quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Trabalhando a Energia


O universo está inteiramente associado. Isso quer dizer que, ao realizarmos uma ação, esta atingirá todas as coisas. Acender uma vela traz uma luz, mas também projeta uma sombra. Quando falamos em energia, logo pensamos em êxtase. O poder na Bruxaria não é o poder sobre os outros, mas o poder pessoal, que nos faz sentir nosso corpo como sagrados. Como já disse a escritora Starhawk, "Energia é amor e amor é magia".
A energia é um dos conceitos mais simples e naturais da Magia. Nós podemos sentir o poder fluir em nossos corpos assim como podemos sentir o poder no ar ou em uma canção. São energias sutis e nós sempre trabalhamos com elas, pois são essas energias que movem o mundo. A Magia define-se, então, como a Arte de moldar e direcionar tais energias.
A Magia faz parte da Natureza e não contraria as leis naturais. Apenas pela observação e pelo estudo da Natureza que podemos entender como funciona a realidade.

Algumas observações a respeito da energia e do poder
- A energia está em constante movimento e não pode ser interrompida; não há como. As Bruxas simplesmente aprender a se concentrar para fluir junto com as energias.
- A energia move-se em uma espiral; seu movimento é sempre circular. A Lua é um bom exemplo: seu ciclo nasce, cresce, chega ao auge, mingua e nasce novamente.
- Essa noção cíclica da energia nos traz ao conceito de polaridades. Uma energia, estando sempre em movimento, e este movimento sendo cíclico, sempre passará por diversos momentos. Assim, da mesma forma que uma energia tem seu auge, tem também seu período de decadência. A atitividade é contrabalanceada pela passividade. Reconhecer essas alternãncias nos ajuda a manter um certo equilíbrio.
- Nunca mude uma coisa sequer sem antes saber que tipo de reações, positivas e negativas, tal coisa acarretará. Sempre afeta a todos, de algumas maneira. é por isso que não podemos usar o termo "feitiço não-manipulativo", porque todo feitiço trabalha com a manipulação das energias.
- As fontes de energia são infinitas e ilimitadas. Por isso, para gerar energia, devemos dar energia. Não há ganho sem esforço; não há limites na alternância das energias. Mais uma vez: não há mudança sem consequências.

As bruxas e bruxos trabalham com energias. Esse cone de poder nada mais é do que você trabalhar a energia de forma a direcioná-la para seu objetivo. Você foca a sua intenção dentro do ritual.

Um exemplo prático para se ter uma idéia:
Imagine que você acorda de mau-humor, fica o dia inteiro ouvindo besteira, seu chefe é injusto com você, sua namorada liga brigando por besteira, chega na faculdade à noite e descobre que tinha que entregar um trabalho que você esqueceu em casa.. Até a hora que fica insuportável e você simplesmente dá um grito.. E se sente melhor.
É isso; o cone de poder dentro do círculo é uma panela de pressão. Você alimenta a energia com danças, cânticos, meditações etc, até o momento em que achar que deve liberá-la.
Por que um "cone"?
Porque é o formato espiralado que a energia é enviada ao universo.

Fada Bruxa

As Dádivas da Deusa Hécate

'Hecate' by Genevieve-Amelia
 
O dia 13 de agosto era uma data importante no antigo calendário greco-romano, dedicada às celebrações das Deusas Hécate e Diana, quando lhes eram pedidas bênçãos de proteção para evitar as tempestades do verão europeu que prejudicassem as colheitas. Na tradição cristã comemora-se no dia 15 de agosto a Ascensão da Virgem Maria, festa sobreposta sobre as antigas festividades pagãs para apagar sua lembrança, mas com a mesma finalidade: pedir e receber proteção. Com o passar do tempo, perdeu-se o seu real significado e origem e preservou-se apenas o medo incutido pela igreja cristã em relação ao nome e atuação de Hécate. Esta poderosa Deusa com múltiplos atributos foi considerada um ser maléfico, regente das sombras e fantasmas, que trazia tempestades, pesadelos, morte e destruição, exigindo dos seus adoradores sacrifícios lúgubres e ritos macabros. Para desmistificar as distorções patriarcais e cristãs e contribuir para a revelação das verdades milenares, segue um relato dos aspectos, atributos e poderes da deusa Hécate.
      
Hécate é uma antiga deusa de mitos milenares pré-helênicos, cultuada originariamente na Trácia como a representação arcaica da Deusa Tríplice; ela era associada com a noite, lua negra, magia, profecias, cura e os mistérios da morte, renovação e nascimento. Algumas fontes atribuem a origem do nome à palavra egípcia hekat ou hequit que significaria "Todo o poder", já que supostamente o arquétipo de Hécate teria se originado em mitos do sudoeste asiático que foram assimilados no panteão egípcio e mais tarde passados para a religião greco-romana. Hequit era a manifestação da Grande Mãe originária de Núbia, Samotracia e Colchis, vultuada em Aegina, Argos e Atena, regente dos partos, das mulheres e crianças, da magia, da sabedoria dos ciclos da vegetação e da vida. O termo heq ou hek designava as mulheres idosas e sábias, as matriarcas das tribos.
 
Os gregos tiveram dificuldades para enquadrá-la em seu esquema de divindades, mas acabaram considerando-a filha dos Titãs Perseu e Astéria (irmã de Leto, a mãe de Ártemis e Apolo), sendo, portanto, prima de Ártemis. Por ser filha de Titãs estelares, regentes da luz, Hécate usava uma tiara de estrelas que iluminava os escuros caminhos da noite, bem como a vastidão da escuridão interior. Mitos mais antigos lhe atribuíram uma origem mais primal, como filha de Erebo e Nix e ela era conhecida como Afratos, “A sem nome” e Pandeina, “A terrível”, decrita com cabelos de serpentes e um colar de testiculos. Como a única Titã que preservou seu pleno poder, Hécate era honrada como "A primeira e a ultima", "Aquela sem forma e de todas as formas", a própria alma do universo, Criadora de tudo que existia. Como neta de Febe, a Titã que personificava a Lua e de Nyx, a deusa ancestral da noite, Hécate também era uma “Rainha da Noite” tendo o domínio do céu, da Lua, das marés e sendo indutora dos sonhos e dos pesadelos. Neste aspecto ela levava sobre a testa o crescente lunar (a tiara chamada de pollos), uma ou duas tochas nas mãos e serpentes enroladas no seu pescoço.

Acreditava-se que Hécate fora outrora uma das Erínias, pois seus símbolos são idênticos (tochas, serpentes, sombras, etc). Também já foi citada como uma das Moiras, pois tanto Hécate, quanto sua filha Circe, podia intervir nos fios do Destino.
Sua verdadeira origem permanece bastante misteriosa, caracterizada mais pelas suas funções e os seus atributos do que pelas lendas em que aparece. Os mitos gregos relatam que Zeus lhe concedeu um lugar especial entre os deuses, embora ela não pertencesse ao grupo olímpico, mas aos Titãs, e respeitou seu antigo poder de dar ou negar suas dádivas aos mortais. Hécate ficou conhecida como Hécate Trivia ou Triformis, a regente do céu, da terra, do mar e do mundo subterrâneo, doadora da riqueza e das bênçãos da vida cotidiana. Na esfera humana ela presidia os três grandes mistérios: nascimento, vida, morte e regia o poder de transformação e regeneração. Por ter uma origem muito antiga e cuja essência e significado foram se modificando com o passar do tempo, ela foi equiparada com outras deusas e delas assimilou e incorporou atributos e mitos, o que explica a grande diversidade de nomes e dons atribuídos a Hécate.
 
Hécate espalhava para todos os homens a sua benevolência, concedendo as graças para os que lhe pediam como: prosperidade material, o dom da eloquência nas políticas, a vitória tanto nas batalhas, quanto nos jogos. Proporcionava peixe abundante aos pescadores, fazia prosperar ou definhar o gado conforme queria. Os seus privilégios estendiam-se a todos os campos ao invés de se limitar a alguns como era, em geral, com as outras divindades. Hécate era invocada particularmente como a "deusa que nutria a juventude”, em pé de igualdade com os gêmeos Ártemis e Apolo e como a protetora das crianças, sendo também enfermeira, parteira e curandeira de jovens e de mulheres.
    
Hécate, em grego, significa “A distante” ou “A remota”, por proteger os lugares ermos e remotos, sendo a guardiã das estradas, dos viajantes, pescadores, marinheiros e dos caminhos, principalmente das encruzilhas onde convergiam três caminhos. Nestes locais, os gregos percebiam melhor a presença de Hécate, por isso lhe ergueram estátuas tricéfalas chamadas Hecaterion e deixavam oferendas dos seus alimentos ritualísticos, as famosas “ceias de Hécate”. Acredita-se que o termo
Hecatéias atribuído às estátuas, na realidade designava as sacerdotisas oraculares que serviam nestes locais. Os dias dedicados á Hécate eram o fim do mês, as sextas feiras (principalmente se fossem nos dias treze), os eclipses, 13 de agosto e 16 de novembro. Atualmente grupos neo-pagãos a reverenciam no sabbat Samhain, na “Noite das ancestrais” e no Dia dos Finados.

Antigamente, as mulheres que a cultuavam pintavam suas mãos e pés com hena e colocavam o símbolo da lua tríplice nas suas testas e a reverenciavam ajoelhadas, abrindo os braços e elevando a cabeça para o céu, em seguida colocando as mãos no chão, abaixando a cabeça e tocando a terra com a testa. Hécate era invocada antes das mulheres saírem das suas casas e para afastar as energias negativas a soleira da casa era varrida da esquerda para a direita, de dentro para fora, a vassoura sendo um antigo e poderoso objeto mágico Nos tempos antigos faziam-se sacrifícios de animais de cor negra como cachorros, carneiros ou aves. Todos os animais selvagens e as aves noturnas eram consagrados a Hécate, o que aponta para a sua descendência do arquétipo neolítico da "Senhora dos Animais" e a sua manifestação arcaica como o “cão da lua”. A sua aparição era assinalada pelo latido dos cachorros, o uivo dos lobos e o farfalhar das corujas e morcegos.

As oferendas feitas pelas mulheres incluíam maçãs e romãs (representando a morte e o renascimento), alho (proteção contra as energias negativas), mel (para atrair doçura), azeite (para fluir melhor com a vida), vinho (como gratidão) e bolos de centeio com sementes de papoulas (para propiciar prosperidade). O espelho negro, uma espiral diferente chamada de eixo de Helike e uma esfera dourada no meio com uma safira eram seus objetos mágicos menos conhecidos, mas muito significativos por representar a visão sutil e a proteção nos labirintos da vida.

Como descrição simbólica da natureza tríplice da Deusa, Hécate era representada como três mulheres juntas, porém cada uma virada para uma direção ou com idades diferentes (jovem, madura, anciã), uma figura com três cabeças e seis braços portando tochas ou com cabeças características de animais como cão, serpente e leão ou leão, serpente e cavalo ou cão, serpente, cervo. Ela transmitia o poder de olhar para três direcções ao mesmo tempo e sugeria que algo no passado estava ligado com o presente e influenciando planos futuros. As três faces passaram a simbolizar seu poder sobre: o mundo subterrâneo, onde morava, ajudando à deusa Perséfone a julgar os mortos, a terra, onde rondava nas luas novas e nas noites escuras e o mar, onde tinha seus casos de amor. Esse tríplice poder de Hécate é comparável ao seu tríplice domínio sobre o mar, a terra e o céu. Seus símbolos eram a chave, por ela ser a Guardiã do mundo subterrâneo, detentora dos segredos da magia e da reencarnação, o chicote ou a corda trançada, que revelava o seu lado punitivo e seu papel de Condutora das "almas errantes" (a missão do psicopompo), o cordão umbilical, bem como o poder de medir, amarrar ou soltar e o seu punhal, representando seu poder eterno sobre morte e na magia (transformado depois no athame das feiticeiras e bruxas). A sua morada era nas grutas e cavernas e ela perambulava pelos cemitérios à procura das "almas errantes" para conduzi-las ao seu reino subterrâneo. Suas acompanhantes eram as Erinias ou Fúrias (as deusas que puniam os transgressores das leis e os que ofendiam as mães), Empusas (espectros), Circe, Medeia e Silla (feiticeiras), Cercopsis (espíritos zombeteiros) e Mormo (mortos vivos), que constituíam uma legião noturna acompanhada na sua passagem - durante as tempestades ou nas noites escuras-, do latido ou uivo dos cães. Os deuses companheiros eram: Hermes (protetor dos viajantes e condutor das almas), Tanatos (morte), Hipnos (sono) e Morfeu (sonhos).

Pouco a pouco, a deusa Hécate adquiriu uma caracterização diversa, sendo considerada como uma Deusa Escura, que presidia a magia e os feitiços, ligada ao mundo das sombras e que aparecia aos magos e às feiticeiras com um archote em cada mão, ou sob a forma de diversos animais: égua, cadela, coruja ou loba. É a ela que foi atribuida a invenção da feitiçaria, e a lenda incorporou-a na família das magas por excelência: Circe e Medéia, Circe sendo filha de Hécate e ora mãe, ora tia de Medéia.
   
Desde épocas primevas, antes do patriarcado se ter estabelecido, Hécate era vinculada com o lado escuro da Lua, mas a sua presença era percebida e honrada nas três fases da Lua. A Lua na verdade não tem luz própria, é um astro escuro que apenas reflete a luz solar. A Lua cheia é a Lua vista pela luz do Sol, a Lua nova e negra é a verdadeira face da Lua. Hécate era considerada como fazendo parte de uma triplicidade lunar: Ártemis, a lua crescente, Selene, a lua cheia e Hécate a lua minguante e negra; ou como as forças da Lua em vários reinos: Ártemis na terra, Selene no céu e Hécate no mundo subterrâneo. No ciclo das estações e das fases da vida feminina Hécate formava uma tríade divina juntamente com: Kore/Perséfone/Proserpina/Hebe, que presidiam a primavera, fertilidade e juventude, Deméter/Ceres/Hera, as regentes da maturidade, gestação, parto e colheita.

É fácil perceber o entrelaçamento entre o claro e o escuro da Lua, pois o lado visível da Lua, o aspecto de Ártemis, que reflete o pulsar da vida, é ligado com o lado oculto, sombrio, o inconsciente representado por Hécate. Dentro do mundo subterrâneo - representado pelo ventre fértil da terra -, a vida e a morte coexistem em um mesmo processo cíclico, em que o “ser” e o “não ser” vivem juntos, sem conflito. A conexão com Hécate nos revela os sonhos guardados, os desejos ocultos, os segredos do inconsciente e revela o potencial latente para a fertilização de novas possibilidades. Por isso Hécate é vista como uma guia no reino oculto da alma e invocada nas terapias de regressão, renascimento e nos rituais de transmutação de medos, fobias, apegos e culpas.
    
Na sua manifestação como ”Senhora das encruzilhadas” - dos caminhos e da vida - e do mundo subterrâneo, Hécate é um arquétipo primordial do inconsciente pessoal e coletivo, que nos permite o acesso às camadas profundas da memória ancestral. É representada no plano humano pelo xamã que se movimenta entre os mundos, pela vidente que olha para passado, presente e futuro e pela curadora que transpõe as pontes entre os mundos e traz comunicações espirituais para a cura e regeneração dos seus semelhantes. Ela rege os processos misteriosos do ciclo do “eterno retorno”, a vida, a morte e o renascimento sendo entrelaçados no processo alquímico da transmutação.
        
Devido à sua natureza multiforme e misteriosa e à ligação com os poderes femininos “escuros”, as interpretações patriarcais distorceram o simbolismo antigo desta deusa protetora das mulheres e enfatizaram seus poderes destrutivos ligados à magia negra (com sacrifícios de animais pretos nas noites de lua negra) e aos ritos funerários. O desenvolvimento no período clássico da sociedade patriarcal deu origem a uma visão dualista das forças espirituais, vistas em um perpetuo embate entre as positivas e negativas, o bem e o mal. Hécate tornou-se o alvo predileto da personificação do mal e foi recebendo uma aura de perigo misterioso, de horror e negatividade demoníaca. Ela foi transformada na “Rainha das bruxas”, responsável por atos de maldade, missas negras, desgraças, tempestades, mortes de animais, perda das colheitas e atos satânicos. A percepção distorcida dos atributos de Hécate foi consolidada na psique ocidental durante o período medieval, quando a igreja cristã projetou este arquétipo nas pessoas pagãs do campo, que seguiam seus antigos costumes e rituais ligados à fertilidade, declaradas “malévolas adoradoras do demônio”, bandos de bruxas praticantes de ritos e cerimônias abomináveis, nas noites escuras e em certas datas tidas como maléficas. Estas invenções tendenciosas levaram à perseguição, tortura e morte pela Inquisição de milhares de “protegidas de Hécate” como as curandeiras, parteiras e videntes, mulheres “suspeitas” de serem Suas seguidoras e os animais a Ela associados (cachorros e gatos pretos, corujas).

No intuito de abolir qualquer resquício do Seu poder, Hécate foi caricaturada pela tradição patriarcal como uma bruxa perigosa e hostil, à espreita nas encruzilhadas nas noites escuras, buscando e caçando almas perdidas e viajantes com sua matilha de cães pretos, levando-os para o escuro reino das sombras vampirizadoras e castigando os homens com pesadelos, poluções noturnas e perda da virilidade. As imagens horrendas e chocantes são projeções dos medos inconscientes masculinos perante os poderes “escuros” da Deusa, padroeira da independência feminina, defensora contra as violências e opressões das mulheres e regente dos seus rituais de proteção, transformação, autodefesa e afirmação.
                                     
Os treze aspectos de Hécate:
 
1. Chtonia, a anciã senhora do mundo subterrâneo.
2. Cratais, a poderosa.
3. Enodia, a guardiã dos caminhos e viagens.
4. Kleidachos, a guardiã das chaves.
5. Kourotrophos, a guardiã dos nascimentos e das crianças.
6. Phosphoros, a detentora da tocha que ilumina.
7. Propolos, a guia e companheira que conduz.
8. Propylaia, a protetora das portas e entradas.
9. Prothiraia, a parteira e protetora dos partos.
10. Prytania, a rainha dos mortos.
11. Soteira, a salvadora e redentora.
12. Trivia ou Trioditis, a senhora das encruzilhadas.
13. Triformis ou Trimorphis, a deusa tríplice, com três formas.
 
Hécate Triformis como “Senhora da magia” confere o conhecimento dos encantamentos, palavras de poder, poções, rituais e adivinhações àqueles que A cultuam. No aspecto de Antea, a “Guardiã dos sonhos e das visões”, tanto pode enviar visões proféticas, quanto alucinações e pesadelos, se as brechas individuais permitirem. Como Prytania, a “Rainha dos mortos”, Hécate é a condutora das almas e sua guardiã durante a passagem entre os mundos, mas Ela também rege os poderes de regeneração, sendo invocada no desencarne e nos nascimentos como Protyraia, para garantir proteção e segurança no parto, vida longa, saúde e boa sorte. Hécate Kourotrophos cuida das crianças durante a vida intrauterina e no seu nascimento, assim como fazia sua antecessora egípcia, a parteira divina Hequit. Possuidora de uma aura fosforescente que brilhava na escuridão do mundo subterrâneo, Hécate Phosphoros é a guardiã do inconsciente e guia das almas na transição, enquanto as duas tochas de Hécate Propolos, apontadas para o céu e a terra, iluminam a busca da transformação espiritual e o renascimento, orientado por Soteira, a "Salvadora". O seu aspecto Chtonia é da deusa anciã, detentora de sabedoria, padroeira do inverno, da velhice e das profundezas da terra. Hécate Trivia e Trioditis, protetoras dos viajantes e guardiãs das encruzilhadas de três caminhos, recebiam dos Seus adeptos pedidos de proteção e as oferendas chamadas “ceias de Hécate”. Propylaia era reverenciada como guardiã das casas, portas, famílias e bens pelas mulheres, que oravam na frente do altar antes de sair de casa, pedindo sua benção. As imagens antigas colocadas nas encruzilhadas ou na porta das casas representavam Hécate Triformis ou Tricephalus como um pilar ou estátua com três cabeças e seis braços que seguravam suas insígnias: tocha (para iluminar o caminho), chave (abria os mistérios), corda (conduzia as almas e reproduzia o cordão umbilical do nascimento), foice (para cortar ilusões e medos).
 
No atual renascimento das antigas tradições da Deusa, compete aos círculos sagrados femininos resgatar as verdades milenares, descartando e desmascarando imagens e falsas lendas, que apenas encobrem o arcaico medo patriarcal perante a força mágica e o poder ancestral feminino e que podia levar as mulheres a desenvolver um sentido de independência perante o masculino. A civilização patriarcal incutiu um medo secular nas mulheres perante a figura distorcida de Hécate, vista como uma bruxa terrível, malévola e perigosa. Mas, se resgatarmos as suas qualidades e atributos antigos, encontraremos nela uma gentil guardiã e compassiva mestra. Ela está presente em todas as encruzilhadas tríplices que existem em todos os níveis do nosso ser representados como espírito, mente e corpo. Devemos reconhecer que a imagem tenebrosa e ameaçadora de Hécate é um mero registro do medo inconsciente do feminino que os homens condicionados e programados por conceitos e valores patriarcais unilaterais, projetaram ao longo de milênios neste arquétipo.
 
Temos que mergulhar no lado sombrio do nosso inconsciente, compreendê-lo e aceitá-lo integrando-o na nossa psique. Pois, se o evitarmos, criaremos ou reforçaremos a dualidade polarizada em opostos e energias antagônicas e continuaremos perpetuando a visão dualista do mundo. Devemos descobrir e nos relacionar com a nossa Hécate interior, como a Guardiã da nossa consciência, do nosso lado sombrio e, ao estabelecer uma relação com ela, confiar na sua proteção, ajuda e orientação. Somente assim permitiremos uma melhor percepção das riquezas e possibilidades do nosso mundo inferior pessoal, nos tornando seres integrados, capazes de lidar com as nossas polaridades, sem projetar de imediatos conceitos dualistas do “bem” e “mal” nos eventos e nas pessoas.
 
Atualmente podemos nos relacionar com Hécate sem preconceito ou medo, honrando-a como Guardiã do nosso inconsciente, que tem nas mãos a chave dos reinos sombrios existentes em nós e que traz a tocha para iluminar as profundezas do nosso ser interior. Em função das nossas próprias memórias de repressão e dos medos impregnados no inconsciente coletivo, o contato com a Deusa Escura pode ser atemorizador por acessar a programação negativa que associa escuridão com mal, perigo, morte. Para resgatar as qualidades regeneradoras, fortalecedoras e curadoras de Hécate precisamos reconhecer que as imagens destorcidas não são reais, nem verdadeiras, que nos foram incutidas pela proibição de mergulhar no nosso inconsciente, descobrir e usar nosso verdadeiro poder.
A conexão com Hécate representa para nós um valioso e poderoso meio para acessar a intuição e o conhecimento inato, desvendar e curar nossos processos psíquicos, aceitar a passagem inexorável do tempo e transmutar nossos medos perante o envelhecimento e a morte. Hécate nos ensina que o caminho que leva à visão sagrada e que inspira a renovação passa pela escuridão, o desapego e transmutação. Ela detém a chave que abre a porta dos mistérios e do lado oculto da psique; Sua tocha ilumina tanto as riquezas, quanto os terrores do inconsciente, que precisam ser reconhecidos e transmutados. Ela nos conduz pelas armadilhas da escuridão e nos revela o caminho da renovação e salvação. Porém, para receber Seus dons visionários, criativos ou proféticos, precisamos mergulhar nas profundezas do nosso mundo interior, encarar o reflexo da Deusa Escura dentro de nós, honrando Seu poder e Lhe entregando a guarda do nosso inconsciente.

Ao reconhecermos e integrarmos Sua presença em nós, Ela irá nos guiar nos processos psicológicos e espirituais e no eterno ciclo de morte e renovação. Porém, devemos sacrificar ou deixar morrer o velho, encarar e superar medos e limitações; somente assim poderemos flutuar sobre as escuras e revoltas águas dos nossos conflitos e lembranças dolorosas e emergir livres e leves para um novo ciclo.

Mirella Faur

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

O Chamado da Deusa

 
O Chamado da Deusa é como a Arte é apresentada a você. Ele é diferente para cada pessoa, mas normalmente tem alguns traços comuns:
o amor pela terra e seus habitantes, o desejo de conectar-se à "Alma do mundo", o cuidado com os animais e a natureza, etc.
É uma consciência que se forma dentro de você.
Algumas pessoas sentem o Chamado como se fosse algo que as colocasse no mundo, algo que fizesse com que elas se sentissem no lugar certo.
Mas a experiência é pessoal e assim sendo, não existe uma forma rígida para acontecer.
O chamado da Deusa é uma coisa muito pessoal e pode vir a acontecer de formas diversas:
Há pessoas que sentem o chamado em sonhos,
pela simples vontade irresistível de conhecer bruxaria,
há aquelas que ouvem o chamado lendo as Brumas de Avalon ou até mesmo, jogando RPG...
O que importa não é como o chamado ocorre e sim, que ele ocorreu.
E se você ouviu a Voz da Deusa , cujo corpo é tudo que existe no Universo,
você nunca mais a deixará, porque ela sussurra em tudo o que existe...
Não há como nem onde se esconder Dela.
O chamado da Deusa algo que todo bruxo genuíno sente dentro de si um dia.
Só pode entender quem realmente o sentiu.
Quando a Deusa chama o seu filho, ele se sente impulsionado para Ela com tal força que nada pode pará-lo.
Ele irá correr para os seus braços, como quem volta ao seu lar (que é o que realmente acontece). Aquele que "ouviu" o Chamado não se desvia do seu caminho.
Infelizmente, a Bruxaria se tornou uma "moda esquisotérica embalada para consumo" no mundo todo, como já foram moda os famosos "anjinhos da guarda".
Há uma profusão de pessoas usando pentagramas no pescoço e se dizendo grandes bruxos que não faz sentido.
Esse modismo é resultado do fascínio que uma religião com poucas regras, que cultua Deuses Antigos e lida com uma magia fácil de ser realizada causa nas pessoas.
As pessoas que entram na Bruxaria por moda não ouviram realmente o Chamado.
E é por isso que não continuarão nesse Caminho, pois não é realmente o Caminho deles.
O fato de se dizer que apenas alguns ouvem esse Chamado pode parecer algo elitista, como se só alguns tivessem o direito supremo de cultuar a Deusa e Seu Consorte.
Mas as coisas não são bem assim.
Quer-se dizer com isso que a Bruxaria não é um Caminho para todos, assim como nenhuma religião é Caminho para toda a Humanidade.
Cada ser humano tem o seu próprio Caminho a seguir e deve seguí-lo.
Assim, quem ouvir o Chamado da Deusa, deve seguir um caminho regido por Ela, como a Wicca. Quem foi chamado por Jesus Cristo deve seguir o Cristianismo.
Quem foi chamado por Krishna deve seguir o Hinduísmo.
Cada pessoa só será feliz no seu caminho real.
Não adiante seguir um outro caminho, por qualquer razão que seja, como o modismo. Simplesmente não dará certo.
E é por essa razão que a bruxaria não  tenta converter ninguém.
Cada um deve ouvir o Chamado da Deusa por si mesmo.
Só a Deusa saberá o momento de chamar os seus filhos para si e aos seus filhos cabe saber sentir esse chamado.
Proselitismo é uma prática considerada abominável nas religiões pagãs em geral.

Você ouviu o chamado da Senhora?


Ela canta sua Canção sagrada em tudo o que existe, sussurra na brisa nas folhagens, grita nos relâmpagos, ruge nos vulcões. Ela geme em cada grito de dor, se faz ouvir no choro do recém nascido e do moribundo, na altivez do leão e nas patas da gazela. Ela chora nas queimadas da amazônia, é ferida nas guerras, se encontra na fome e na satisfação da fome. Ela é vida e é morte. É a terra com seus frutos abundantes e a Ceifeira que traz a morte e a putrefação, de onde a vida torna a brotar.

Ela canta sua canção mais bela quando a Lua enche nos céus .. é a Senhora das águas que correm, trazendo vida ao planeta... sua música é a complexa sinfonia sem fim das vastidões das galáxias e suas notas mais brilhantes são cada uma das estrelas.

Se você ouviu algum dia tudo isso, não há lugar no universo onde você possa se esconder do chamado da Deusa e nessa hora, se você simplesmente responder ao chamado e escolher o Antigo Caminho, será uma bruxa.

 Van Brighid

DOCE Lavanda


Lavanda

Planeta: Mercúrio
Elemento: Ar

“Uma viagem de aroma e magia…”

Dentre todos os óleos essenciais, o de Lavanda é o mais versátil, com uma gama de propriedades que vão desde a de analgésico, passando pela de antidepressivo, anti-séptico, bactericida e descongestionante, até a de hipotensor, repelente de insetos, sedativo e vermífugo.
Suas propriedades, no entanto, podem ser mais bem resumidas nas de calmante e reguladora.
Talvez a mais importante propriedade do óleo de Lavanda seja sua capacidade de restaurar estados de desequilíbrio (da mente ou do corpo) para aquele quadro de equilíbrio em que a cura pode ter lugar.
Sua composição química é muita rica, contendo ésteres, geraniol, linalol e muitos outros elementos importantes. Após um verão seco e quente, por exemplo, o óleo deverá apresentar uma proporção mais elevada de ésteres (calmantes) do que após um verão fraco, de sorte que a Lavanda cultivada nesta região apresenta sempre uma proporção mais elevada de ésteres do que as plantas cultivadas em outras regiões.
Lavanda dá-se no alívio de dores musculares. Por isto atua tão bem nos casos de tensão nervosa. Usado para massagear as têmporas, o óleo de Lavanda deverá aliviar vários tipos de dor de cabeça.
É o calmante natural que a natureza nós deu.
Excelente óleo para os problemas de garganta. Pode-se massagear um pouco de óleo de Lavanda na região da garganta a fim de aliviar uma tosse irritativa.
O óleo de Lavanda é anti-séptico e analgésico, ideal para tratar queimaduras e toda sorte de ferimentos.
Também promove uma cura rápida e ajuda a impedir a formação de cicatrizes.
Seu aroma é especial!
Uma quantidade mínima de óleo de Lavanda no banho de um bebê ajudará uma criança agitada a dormir.
Quem começa a usar a Lavanda faz dela uma aliada.
A ação do óleo de Lavanda sobre o músculo do coração é ao mesmo tempo tônica e sedativa, o que o torna valioso para o tratamento de palpitações.
Lembrando sempre que de forma nenhuma dispensa os tratamentos médicos. Ela é usada como prevenção.
Ela aumenta a nossa auto-estima.
A palavra Lavanda vem do latim “lavare“. Ela lava, limpa e desintoxica.
Faz a gente respirar mais fundo… Aumentando o nosso espaço interno! Diminuindo assim a nossa opressão.
Abrindo o nosso coração…
Para amar! Perdoar!
Mapa da localização das melhores plantações de lavanda do mundo. - Região da Provence – França

Magia Zen

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Romã — O Doce Amargo do Amor



“O amor e a romã se confundem na cor, o doce amargo da fruta, e amargo doce do amor, será tudo a romã, ou tudo será o amor!" -  Aguinaldo Ribeiro


Planeta regente - Mercúrio 
Melhor destino - Adivinhação, Sorte, Realização de desejos e Fertilidade

Para os gregos era símbolo do amor e da fertilidade, tanto que a romãzeira foi consagrada à Deusa Afrodite. Já em Roma possuía como características ordem, riqueza e fecundidade. Sejam entre os fenícios, egípcios, judeus ou quaisquer outros povos da antiguidade, os que tiveram contato com tal fruta a tinham em alta conta.
Bastante utilizada entre os povos árabes e europeus como planta ornamental por possuir belas flores e fruto encantador, a romãzeira tinha destaque ainda por suas propriedades medicinais.
Hoje o maior produtor mundial é a Espanha e grande parte do cultivo é destinado à Inglaterra e França. No Brasil o consumo ainda é modesto, O que é uma pena, visto que possui sabor marcante podendo ser um ingrediente absolutamente inovador em inúmeras receitas. Entretanto, temos a romã como item indispensável para muitas das simpatias de ano novo.

BOLO DE ROMÃ


INGREDIENTES:
  • 2 ovos
  • 8 colheres de sopa de suco de romã
  • 1 xícara de chá de buttermilk *
  • 100 grs. de manteiga derretida e em temperatura ambiente
  • 2/3 xícaras de chá de açúcar mascavo
  • ½ xícara de chá de mel ou açúcar refinado
  • 3 xícaras de chá de farinha de trigo com fermento
  • 1 colher de chá de gengibre em pó
  • ¼ colher de chá de cardamomo em pó
  • 1 ½ colher de chá de bicarbonato de sódio
Para a calda:
  • 4 colheres de sopa de açúcar
  • 1 xícara de chá de suco de romã
  • 1 colher de sobremesa rasa de amido de milho (caso haja necessidade)
MODO DE PREPARO:

Tirar as sementes das romãs e reduzir a suco, deixar alguns grãos para enfeitar a calda.
Bater bem os ovos com a manteiga derretida, acrescentar o buttermilk e as 8 colheres do suco de romã. Em seguida pôr o açúcar, o mel, o cardamomo, o gengibre, batendo a cada adição. Finalmente acrescentar a farinha de trigo e o bicarbonato, mexendo bem sem bater.
Colocar em forma untada e enfarinhada e levar ao forno a 180° por aproximadamente 40 minutos.
Depois de desenformado, furar com um palito e jogar a calda por cima.

Calda:
Levar ao fogo o suco das romãs com o açúcar e deixar ferver até quase reduzir à metade. Se a calda ficar muito rala (vai depender das romãs), acrescentar o amido de milho e deixar ferver mais um pouco até à consistência desejada.
Dica: Para descascar a romã, role-a primeiramente pela bancada, amaciando um pouco. Depois ainda sem abrir e com uma colher dê uma “surra”, batendo com vontade. Depois a abra ao meio e a coloco em uma vasilha rasa e vá batendo mais com a colher até soltar todos os grãos.
Buttermilk: Em 1 xícara de chá de leite, colocar 1 a 2 colheres de sopa de suco de limão e deixar por 15 minutos.

Rosa dos Ventos

Divagações da Alma Bruxa

A bruxa possui em seu interior o fogo transformador. Nela arde a chama do desejo. A bruxa seduz ou reduz com o olhar, suas palavras tem o dom de instigar ou oprimir. Ela é toda magia, veículo de uma volúpia que não pode ser contida. Há prazer e dor nas contrações que expressam seu ofício.
E de onde vem tal poder? Nasce da excitação, não necessariamente sexual, que provoca a agitação e a perturbação, condição que a faz tocar o âmago, tornado-a uma com suas emoções, essas sim os verdadeiros instrumentos da arte dos proscritos.

O Dom de criar é dádiva do sangue, nem sempre de origem animal, já que como o mesmo nutre o corpo, a água nutre a terra. É um poder fluido como o elemento que rege as emoções, o mar das almas que guarda o legado feiticeiro.
A vontade é a força soberana que confere a dimensão e intensidade daquilo que é feito através do olhar, da dança ou das palavras. A bruxa grita e gargalha ao trabalhar, contudo o que há de ser temido de fato não é seu esbravejo e sim o seu sussurro.

O sussurro da bruxa é a força que atrai o rio para o mar, o homem para o luar e a presa para o altar.

Portanto, ao trabalhar magia, tenham sempre a vontade como espada e a certeza como escudo, pois se uma é impulso criador, a outra é o poder mantenedor da força conjurada. A dúvida destrói o que a vontade cria, só a certeza tem a qualidade de fazer germinar a semente plantada.
Compartilho com vocês uma poesia que para mim ilustra bem parte da alma bruxa.

Dissipa

"Quem pode dizer o que habita em mim
Se muitas vezes moro fora da carne
Viajando entre realidades
Tolo é aquele que insiste na afirmação
De que sou dessa ou daquela forma
Quando na verdade só existe a reforma
Daquilo que feliz desconstruo
Se querem me definir o caminho posso indicar
Sou um dia passado
Hora e local errado
Em que o pecado a Deus apeteceu
Doce que a boca amarga
Risada inapropriada
Chama de Prometeu."


Rosa dos Ventos

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Hécate - Titã das Bruxas





"Eu sou a sombra mais profunda, o caminho a ser trilhado e a própria magia. Reverencie-me nas encruzilhas triviais e em todas as faces da Lua e eu lhe darei a chave dos mistérios universais!"


NO INÍCIO DE TUDO, HÉCATE FALA:

Quando o Universo atravessou os umbrais da existência
Em um fogo cósmico brilhante como um raio
Eu, Hécate, testemunhei o primeiro nascimento
Eu, Hécate, observava de soslaio
Enquanto a escuridão se tornava firmamento
Enquanto "O Nada" paria "O Tudo", que ainda haveria de ser
Eu existi entre os dois, caótica, poderosa, potente
Sol e Lua, Terra e Céus, Hades e o Olimpo ainda a nascer
Existo no entremundos, no crepúsculo, e no Sol poente
Sou o sopro que deixa seus pulmões vazios
Sou o grito desesperado do recém-nascido
Moro nas juras de amor sussurradas ao ouvido
E nas lágrimas da verdade, ricas em sal
Pois sou a zona cinzenta entre o bem e o mal
Ah... mas o que se criou há de se destruir
Tudo é cinza, e reino absoluta. Não há mal ou bem
Meu é o reino que não tem Rainha ou Rei
Meu é tudo o que não pertence a ninguém
Como portadora da chave, eu permaneci e permanecerei
E quando o Universo deixar de existir, aqui estarei.

Extraído do livro A Magia de Hécate - Uma Roda do Ano com a Rainha das Bruxas
Por Naelyan Wyvern e Dylan Siegel, Ed. Madras
 

Hécate é a Titã Grega da magia, da feitiçaria, do parto, do tempo, do fogo, da proteção, da iluminação, do conhecimento, dos mistérios, da noite, do Submundo, do destino, da Lua, dos ciclos femininos, da maternidade, da fertilidade, do inconsciente, dos limiares, dos animais, dos desafios, da sabedoria, das encruzilhadas, das estradas, das viagens, da riqueza, da vitória, dos jogos, da eloquência na política, das escolhas, da religião, do lar, das ervas venenosas, da necromancia, dos espíritos infernais, dos fantasmas, da vidência, da profecia, da alucinação, da vingança, das maldições, da cura, da dualidade, da transformação, da purificação, da vida e da morte. Filha de Perses e Asteria (e prima de Apolo e Ártemis) ou de Tártaro e Nyx, dependendo da fonte, o significado de seu nome é bem obscuro e algumas suposições foram feitas: de uma palavra grega que significa “verdade”; de Hekatos, um epíteto de Apolo, podendo significar “A que remove ou move”, “A que opera à distância” ou ainda “A que lança dardos longe”; ou ainda pode derivar do nome da Deusa egípcia Heket que significa “Todo o Poder”.

Pouco se sabe acerca de seus mitos. Não porque fosse uma Titã pouco cultuada na Grécia Antiga, mas porque com a cristianização do mundo ocidental inúmeros documentos a seu respeito foram destruídos e sua imagem deturpada. Desta forma, pouco se sabe quem foi Hécate. Mas, ainda assim, Hécate é identificada como tendo um papel principal num dos mitos gregos mais importantes: a descida de Koré ao Submundo. Pois foi Hécate a propulsora de toda a história quando Koré lhe pediu ajuda, ocasionando assim na transformação da Deusa da Primavera para a Rainha do Submundo, Perséfone.

Sabe-se também que sua importância no mundo Helênico era tamanha que, mesmo com o fim do matriarcado, um de seus mitos permaneceu: caso uma oferenda fosse deitada em terra e o ofertante não destinasse a mesma para nenhuma divindade, automaticamente aquela oferenda seria de Hécate. Isso se dava, pois Hécate é a Rainha de tudo que não tem domínio, donos ou que não tem definição própria e, por isso mesmo, as encruzilhadas e as portas (umbrais) eram considerados reinos Dela, visto que a primeira não faz parte de nenhum dos caminhos e a segunda não está nem dentro e nem fora de casa (o mesmo valendo para os círculos mágicos e o período de Dedicação, pois no primeiro você não está em nenhum mundo e no segundo você é um sacerdote sem ser um sacerdote ainda). Hécate também tem papel importante no retorno das almas a Terra, pois durante a primavera e o verão, que Perséfone se ausenta do Submundo para ficar com sua mãe Deméter, Hécate assume o posto de Rainha do Submundo e todas as funções de Perséfone naquele reino.


Seu reino é tanto o Submundo quanto o céu, a terra e o mar e sua influência se dá em todas as esferas. Mesmo não sendo uma Deusa do Dodecatheon, Ela é extremamente respeitada e temida por todas as divindades. Tem o poder de criar ou reter com tempestades, o que fez com que caísse nas graças dos marinheiros e pastores. Hécate também é a instrutora, a guia, a mestra da magia, a Rainha das Bruxas (epíteto atribuído a Ela recentemente pelo movimento neopagão), mas Ela também é a Titã da Sabedoria. Ela nos ensina que o que é conquistado é muito mais valorizado do que aquilo que é dado, por conseguinte, nunca entrega nada gratuitamente. Por isso mesmo, caso queira algo em troca Ela sempre traz um desafio que, sendo superado, vem junto a uma recompensa.

Por vezes era chamada de Mãe dos Anjos como uma alusão a ser a líder dos Daimons: seres que acompanham os seres humanos e que são guias das almas encarnadas (semelhante aos espíritos lares em Roma e aos Malakl adotados pelo cristianismo). Vale ressaltar ainda que um de seus epítetos, Angelos, a determina como A Mensageira e Senhora dos Oráculos, a ponte de comunicação entre os Deuses e os homens; um papel também compartilhado com outros Deuses, como Hermes e Íris. Outro de seus epítetos, Epiphanestate, a classifica como a pura Alma do Mundo Cósmico, ou seja, Ela sendo considerada o próprio universo e o mistério que a tudo permeia – tamanha sua força e imponência perante os Antigos.


Por ter sido a única Titã a ficar ao lado dos Deuses na Titanomaquia (Guerra entre os Deuses e os Titãs), Ela foi presenteada por Zeus com as Lâmpades: ninfas do Submundo que carregam archotes, também chamadas de nymphae avernales (Ninfas do Submundo). Suas tochas tem o poder de levar pessoas à loucura e fazem parte do séquito de Hécate por onde quer que a Deusa vá em suas viagens e peregrinações.


É representada de várias formas. Suas primeiras imagens a retratam como uma Donzela com trajes curtos e botas de caça, enquanto que nas representações mais tardias A vemos como uma Anciã com mantos longos ou como uma mulher tripla: três donzelas ou ainda uma donzela, uma mãe e uma anciã; raras representações a mostram como tendo quatro faces. A primeira vez que foi representada em forma tripla, pelo escultor Alcamenes e relatado por Pausânias, foi em uma estatueta em frente à Deusa Nike. Esta Deusa sempre era representada acompanhando Athena e, sendo Hécate posta à frente de Nike, pode-se interpretar que formava uma trindade com essas Deusas: Atena representando a estratégia nas batalhas, Nike a vitória sobre os inimigos e Hécate àquela que não desamparada nenhuma alma e que por isso leva os mortos em combate para o Submundo – Hécate Psychopompe.


Alguns de Seus símbolos são: trono, tochas, chave, lobo, cães, serpentes, sapos, éguas, vacas, corujas, doninha, porcos, lagartos, salmonetes, ovelhas negras, cânforas, punhais, caveiras, trívias, Triluna, Strophalos, foice, chicote, corda, máscara, portas e espelhos. Dentre os símbolos atribuídos a Ela, um deles é equivocado: Cérberus. Cérberus é o cão de três cabeças, Guardião dos Portões do Submundo, e presta obediência primeiramente à Hades para depois se curvar à Perséfone e/ou Hécate. Ainda assim, é um animal mitológico que trabalha muito bem em conjunto com Hécate. Para suas oferendas os devotos erigiam um altar com pedras em alguma encruzilhada e deitavam, dentre várias coisas: vinho, água, alho, bolos, mel, manga, carnes cruas, teixo e açafrão. Algumas outras plantas relacionadas à Deusa são o acônito, beladona, ditamno, mandrágora, abrunheiro, alho, azaleia, açafrão, louro, olíbano, patchouli, sálvia, mirra, cipreste, arruda, absinto, artemísia e o carvalho. Seu templo mais importante, e único conhecido, ficava na cidade de Lagina e seu culto era presidido por eunucos, mas também era muito honrada na cidade de Atenas como protetora dos lares num culto conjunto com Zeus, Hermes, Héstia e Apolo.

Seu culto ocorria durante o deipnon, ou seja, um dia antes da Lua Nova (também chamada de Lua Negra) em que se fazia uma refeição para Hécate e os mortos numa encruzilhada com o objetivo de aplacar o desejo de vingança dos mortos. A refeição consistia em ovos crus, bolos, alho, alho-poró, cebola, peixe e incenso. No dia seguinte, na Noumenia, era realizado um sacrifício a Ela com o objetivo da expiação, em que se sacrificava um cão para que qualquer ofensa contra Hécate fosse esquecida. Por fim, lia-se as entranhas do animal para verificar se o sacrifício tinha aplacado qualquer ato de ofensa. E, ao terceiro dia, no Agathos Daimon (seguinte a Noumenia), era feita uma purificação da casa que consistia em duas etapas: a primeira uma fumigação e a segunda uma remoção das sobras de oferendas e sacrifícios anteriores, onde se pegava o prato da fumigação (que era considerado uma sobra), cinzas de incensos, cinzas de sacrifícios, sangue, resíduos e quaisquer alimentos que haviam caído ao chão. Estes eram levados a um santuário de Hécate ou encruzilhada e deixado lá pelo peticionário, ao que este deveria ir embora sem olhar para trás. Os romanos A cultuavam em todo dia 29 de cada mês, enquanto que os gregos A cultuavam no dia 30 de Novembro.

Por ser representada como a Deusa da Lua foi confundida com algumas deidades como Ártemis, de onde pode ter surgido força para a interpretação de que seu nome tem relação com o epíteto de Apolo, já que, como Ártemis, Hécate seria irmã de Apolo e a Lua Crescente seria seu arco para “lançar dardos”. Também equiparada à Deusa Selene, que também é vista como a própria Lua e, portanto, casada em alguns tipos de culto com o Deus Grego Pã (já que Ele desposou Selene).

Os neopagãos ainda a cultuam no dia 13/08, porém, esta data nunca foi confirmada como sendo tradicionalmente separada para a adoração à Hécate. O conhecimento acerca da data é de que a Deusa Diana, também representada pela Lua, era cultuada neste dia, mas de acordo com Ruickbie, Hécate realmente era adorada neste tempo. Pode-se então supor que a data foi pega emprestada, na reconstrução do seu culto, para que os novos adoradores tivessem uma época do ano em específico para relembrá-la. Também está sendo realizado em todo 25/05, desde 2010, por alguns neopagãos um ritual chamado Rites of Her Sacred Fire (Rito das Suas Chamas Sagradas) que visa honrar e engrandecer o nome de Hécate.

Também foi correlacionada com a Deusa Egípcia Ísis por Lucius Apuleio na obra Asno de Ouro, por todas as variáveis correspondências que as duas Deusas possuem em comum, como: Deusa da Magia, Rainha dos Céus, Chefe dos Poderes Divinos, Progênie Inicial dos Mundos, etc. Também foi vista como Erishkigal na Babilônia, pois ambas presidem como Rainhas do Submundo e são Aquelas que punem na vida após a morte.

No culto atual à Hécate dentro de religiões como a Wicca, a Titã assumiu o papel de Rainha e Madrinha das Bruxas, sendo representada pela Lua e tendo domínio sobre todas as artes mágicas. É vista como uma Donzela na fase Crescente da Lua, como Mãe na fase Cheia e como Velha na fase Minguante. Existe ainda a face oculta da divindade cultuada apenas na Lua Nova ou Negra. Nas formas como é cultuada hoje pelos neopagãos Hécate é vista através de uma Trindade, em que se correlaciona Ela com Ártemis e Selene, sendo a primeira a representação da Lua Crescente e a segunda da Lua Cheia; Hécate, então, seria a Lua Minguante. Ou, quem sabe, pode-se visualizá-la como complemento das Deusas Perséfone e Deméter: sendo a primeira a Deusa Donzela e a segunda a Deusa Mãe; Hécate, por fim, seria a representação da Deusa Anciã (nas visões mais clássicas Hécate era a Donzela, Perséfone a Mãe e Deméter a Anciã). De toda forma, no mundo moderno é vista principalmente como uma Deusa Anciã, com um cajado na mão e o Cérberus na outra e que aguarda os feiticeiros nas encruzilhadas para os abençoar.
 
HINO À HÉCATE
 
"Vai-se o dia, sobe a Lua
Álgida treva no arco celeste
Olhai de frente a sombra nua
Pés ao caminho do bosque agreste
 Ladra lá longe, augúrio da Sorte
Cães do abismo, porteiro da Morte
Árvore egrégia na encruzilhada
Gélido altar na bruma estrelada
 À fria luz do silêncio astral
Sibilam os ventos por entre as pragas
Conclave na névoa da Hoste Espectral
Mais trasgos e bruxas, corujas e magas
 Urdindo sortilégio
Pedindo privilégio
À Vingadora
Aterradora
 Pálida face de lívido plasma
Em trono augusto de funda caverna
Tríplice Rainha da Corte Fantasma
Reina Suprema na Noite Eterna"


 Suas Equivalências Divinas

 Deusa Hécate
 Deusa Ártemis
 Deusa Diana
 Deusa Selene
 Deusa Ísis
 Deusa Heket
 Deusa Erishkigal


Epítetos

 Perseis (Filha de Perses)
 Brimo (Terrível)
 Aidônaia (Senhora do Inferno)
 Triphormis (De três formas / De três faces)
 Triodia / Trioditis (Das encruzilhadas / Dos três caminhos)
  Enodia / Einodia / Ennodia (Dos caminhos)
  Zerynthia (Da Montanha de Zerynthia)
  Nyktipolos (Caminhante da Noite)
  Atalos (Carinhosa)
  Khthonia (Do Submundo)
  Kourotrophos (Enfermeira das Crianças)
  Skylakagetis (Líder dos Cães)
  Kouré Mounogenês (Donzela Unigênita)
  Liparokrêdemnos (De véu brilhante)
  Eneroi Anassa (Rainha dos Mortos)
  Angelos (Mensageira / A do oráculo / Sobrenome de Ártemis, mas segundo relatos, o nome original de Hécate)
 Pheraea (Sobrenome de Hécate)
  Phosphorus (Da luz)
  Crateis (Poderosa)
  Antania (Inimiga da Humanidade)
 Antea (Guardiã dos Sonhos e das Visões)
  Propylaia (Protetora das portas, casas e famílias)
  Propolos (Conselheira)
  Soteira (Salvadora)
  Prytania (Rainha dos Mortos)
  Kleidouchos (Guardiã das Chaves)
  Tricefala (De três cabeças)
  Hekateris (Das mãos dançantes)
  Adamanthea (Inconquistável)
  Agrotera (Caçadora)
  Apotropaia (A que espanta/protege)
  Argiope (Medonha / De rosto selvagem)
  Arkula (Ursa)
  Basileia (Rainha das Serpentes)
  Boukolos (Pastora de bois)
  Despoina (Amante)
  Eileithyia (Parteira)
  Epaine (Incrível)
  Epiphanestate (Manifestação da Deusa)
  Lampadophoros (Portadora das Tochas)
  Lycania (Dos lobos)
  Phileremon / Phileremona / Philermonia (Amante da Solidão)
  Phryne (Dos sapos)
  Prothegetis (Líder)
  Psychopompe (Guia das Almas)
  Tergeminus (Três vezes nascida)
  Krataus (Forte)
  Triglathena (significado obscuro, mas que imagino ser de um culto triplo das Deusas Hécate, Atena e Nike)
  Clavigera (Portadora das Chaves)



Dallan Chantal

Cernunnos - O Chifrudo


"Eu sou a força indomada da natureza, o poder fertilizador, a vida! Mas, para encontrar isto é preciso tocar a morte com seu sacrifício."


Cernunnos é um misto de divindades celtas de chifres que forma uma figura de culto. É como uma egrégora de todos os Deuses de chifres que podem ser centradas na figura de Cernunnos, ao qual mantém todos os atributos dessas deidades. A iconografia celta retrata Cernunnos como um ser rodeado de animais e por essa razão é conhecido como "Senhor dos animais" ou "Senhor das coisas selvagens".

Registros Históricos

Não existem mitos conhecidos acerca da deidade Cernunnos, pois arqueologicamente entende-se que se trata de um misto de vários Deuses. Sendo assim, Cernunnos é a divindade celta protetora dos animais, responsável pelo crescimento das plantas e das colheitas, força fertilizadora máxima da natureza e Aquele que mantém os Mistérios Masculinos: a Androtheosis, ou seja, atributos de divindades masculinas de chifres. Vale ressaltar também que, apesar de ser considerada uma divindade celta, não existem evidências de sua existência na religião céltica.

O único registro histórico que temos de sua figura é de um monumento galo-romano conhecido como Pilar dos Barqueiros do século I. a.E.C., que representa um deus caçador com cornos de veado jovem e torques em torno destes. Neste monumento somente aparece a inscrição “ernunnos” em virtude da deterioração do tempo. Uma outra evidência dita que se trata do mesmo Deus, mas não se passa de comparação: uma placa de metal encontrada em Luxemburgo que contém a inscrição “Deo Ceruninco”. Há ainda a figura de um Deus Chifrudo no caldeirão de Gundestrup que foi correlacionado a mesma deidade, mas novamente se trata apenas de comparação. De toda forma, existem diversas figuras de homens chifrudos com torques e sem nomeação que são referidos como pertencentes a Cernunnos, mas, no mais, não existe muita coisa conhecida a respeito de Cernunnos, nem fontes literárias, nem detalhes maiores de seu nome, culto ou possível significância na religião celta. Alguns estudiosos acreditam que ele seria o deus da natureza e da fertilidade, enquanto outros supõe que seja apenas o nome do cargo de maior respeito e prestígio dentre os sacerdotes celtas.
 Sugere-se que seu culto surgiu no Paleolítico quando os seres humanos dependiam da caça para sua sobrevivência, portanto, sendo cultuado por xamãs desde os primórdios da humanidade. Ao abaterem sua caça, estes povos colocavam a pele dos animais sobre seus dorsos e os chifres sobre suas cabeças como uma alusão de que a força e a vitalidade do Deus agora estavam com eles e com sua tribo. Também é importante citar que nesta época os cervos se reproduziam com extrema abundância, o que facilitou sua comparação como tendo o poder de um deus.
 

Apesar do nome Cernunnos constar apenas uma única vez em todos os registros históricos já encontrados pelo ser humano, Ele é comumente referido nas literaturas célticas modernas quando é citado o Deus de Chifres. Sempre retratado com veados e serpentes com cornos de carneiro, mas também visto ao lado de touros, cachorros e ratos. Também é considerado divindade protetora dos marinheiros em virtude de sua única representação conhecida ter sido encontrada em uma embarcação.


Influência do Cristianismo

Com o advento do Cristianismo no Ocidente, o Deus de Chifres foi equiparado ao Diabo, um ser contrário ao deus criador cheio de bondade, por conseguinte, um ser que representa toda a malignidade, putrefação e negatividade existente. Essa deturpação ocorreu pelos cristãos serem extremamente proselitistas e, para angariar mais fieis, esta tática é a que melhor auxilia a conquistar seus objetivos. Ainda assim, a história e as evidências existem para levar ao chão tudo que a Igreja ensina e prega contra este Deus.
 No paganismo moderno (neopaganismo), Cernunnos é adorado como o consorte da Grande Deusa-Mãe Lua, ou seja, a energia divina feminina e a energia divina masculina. Na Wicca Alexandrina é conhecido como Karnayna. Na Wicca, de forma geral, Ele representa o Deus que nasce, cresce, definha, morre e renasce doando sua energia para a Natureza (a Deusa) para que a vida seja mantida no Universo e é venerado nas celebrações de Sabbat que representa o caminho que o Sol percorre durante o ano com seus picos e declínios conforme vistos através dos movimentos de rotação e translação da Terra. Ele é visto como a criança da promessa, o jovem apaixonado, o homem viril e o velho ancião; o Deus-Sol, o caçador, o doador; entre tantos outros títulos. Contudo, é apenas uma das manifestações de Cernunnos. Um exemplo é o termo que dá origem ao Seu nome que era realmente usado para descrever o Deus cornudo em muitas culturas, porém quando olhamos a descrição ou mesmo afrescos e pinturas feitas em cada povo as diferenças se tornam mais nítidas.


Etimologia

O real significado de seu nome é muito especulativo, mas entende-se como sendo “o Chifrudo” ou “com chifres” ou ainda “o único com chifres”; isso se dá por uma comparação a um epíteto divino (καρνονου - transliteração de karnonou ou Carnonos) em uma inscrição céltica escrita em caracteres gregos em Montagnac - Hérault, ou ainda a um adjetivo galo-latino (carnuātus) que significa "Com chifres".
 A forma proto-céltica do teônimo é reconstruída como ou *Cerno-on-os ou *Carno-on-os. Karnon do gaulês "corno" é cognato com cornu do latim e com *hurnaz do germãnico, com horn do inglês, basicamente do proto-indo-europeu. O étimo karn- "corno" aparece tanto no gaulês como nos ramos gálatas do celta continental. Hesíquio de Alexandria lustra a palavra gálata karnon (κάρνον) como "trompete gálico", isto é, o corno militar celta listado como o carnyx (κάρνυξ) de Eustátio de Tessalônica, que nota sino com forma animal do instrumento. A raiz também aparece nos nomes de regimes celtas, sendo o mais proeminente entre eles, os Carnutes, significando algo como "os Únicos Com Chifres," e em vários exemplos de nome civil encontrados nas inscrições.

Ensinamentos

Cernunnos representa a mortalidade ao qual toda a natureza esta fadada assim como a imortalidade, pois renasce através de si mesma (o renascimento através do ventre da Deusa contado pelo mito), portanto, nos ensina sobre os ciclos e a necessidade do equilíbrio com o meio ambiente. Foi uma das principais divindades invocadas no culto aos mortos antigos e ainda é até hoje. Divindade do plano astral, vida, riqueza e das religiões pagãs por natureza, Cernunnos é a grande máxima do Cornudo: é Pã, Dionísio, Herne, Cuchulainn, Hu Gadarn, Cern, Odin, Marduk, entre tantos outros.
 Por Cernunnos não ser propriamente uma deidade, mas um cargo e o pulsar da natureza, não há referências de incensos, velas ou qualquer coisa que tenha sido usado para cultuá-lo. Qualquer oferenda, sacrifício, geisi, tabu ou oração que se faça a Ele será aceita, pois Ele é a fusão de todos os Deuses do Mundo. Para se entender Cernunnos o adepto precisa se dedicar na Androtheosis (Mistérios Masculinos) e no contato com a Natureza até que adentre a si mesmo nos mistérios desse deus, pois Ele vai além daquilo que comumente entendemos como divindade.

Suas faces

Todos os Deuses de Chifres

Epítetos

 Carnonos (Com chifres)


Dallan Chantal

Pã - Mestre da Natureza




"Encontre o sábio e a besta indomada dentro de você e honre-as como expressão do Divino. Deixe minha música te embalar, pois estou vivo!"


Pã é o Deus Grego da natureza, dos bosques, da primavera, do pastoreio, da vida, dos ciclos universais, dos animais, da caça, da música, da profecia, da crítica teatral, do pânico, da fertilidade, do sexo e da masturbação. Sua ascendência é bastante controversa com fontes ditando ser filho de várias deidades: Phanes, Cronos, Zeus, Hermes, Dionísio, Penélope, Eros e até do Deus-cabra Aegipan (o 2º Pã). Seu nome significa “Tudo” ou “Todos” ou ainda pode prover do Grego Antigo para “Pasto” e era uma das divindades mais adoradas na Helênia Antiga. Na Roma Antiga foi comparado a Lupercus, Sileno, Fauno e Silvano. Em ambas as culturas foi confundido também com sátiros. Pã acompanha as ninfas e faz parte do séquito de Dionísio.

Em uma das várias histórias de seu nascimento, Hermes enamorou-se da ninfa Dríope e esta veio a engravidar de Pã. Após seu nascimento, sua mãe repudiou a criança, pois nascera com barba, pés de bode, orelhas pontudas e nariz arrebitado. Entretanto, Hermes enxergou a beleza de seu filho e o levou com muito gosto ao Olimpo onde foi saudado com muita alegria pelos Deuses, principalmente por Dionísio que vendo sua real natureza foi quem lhe concedeu seu nome. Pã era tão bem visto na Grécia que em quase todos os mitos de Deuses Ele aparece tendo algum papel, por exemplo: os cães de caça de Ártemis foram um presente de Pã e o dom da profecia de Apolo foi Pã quem concedeu.
Na Titanomaquia (Guerra dos Deuses Olimpianos contra os Titãs) Pã levou pânico às hostes inimigas causando terror e confusão sem sentido, pois tocando sua flauta ele poderia causar êxtase e prazer assim como fazer emergir o pior dos pesadelos, o que levou os Deuses à vitória. Em outra ocasião, Pã estava sentado junto ao rio Nilo quando Typhon, o inimigo dos Deuses, apareceu. Typhon havia roubado os tendões de Zeus e este não poderia batalhar, portanto, Pã entrou no rio e transformou seu corpo: a parte superior em bode e a parte inferior em peixe. Isso distraiu Typhon dando tempo para Hermes recuperar os tendões de Zeus e garantir que Ele saísse vitorioso na batalha. Por todos estes estratagemas era bastante respeitado entre os Deuses e foi elevado aos céus como a constelação de Capricórnio.

Seu culto se originou na Arcádia (região da Grécia Antiga) onde havia um templo dedicado ao Deus (havia outro no Egito Antigo também), contudo, afora estes dois templos, era venerado no meio da natureza ou dentro de cavernas com pessoas nuas que lhe ofereciam mel e leite de cabra esperando que ele proferisse oráculos. Nestes cultos, após várias entoações e cânticos, esperava-se que a presença de Pã se manifestasse através de algum sinal para então se iniciarem sua forma de adoração mais elevada: o sexo. Orgias rituais, “Hieros Gamos”, eram praticados e não poderiam ser interrompidos até antes do Sol raiar. Não tinha uma data de adoração específica, pois a tradição fala que é Pã quem diz quando deve ser adorado, porém, em Roma seu culto se dá entre os dias 15 e 17 de Fevereiro.

Pã é um Deus muito conhecido pelo seu apetite sexual: indomado, violador, sujo e animalesco. Geralmente se apaixonava por uma ninfa para ver seu objetivo frustrado por alguma ocasião, assim como aconteceu com Syrinx, Pitys e Eco. Mas com a Deusa da Lua Selene ele conseguiu encantá-la e, levando-a pelos bosques noturnos, se acasalou com a Deusa.  A Titã Réia também era sua companheira. Em uma outra história, Pã decidiu copular com a Rainha da Lídia, entretanto, Héracles, fugindo da ira de sua madrasta Hera, estava na Lídia e trocou suas vestimentas com a rainha para não ser reconhecido. Pã adentrando ao quarto da rainha tentou ataca-la na figura de Héracles, mas foi expulso e desde então Pã proibiu o uso de roupas em seus ritos e espalhou o rumor de que Héracles era um travesti. Mas, ainda assim, sua maior proeminência era como Divindade Pastoril que auxilia na multiplicação dos rebanhos, ou seja, um Deus agreste, da roça, do campo.

É representado estando nu ou com uma pele de lince para esconder os pés de bode, com um cajado e a syrinx, correndo atrás de ninfas, fazendo sexo com elas ou animais ou ainda tocando sua flauta enquanto descansa. Também é representado com o falo ereto (apenas Pã e Príapo eram assim representados), pois era sabido de sua potência e vigor sexuais. Um de seus símbolos é o pinheiro que adorna sua cabeça, pois enquanto tocava sua flauta a ninfa Pitys (que significa pinheiro) inebriou-se com sua canção e começou a se aproximar de Pã, entretanto, o vento Bóreas estava apaixonado pela ninfa e enciumado soprou um vento forte. Estando na beira de um penhasco a ninfa não conseguiu se segurar e caiu no precipício, porém, foi transformada em pinheiro pelos Deuses que se compadeceram da bela ninfa. Como Deus da Profecia revela o futuro através dos sonhos noturnos ou dos cochilos durante a tarde.

Em todas as histórias dos Deuses Gregos apenas Asclépio e Pã conheceram a morte. Diz-se que Thamus, navegando para a Itália, ouviu uma voz no vento que lhe dizia que o Grande Deus Pã estava morto e que ele deveria anunciar isso a todo o mundo num determinado penhasco diante do mar. Ao gritar isso os quatro cantos do mundo ouviram a mensagem e com gemidos e choros de aflição lamentaram essa perda. Porém, isso é uma metáfora de que os tempos antigos haviam terminado para dar entrada a uma nova civilização: Pã representando as culturas pagãs, centradas na convivência com a natureza e com a terra, dando lugar ao culto cristão, centrado na dominação da natureza e da terra.

Na cultura cristã foi identificado como Satanás, o inimigo de Deus. Esta figura encarna todos os aspectos considerados negativos e que devem ser negados, dentre várias outras que lhe foram atribuídas. No entanto, esta não é uma real face de Pã, visto que se trata de uma campanha da igreja para difamar e levar ao esquecimento as práticas consideradas pagãs.

Em Roma foi equacionado a Lupercus ou ainda com Fauno e Silvano, sendo Fauno uma das divindades di indigetes (Deuses mais antigos e originais de Roma). Todos os três são Deuses pastoris, do campo e dos rebanhos. Na Gália foi confundido com o Deus Dusios que também é um Deus pastoril e que concedia força e vigor ao rebanho e aos homens.
Pã é um Deus que representa uma dualidade universal muito profunda: ao mesmo tempo em que é um homem sábio também é um insaciável amante revelando assim o mais sublime dos seres com a mais bestial das feras; um Deus identificado com o Universo ou ao menos com uma natureza inteligente, fecunda e criadora. Pã conhece os mistérios dos ciclos universais, os mistérios da vida e da morte (ele habita nas cavernas que são consideradas umbrais entre o nosso mundo e o outro), a natureza em si e isto lhe concede a sabedoria de Tudo e do Todo, assim como é revelado em seu nome. Pã foi o último dos Deuses a nascer e o primeiro a ser criado, portanto, Pã é o início, o meio e o fim: o Alfa e Ômega grego.

HINO A PÃ

Oh, Senhor dos Bosques, Chifrudo, Deus dos Pastores, Aquele que lidera o pânico e o horror, Você que por onde passa traz consigo legiões de amantes ávidos por sexo, a Ti Pã, eu chamo! Venha em seus múltiplos aspectos.

Io Pan Aegokerôs, Cabra de Chifres
Io Limenitês, Protetor dos Portos
Io Lutêrios, Oh Libertador, revele-me em sonhos a cura das doenças
Io Inuus, me faça sentir o ápice do gozo quando em mim penetrar
Io Agreus, Caçador
Io Nomios, Pastor
Io Agrotas, Oh Doador dos Pastos, me ajude no meu crescimento financeiro
Io Phorbas, que os inimigos sejam aterrorizados pelo seu grito até o fim do mundo
Io Litêrios, que suas ações continuem me liberando de meus grilhões
Io Akrôritês, Deus da Montanha de Akroria
Io Mainalios, Da Montanha de Mainalus
Io Sinoeis, Da Malícia
Io Skoleitas, anseio por prazer com seu pênis arqueado
Io Haliplanktos, Você que vagueia o mar
Io Megas, Grande
Io Dikérota, De Dois Chifres
Faça-se presente em minha vida em todos os momentos Grande Deus, oh, mais poderoso dos Deuses. Vinde a mim e me tome por seu.
Io Pan! Io Pan! Io Pan!


Suas faces
 
 Deus Pã
 Deus Lupercus, Fauno e Silvano
 Deus Dusios
 Deus Aegipan
 Sátiro (Ser mitológico)
 Satanás (Querubim cristão)

Epítetos

 Aegokerôs (Cabra de chifres / Sobrenome de Pã)
 Limenia / Limenitês / Limenitis / Limenodkopos (Protetor do Porto)
 Lutêrios / Lutiersês (Libertador, porque revelou em sonhos a cura de uma doença)
 Lysio (Libertador que transforma algo em outra coisa melhor e maior)
 Inuus (Para entrar, penetração)
 Agreus (Da caça / Caçador)
 Nomios (Das pastagens / Pastor)
 Agrotas (Doador de pasto)
 Phorbas (Aterrorizante)
 Litêrios (Aquele que liberta)
 Akrôritês (Da montanha de Akroria)
 Mainalios (Da montanha de Mainalus)
 Sinoeis (Da malícia)
 Skoleitas (Arqueado)
 Haliplanktos (Que vagueia o mar)
 Megas (Grande)
 Dikérota (De dois chifres)
 Athanatos (Imortal)


Dallan Chantal