quinta-feira, 3 de março de 2016

As Deusas e as Mulheres


No íntimo das mulheres contemporâneas as deusas existem como arquétipos e podem cobrar seus direitos e reivindicar domínio sobre suas súditas. Mesmo sem saber a que deusa está submissa, a mulher pode ainda assim "dar" sua submissão a um arquétipo determinado, por uma época de sua vida ou por toda uma existência. Por exemplo, enquanto adolescente, uma determinada mulher pode ter ficado maluca por um rapaz e totalmente enamorada. Pode ter se envolvido precocemente na sexualidade e corrido o risco de uma gravidez indesejada, sem saber que estava sob a influência de Afrodite, deusa do amor, cujo impulso em direção à união e procriação pode ter apanhado uma garota desprevenida. Ou ela pode ter estado sob a proteção de Artemis, que valorizava o celibato e amava a selva, e ter sido uma adolescente maluca por cavalos ou uma escoteira com mochila. Ou pode ter sido uma jovem Atenas, com o nariz enterrado no livro, motivada pela deusa da sabedoria para obter reconhecimento e boas notas. Ou, quando ela brincava com bonecas, deve ter sido uma criança - Deméter, fantasiando sobre a época em que pudesse ter seu próprio bebê. Ou a jovem Perséfone, colhendo flores nos prados, uma jovem senhora sem objetivo, esperando que alguma coisa ou alguém a arrebatasse. 
Todas as deusas são padrões potenciais na psique das mulheres. Contudo, em cada mulher particular alguns desses padrões são ativados, energizados ou desenvolvidos, e outros não. A formação de cristais foi uma analogia que Jung usou para ajudar a explicar a diferença entre os padrões arquetípicos (que são universais) e os arquétipos ativados (que estão agindo em nós): um arquétipo é como um padrão invisível que determina qual a forma e a estrutura que um cristal tomará enquanto se molda. Uma vez que o cristal se forma, o padrão agora reconhecível é análogo a um arquétipo ativado.
Os arquétipos podem ser comparados à condição genética da semente. O crescimento das sementes depende do solo e das condições climáticas, da presença ou ausência de certos nutrientes, do cuidado ou da negligência por parte dos jardineiros, do tamanho e da profundidade do recipiente, e da solidez da própria variedade.
Da mesma forma, quais deuses ou deusas (muitos podem estar presentes ao mesmo tempo) estejam ativados num determinado tempo é um fato que depende do efeito combinado de uma variedade de elementos em interação, como a predisposição da mulher, a família e a cultura, os hormônios, outras pessoas, circunstâncias não escolhidas, atividades escolhidas e fases da vida.

Jean Shinoda Bolen em Goddesses in Everywoman.