdades que vão muito além da simples descrição de fenômenos climáticos.

E ai, ao pensar nisso, é que começamos a perceber o que realmente é a Roda do Ano, tal como nos foi legada por nossos ancestrais europeus. Ela não fala de temperaturas, nem de tempos de sol ou folhas secas ou brotos verdes… essas coisa apenas serviram como marcadores do que é realmente a Roda. Ela fala de realidades além do humano, além das colheitas, além das formas que as expressam. Ela fala de coisas que são mistérios, muito mais profundos do que a temperatura ou os critérios geográficos.

Se a Deusa em que acreditamos é o Todo e seu corpo é o próprio Universo, então, temos que admitir que a Roda do Ano descreve o respirar da Deusa, como Ela se comporta e como muda na dança do ano. Vejam bem: como a Deusa muda, e como as energias fluem por seu Corpo INTEIRO, TODO.

A Roda do Ano fala , realmente daquela que é muitas vezes chamada em textos inspirados como “ A única lição da Deusa” , que é a Lição dos Ciclos. A Roda do Ano diz que há um tempo de despertar e crescer, um tempo de amadurecer, um tempo de colher, um tempo de morrer, um tempo de esperar e depois outro tempo de renascer. E isso não ocorre só em um pedaço (sul ou norte) do Corpo da Deusa. Isso ocorre, obviamente, em TODO O CORPO DA DEUSA AO MESMO TEMPO.

Creio firmemente que a Roda do Ano não possa e nem deva ser reduzida a critérios geográficos. Ela precisa ser entendida como a descrição do fluir da energia e suas variações no Todo, que é o Corpo Dela. Por essa visão, então, deixa de ter importância em que hemisfério moramos ou que temperatura faz em cada sabbat e acabamos vendo os sabbats em sua essência e compreendendo as mudanças climáticas de onde estamos apenas como referencias ao ciclos. Porque se o corpo dela é o universo, então é Imbolc em toda a Terra, e em Alpha Centauri, Plutão ou no Cometa Halley, por exemplo…

Explicando; eu não celebro Ostara como apenas o início da primavera. Ostara é a entrada do Sol no signo de Áries, ou seja, um tempo de impulsos, nova vida, iniciativas, explosões e jorros de vida e energia. Março é, pois Ostara, seja no norte, onde corresponde à primavera , ou seja no Sul, onde corresponde ao outono, mas o outono traz esse jorro de inícios, porque o ano civil começa de verdade. Ou vc não sente um tempo de inícios em sua vida após o Carnaval?
Hoje eu celebro Ostara em março e celebro o plantio na minha vida, embora seja o tempo em que começarão os 6 meses de seca do cerrado, em que moro. No nosso Ostara sempre há a celebração tradicional e depois a saudação e boas vindas ás forças da seca, que matarão o cerrado, mas o farão renascer depois. Celebramos também o plantio em nossas vidas. E realmente o ano mal começou e é tempo de planejar e querer mais.

Como se vê, quem celebra pelo norte não ignora o clima e a natureza que o cerca, somente interpreta esse ciclo como parte de um ciclo universal dos Sabbats.

Do mesmo modo uma pessoa que nasce em março no Hemisfério Sul não se torna, pelo critério geográfico, do signo de Libra , mas continua sendo do signo de Áries. Isso ocorre porque o Zodíaco, como a Roda do Ano tem uma aplicação universal: é um linguagem que descreve a predominância de energias no Corpo da Deusa, esteja você onde estiver.

Assim é que podemos ver a correspondência exata dos signos com os Sabbats:

Imbolc – Aquário – renovação
       Ostara – Áries – Impulsos
Beltane – Touro – Sensualidade
Litha – Câncer – Família
Lammas – Leão- Sacrifício do Sol
Mabon – Virgem – Colheitas e agradecimento
Samhain – Escorpião – Morte e mistérios
Yule – Capricórnio – Esperanças

Note, porém que SÓ HAVERÁ CORRESPODÊNCIA EXATA DOS SIGNOS COM OS SABBATS SE MANTIVERMOS AS DATAS ORIGINÁRIAS DO HEMISFÉRIO NORTE. Se invertermos as datas, essa correspondência se perde, e pior, creio que se perde também a noção de que ao celebrar a Rodaestamos celebrando algo universal e não apenas local.

Celebrar pelo Hemisfério Norte tem ainda duas enormes vantagens:

1)      Celebra-se de acordo com a EGRÉGORA ANCESTRAL e não contra ela. Ou seja, celebramos seguindo o mesmo fluxo energético que dura mais de dez mil anos. Essa força não é nada desprezível e todos os que celebram pelo Sul sabem que ela muitas vezes os impulsiona a celebrar, por exemplo, Samhain em 31 de outubro.

2)      Celebra-se o que a sociedade brasileira está vivendo, ou seja, celebram-se os fluxos de energia criados pelas crenças e pela atividade de 200 milhões de pessoas vivas aqui e agora, para quem Yule ( ou Natal) é em dezembro, Ostara ( ou Páscoa) é em março, Dia dos Mortos é perto de Samhain , na transição outubro/novembro e por ai vai…

Lembrem-se que esta força não é de ser ignorada, porque se originariamente a Roda expressa o que a sociedade humana estava celebrando de acordo com a época do ano, não podemos dizer que o que os brasileiros estão celebrando não afete nossa roda pessoal. Nem se diga que as pessoas seguem festivais cristãos, porque isso não é verdade. As pessoas celebram o que nossos ancestrais pagãos celebravam, SEGUNDO O HEMISFERIO NORTE. Logo, celebrar pelo Norte nos mantém ligados ao que nos rodeia, nossa realidade social.

É preciso deixar de lado essa mania esquisita que nos leva a pensar que o que é humano, ou cultural, está fora da natureza. Nós somos natureza também!

Olhando ainda o que ocorre na natureza do Brasil, vemos que muitas vezes a Roda Norte acaba expressando alguns momentos de nossa realidade. Por exemplo, na época das festas juninas celebramos Litha/ Lammas. Ora, esses são festivais de fartura. E o milho é muito farto. Quem inverte e celebra pelo Sul, está em Yule, que deveria ser um tempo de escassez. Ora, mas eles alegam que seguem a realidade da natureza e estão ignorando solenemente essa fartura e celebrando a escassez! Tudo isso só vem demonstrar cabalmente que tanto se ignoram aspectos da natureza do Hemisfério Sul celebrando pela Roda Norte quanto celebrando pela Roda Sul.

A observação de algumas Rodas agrícolas de festivais das nações indígenas brasileiras revelam coincidências notáveis com a Roda Norte. Por exemplo, a Povo Araweté tem o costume de colher somente até o final de outubro, deixando apodrecer na roça o que não foi colhido até então. Esse é um costume típico de Samhain, e foi celebrado por um povo pagão genuinamente brasileiro em outubro…

CONCLUSÃO

Cabe a cada decidir o que quer celebrar e como se sente melhor. Sugiro que se experimente de todos os modos, a fim de saber como você se sente. Sem preconceitos, sem se prender somente a critérios formais de “primavera, verão etc”. Sinta a Roda, olhe a natureza, olhe as pessoas a sua volta e responda: seu próximo sabbat será de inícios ou términos? Será de crescimento ou decréscimo? Ai sim, você poderá escolher o que deseja celebrar.

E, por favor, nunca mais olhe com preconceito para quem celebra pelo Norte. 

Boa Roda do Ano!
Mavesper Cy Ceridwen