segunda-feira, 22 de julho de 2013

Mãe, ouve o meu apelo!

 
Mãe, ouve o meu apelo! Toca o meu coração com o teu amor e acalma as dores que me tiram a paz. Serena o meu espírito com o sopro da tua compaixão para que as angústias se dissipem. Acolhe as preocupações que me desassossegam e me entrega a confiança de que haverás de me inspirar a melhor solução. Dá-me a virtude da fé se eu desacreditar da vida e me ensina a perseverança em lugar do desânimo. Sê o meu estímulo quando eu desencorajar e o meu ânimo, se eu fraquejar.
 
Não permitas, Mãe, que os problemas sejam maiores do que a capacidade que me deste para resolvê-los. Que nenhuma dificuldade exceda as forças do meu espírito. Que o mal não me alcance e a desventura não me vença. Que o desespero não me aconselhe e o medo não regre a minha conduta. Que os obstáculos não cancelem a minha alegria e que a tristeza se desfaça pelo contentamento de estar sob a tua guarda e proteção, sempre!
 
Não deixes, Mãe, que o temor domine a coragem, impedindo que avancem os meus propósitos e se realizem os sonhos que acalento. Que a minha vontade esteja em plena harmonia com a tua, para que a minha caminhada não se desvie dos teus planos. Faz-me compreender e aceitar os teus projetos para mim quando eles forem diferentes do que eu desejar, e que os teus sagrados desígnios se cumpram, não os meus profanos anseios.
 
Abençoa, Mãe, as minhas mãos com a habilidade realizadora do trabalho para produzir o meu sustento sem agredir a natureza. Abençoa os meus pés para que trilhem o caminho do bem e dele jamais se desviem, seguindo na tua luminosa direção, de volta ao teu aconchego ao fim dos meus dias sobre a terra. Abençoa o meu coração para que pulse em uníssono com o teu e esteja aberto a toda a irmandade universal. Abençoa os meus olhos para que eles se orientem pela verdade dos teus ensinamentos e assim sejam poupados de enganos e ilusões. Abençoa-me onde eu estiver, com quem estiver e no que fizer, como até aqui, hoje e por toda a minha vida.
 
Liberta-me, Mãe, da vaidade para que eu reconheça que todas as vitórias são dádivas com que me tu favoreces, que os triunfos são partilhas do amor que me ofereces, que as glórias que desfruto são dadas pela tua nobreza, não pela minha. Lembra-me, a cada instante, da humildade que aprecias e da bondade que te agrada, a fim de que eu não busque lauréis efêmeros, mas a graça de ser una contigo. E ainda que não possa comparar-me a ti, que eu não te perca como exemplo.
 
Perdoa, Mãe, as minhas fraquezas humanas e lapida-me, pelo teu ensinamento, para que me torne uma pessoa melhor do que sou. Releva a minha ignorância e mostra-me o rumo da sabedoria. Que eu não seja indiferente ao meu próximo como não desejo que me relegues ao esquecimento. Que todas as minhas ações contemplem o bem de todos e o bem do todo a que pertenço. Não me afastes dos teus cuidados e, se eu me distanciar de ti, resgata-me de novo ao teu colo, onde quero estar.
 
Faz, Mãe, com que minha alma seja cristalina, sem marcas de sofrimento nem mágoas do passado, e que ela seja livre para mais te amar e para amar todos os seres da divina criação. Desfaz os nós que possam aprisioná-la a lembranças que acendem ressentimentos e reavivem amarguras. Que minha alma seja leve como a brisa de uma manhã de primavera e que possa bailar entre experiências e aprendizados. Que o meu corpo, abrigo transitório do meu ser, seja tratado com desvelo, respeito e carinho, mantendo-o saudável e longe de qualquer perigo.
 
 
Vera Pinheiro
 

Ísis

Ísis, a Deusa dos Dez Mil Nomes
 
 
Ísis Toda Poderosa, a mais antiga dos antigos, amada pelos deuses e mortais, cuja beleza encanta e traz riqueza;
Deusa luminosa e poderosa, Tu és Aquela que iniciou a existência, que existiu desde o começo, de onde tudo e todos surgiram, que inicia o ano e rege o destino;
Mãe Divina, criadora e benfeitora, nutridora e regeneradora, Mãe Suprema e sem igual;
Luz celeste, chama ardente, Mãe do céu, da Terra e do Além; Senhora da Lua e das estrelas, da noite e da escuridão, da luz e do brilho solar;
 
Rainha do trono celeste, ventre primordial que criou todos os seres e todas as coisas;
Mãe da natureza, senhora do pão, dos grãos e das colheitas, portadora dos frutos e da boa sorte, controladora das estações, dos ventos e dos elementos;
Guardiã dos quadrantes do céu e da Terra, dos portais que levam para outros mundos que Tu abres no alvorecer e no crepúsculo;
Senhora da Magia, grande no céu, poderosa na Terra, que tem o conhecimento das palavras de poder e as usou para criar o universo;

Mãe dos vivos e dos mortos, senhora verde dos campos e colinas, soberana das pedras e das montanhas, dos lagos, rios e mares, Ísis Pelagia, Rainha do mar;
Estrela-Guia, invocada como Sothis ou Sirius, que protege navios e navegantes, caminhos e caminhantes, que conduz os ventos e as chuvas;
Senhora das canções, poemas e das danças, da alegria e do prazer;
Mestra que ensinou a agricultura, a fiação e a tecelagem, protetora e salvadora das mulheres, dos partos e das crianças;
 
Guardiã do casamento, soberana do amor, da sexualidade e da união sagrada;
Senhora velada da sabedoria e personificação do eterno princípio sagrado feminino;
Tu, que estabeleces as leis e ciclos naturais e sustentas a humanidade, pelo Teu poder os rios correm, as marés sobem e as estrelas dançam;

Tu, que és amor divino, vida, magia, mistério, Deusa: sendo uma, Tu és todas;
Gloriosa Ísis que mora no esplendor da luz e na quietude do silêncio;
Curadora dos corações feridos, cujo leite nutre e mitiga os sofrimentos do corpo e da alma;
Guerreira vitoriosa e invicta, protetora dos teus adeptos, que salva e ajuda aqueles que te amam, que encoraja a independência e a soberania das mulheres;

Mãe Suprema e sem igual, que inunda a Terra com esplendor e a ilumina com teu amor;
Senhora da verdade, que tudo sabe e tudo vê, que ama, nutre e protege suas filhas e filhos;
Gloriosa Deusa Ísis Pantheia, Au Set, Iset, Myrionymos, Deusa dos Mil Nomes, que é o início e o fim, o ontem e o amanhã, o dia e a noite, o Sol e a Lua, o acima e o abaixo;
para Ti colocaremos, no altar de nossos corações, pedras azuis esverdeadas, como a cor dos teus olhos; penas iridescentes, como as do teu manto; tua chave e a cruz sagrada; o mel e o leite para nossas libações.
 
Nós te reverenciamos, Mãe, no roçar das ondas, nos murmúrios dos riachos e no brilho das pedras molhadas pelo orvalho.
Nós te saudamos, no nascer do Sol e nas sombras silenciosas da noite, te procuramos no brilho das estrelas e nas faces mutantes da Lua, ouvimos tua voz na brisa suave do verão ou nos assobios dos ventos que trazem as chuvas, seguimos teu chamado para passarmos pelos portais da Terra.
Nós te invocamos, ó Mãe, para sustentar nossas almas e amparar o vôo dos nossos espíritos, oramos para que Tu nos defendas dos perigos e dos venenos com o poder dos teus amuletos sagrados, amarrando teus nós para fechar as brechas de nossa vulnerabilidade, curando com teu sagrado leite as feridas de nossos corações.

Nós te pedimos, Mãe, ajoelhadas perante teu trono de poder e luz, que nos cubra com tuas asas resplandecentes, que nos permita sermos conduzidas e iniciadas no teu Templo de Sabedoria, aprendendo “aquilo que é, foi e sempre será”, revelando para nossas mentes os Mistérios da Lua e da Terra, lembrando os ensinamentos antigos e aprendendo teus segredos para sermos mulheres amorosas, poderosas, gentis, leais, amigas sábias e dedicadas para ajudarmos a nós mesmas, aos outros e à própria Terra.
 
 
Mirella Faur - Teia de Thea

Graças à Mãe Divina

 
 
Graças Te dou, Mãe Divina, por tudo o que eu vivi!
Nos risos fartos por momentos felizes, o Teu contentamento ressoou em mim. Nas vitórias que alcancei, o Teu triunfo exultou em meu peito. Nas alegrias que experimentei, o Teu júbilo repercutiu nos meus sentidos. No sucesso dos empreendimentos, o Teu poder confirmou os meus avanços.
 
Nos sonhos que realizei, a Tua esperança me contagiou. Na perseverança que proveu minhas idéias, a Tua pertinácia me animou. Na ousadia das realizações, a Tua coragem me sustentou. Na fé que me robusteceu, o Teu caráter se manifestou. No enfrentamento de desafios, a Tua firmeza me fortaleceu.
Na bravura que me abasteceu, o Teu vigor me apoiou.
 
Nos desafios que encontrei, o Teu auxílio me resguardou. Nas escolhas que fiz, o Teu discernimento me orientou. Nas decisões que tomei, a Tua inspiração me norteou. No otimismo que cultivei, a Tua confiança me entusiasmou. Nas conquistas que obtive, a Tua persistência me impulsionou. Nos prazeres que me deleitaram, a Tua companhia me regozijou. Nas buscas a que me lancei, a Tua direção me encaminhou.
Nas lágrimas que derramei, o Teu colo me consolou. Nas dores que me contristaram, o Teu amor me vivificou. Nas expectativas que me frustraram, a Tua bondade me reconstituiu. Nas amarguras que conheci, o Teu afago me confortou. Nas desesperanças que me desolaram, a Tua resistência me firmou. Nos desgostos que atravessei, o Teu cuidado me reanimou. Nas tristezas que me corroeram, o Teu acolhimento me consolou.
 
Nos desapontamentos que vivenciei, a Tua constância me regenerou. Nos fracassos que amarguei, o Teu estímulo me recobrou. Na infelicidade por que passei, a Tua bênção me restaurou. Nas decepções que tive, o Teu abraço me acalmou. Nas dificuldades que enfrentei, a Tua segurança me alentou. Nas mágoas que suportei, o Teu carinho me aliviou. Nos desgostos que provei, a Tua energia me regenerou. Nos pesares que me atormentaram, o Teu afago me refez.
 
Nas angústias que padeci, a Tua paz me reergueu. Nos obstáculos com que me defrontei, a Tua sabedoria me governou. Nas tribulações que me desinquietaram, o Teu aconselhamento me serenou. Nas incompreensões que recebi, a Tua temperança me esclareceu. Nos conflitos que me embaraçaram, a Tua moderação me libertou. Nos desenganos que me visitaram, a Tua sinceridade me reabilitou. Nas desilusões que me machucaram, a Tua compaixão me curou.
 
Nas dúvidas que me importunaram, o Teu conhecimento me guiou. Nas contrariedades que me aborreceram, a Tua brandura me equilibrou. Nas raivas que me envenenaram, o Teu perdão me purificou. Nas ofensas que me golpearam, o Teu ensinamento me instruiu. Na solidão que me acompanhou, a Tua presença me escoltou. Nas carências que me afligiram, a Tua generosidade me preencheu.
 
Mãe Divina, no abandono és o meu asilo. Na ingratidão, o reconhecimento. No perigo, a proteção. No desamparo, o esteio. Nos tropeços, o amparo. Nas lutas, o escudo. Nos confrontos, a defesa. No silêncio, a voz. Na palavra, a lição. Nos passos, o desvelo. Nos riscos, o abrigo. Na escuridão, a luz. Nas necessidades, a providência. Nas demandas, a justiça. Na fraqueza, a força. Na rigidez, a flexibilidade. Nas incertezas, a convicção. Nas desventuras, a compreensão. Na crueldade, a misericórdia. No medo, o sossego. Na prisão das emoções, a liberdade do ser. No corpo, nutrição. Na mente, clareza. No espírito, aperfeiçoamento.
 
Tu, Grande Mãe, és o farnel para a minha jornada cotidiana. Não sinto frio, porque me agasalhas; não sinto calor, porque me refrigeras; não sinto fome, porque me alimentas; não sinto cansaço, porque repouso em Teu aconchego; não sinto sede, porque bebo na fonte sagrada da Tua magnitude.
 
Com meus joelhos dobrados diante de Ti, coloco tudo o que sou, tudo o que tenho, a inteireza do meu coração, meus pensamentos e atitudes, e todas as minhas relações sob Tua cautela, e posso adormecer segura de que a vida é um belíssimo presente que me concedes. Não importa o que me entregues, eu Te dou graças, porque estou em Tuas mãos e confio nos Teus propósitos, ainda que o meu entendimento esteja em construção. Bênçãos e graças, Mãe!

Vera Pinheiro  -  Veraluz - Grupo Bifrost

Nut

Nut, A Deusa Egípcia do Céu

 
 “Nut, minha divina mãe, estenda teus braços sobre mim, afastando as sombras e me protegendo enquanto brilharem no céu as imorredouras estrelas”. - Inscrição sobre um peitoral encontrado no túmulo de Tutankhamon junto à sua múmia.
 
 
“Eu sou Nut e vou abraçar e proteger aqueles que vierem a mim, afastando todos os males”. -  Texto inscrito sobre a tampa dos sarcófagos.
 
 
No começo dos tempos, quando nada ainda havia sido criado, existia somente uma massa aquosa que cobria o universo. O deus Khepera (o precursor de Ra, representado como um escaravelho e simbolizando o sol matutino) gerou-se a partir desta matéria primordial ao dizer seu próprio nome. Em seguida ele concebeu duas outras deidades, cuspindo-as de sua boca: o deus Shu, personificando o ar e a deusa Tefnut, simbolizando o orvalho. Ambos, por sua vez, geraram duas crianças gêmeas: Geb, o deus da terra, e Nut, deusa do céu. Com a criação das primeiras quatro divindades (Shu, Tefnut, Geb e Nut), estabeleceu-se o Cosmos. Geb e Nut deram à luz quatro crianças: Osíris e Ísis, Seth e Néftis cuja missão foi fazer a mediação entre os seres humanos e o Cosmos. Esses nove deuses compunham a enéade (palavra de origem grega designando um agrupamento de nove divindades, geralmente ligadas entre si por laços familiares) de Heliópolis, a mais importante congregação de deuses do panteão egípcio.

Existem várias versões do mito de criação egípcio e em todas Nut desempenha um papel importante. O mito que pertencia ao reino baixo do Egito afirmava que no começo dos tempos existia apenas o oceano, do qual apareceu de repente um ovo flutuando na sua superfície e do qual emergiu Ra, o deus solar. Ele gerou das suas secreções quatro filhos: os deuses Shu e Geb e as deusas Tefnut e Nut. Shu e Nut formaram a atmosfera, que pairava sobre Geb, a terra e Nut se elevou formando o céu, enquanto Ra era o governante supremo, regendo sobre o todo e todos. Geb e Nut tiveram dois filhos: Set e Osíris e duas filhas, Ísis e Néftis. Com o passar do tempo Ra envelheceu e cedeu seu lugar a Osíris, que passou a reger o mundo auxiliado por Ísis, sua irmã e esposa. Set odiava seu irmão Osíris e acabou matando-o; a partir deste evento, Osíris passou a personificar a bondade e Seth a maldade, estabelecendo assim os dois polos da moralidade. Ísis usou poderosas magias e ressuscitou Osíris, que se tornou “Senhor do Mundo Subterrâneo” e o rei dos mortos. O filho deles - Horus venceu Seth em uma grande batalha e assumiu o seu lugar como “Senhor da Terra”.

O mito do reino alto do Egito difere ligeiramente, descrevendo a existência de Nun, o oceano primordial, que continha em si os começos de tudo aquilo que poderia ser criado. Ra surgiu do oceano e gerou de forma partenogenética do seu esperma Shu (deus do ar) e Tefnut (a deusa da umidade); este casal gerou os gêmeos Nut, a deusa do céu e Geb, o deus da Terra. No universo físico assim criado, a humanidade surgiu das lágrimas de Ra. Geb e Nut nasceram abraçados, mas como Ra desaprovava este incesto, ordenou a Shu para se colocar entre eles, separando assim o céu da terra. Porém, eles permanecerem juntos, mesmo sem permissão, fazendo amor em um abraço ininterrupto. Ra enfurecido chamou Shu pedindo que os separasse em definitivo; Shu interveio e ergueu Nut para o alto segurando-a com seus braços e assim ela passou a ser a abóbada estrelada do céu, deixando Geb prostrado abaixo dela. Ra, sem saber que Nut estava grávida, a amaldiçoou para que ela não parisse em nenhum dia e em nenhum ano. Nut desesperada foi procurar ajuda com seu amigo Thoth, o deus da sabedoria, que também era filho de Ra. Thoth conseguiu achar um estratagema para contornar a maldição. Primeiro ele foi visitar Khonsu, o deus lunar e o desafiou para um jogo de damas; quanto mais o jogo durava, maiores eram as apostas. No final o vencedor foi Thoth e a aposta de Khonsu tinha sido uma quantidade de luz, suficiente para criar cinco dias adicionais. Thoth adicionou esses dias a mais no final do velho ano e no início do novo, dias estes que não faziam parte de nenhum dia e de nenhum ano. Graças à sabedoria de Thoth, a maldição de Ra foi anulada e Nut pariu seus filhos naqueles cinco dias antes inexistentes.

Em outra versão do mito Ra, o deus solar pediu a Nut para elevá-lo ao céu distante, tirando-o do mundo telúrico que ele detestava. Nut elevou Ra nas suas costas, mas ficou tonta com a altura e quase ia deixar Ra cair, se não fosse pelo suporte de quatro deuses que firmaram seus pés e Shu sustentou o arco do seu corpo. Estes deuses se tornaram os pilares celestes, Nut sendo o firmamento ao qual Ra prendeu as estrelas. O mito do deus solar Ra e da sua mãe Nut foi mais marcante e prolongado no baixo do Nilo, na região do delta, pois naquela latitude a visão da Via Láctea se assemelhava à imagem celeste de Nut com o seu corpo arqueado sobre a terra.
Os egípcios acreditavam que nos tempos pré-históricos o país tinha sido governado por deuses, que estavam fisicamente presentes. Algumas listas bem antigas de reis apresentam o terceiro faraó divino como tendo sido Geb. Rá e Shu governaram antes dele e Osíris, depois. O deus-terra teria defendido o direito de Hórus  de ocupar o trono quando da luta deste contra Seth e, por isso, era cultuado como divindade protetora do faraó, que era conhecido como o Herdeiro de Geb. Em homenagem à atuação de Geb como um grande rei e pela admiração que tinha alcançado como soberano, o trono do faraó era honrado como O Trono de Geb.

Nut, Nuit, Nith ou Neit representava o céu, simbolizado pelo seu corpo e nas suas imagens aparecia como uma mulher com pele negra, dourada ou azulada, com cabelos trançados e sua vestimenta ornada por estrelas. Outra imagem a representava como uma belíssima mulher nua, carregando uma vasilha com água sobre sua cabeça, uma alusão ao seu dom de verter a chuva sobre a terra e ao fato que das suas lágrimas teria nascido o rio Nilo.  Muitas vezes aparecia sob a forma de uma vaca (imagem comum a outras deusas) ou emergindo do tronco de uma árvore e oferecendo uma bandeja com água e pão aos falecidos. Nut representava a passagem das divindades pré-dinásticas - que expressavam os poderes divinos em forma de animais - para as divindades cosmogónicas.  Porém a sua imagem mais frequente era como abóbada celeste, o seu corpo alongado, coberto por estrelas, se estendendo sobre a terra, com a Lua sobre seu ventre enquanto a Via Láctea abrangia os seus seios. Era a representação mítica do abraço da deusa do céu sobre Geb sobre , o deus da Terra, uma metáfora do seu eterno amor e desejo pela união. O mito em que o céu e a terra são casados, e depois separados, existe como um tema universal em diversas culturas com uma larga gama de variações.
Do ponto de vista matrifocal, Nut é a toda-abrangente força feminina do oceano primordial, o fundamento da criação; ela guarda no seu corpo o Sol, a Lua e as estrelas como seus filhos transitórios e efêmeros, pois eles nascem e desaparecem com as marés do seu corpo. Do ponto de vista patriarcal - formulado pelos sacerdotes de Ra - o sol torna-se o foco, o ser primário que viaja no seu barco sobre o abismo aquoso do céu, descrito como o corpo da vaca celeste que o sustenta, mas não o gera. Assim Nut não é mais a mãe de Ra, mas sua neta, uma inversão do papel tradicional. As nuances avermelhadas do alvorecer não mais representam o sangue puerperal da mãe, mas o da serpente da escuridão, morta pelo Sol. No entanto, independente da forma como o Sol era descrito, Nut preserva seu papel central como o céu noturno, a mãe cuidadora dos mortos, que abraça e cuida das almas à espera do seu renascimento.

Vários mitos descrevem a trajetória do Sol no céu do leste ao oeste. De acordo com uma lenda egípcia, todas as noites, quando o Sol desaparecia no horizonte, Nut engolia o astro rei, que percorria o seu corpo durante a noite, descansando no seu ventre (“a gruta secreta”) e o dava à luz todas as manhãs como radiante disco solar. A manhã simbolizava a renovação de toda a criação, uma analogia com o rejuvenescimento e a ressureição dos mortos. As imagens do divino feminino reproduzem a experiência simultânea da união e separação. No pôr do sol no oeste, a Deusa é a mulher que recebe a semente de luz, que viaja pelo seu corpo e gera o deus no seu ventre. No leste, no alvorecer, a deusa é Mãe, que dá à luz seu filho e se separam depois. Quando a mãe se une ao pai (Nut com Geb ou Osíris e Ísis) os opostos se unem, a unidade abrange o Todo formado pela combinação da dualidade. O mistério do nascimento é um processo de fusão, gestação, união e individualização, tanto no macro como no microcosmo.
 
Nut era uma deusa celestial, mas seu culto era associado ao contexto funerário devido à sua conexão com o renascimento do Sol e com a crença egípcia na ressureição dos mortos. Acreditava-se que ela estendia a mão aos que tinham morrido, consolando-os e os colocando como estrelas para iluminar o seu corpo. Nas ilustrações nos tetos de vários túmulos e templos, no Vale dos Reis, o corpo de Nut - cujas extremidades simbolizavam os pontos cardeais - aparecia arqueado sobre a terra, abraçando o seu irmão e esposo Geb. Segundo os “Textos das Pirâmides”, a sua função era de "cobrir o corpo do deus", de tal modo que no interior das tampas dos sarcófagos e na parte interna da base, Nut era representada com uma imagem virada para baixo, a outra para cima, simbolizando a recepção dos defuntos com o seu abraço materno, cobrindo-os para sua proteção e auxiliando o seu renascimento.
Em todo o Egito foram encontradas imagens do corpo nu da Mãe Celeste, pintadas nos tetos dos templos e dos sarcófagos em azul anil ou decoradas com lápis lazuli. Às vezes seu corpo é dourado com estrelas brilhando sobre ele representando seus filhos, as almas dos mortos ou daqueles que ainda não nasceram. Outras imagens a mostram engolindo - na forma de um globo dourado - a semente do Sol morrendo ao anoitecer, que renasce do corpo materno no alvorecer do outro dia com a ajuda de Khepera, o escaravelho dourado. A celebração do nascimento do deus solar honrava também a Grande Mãe como “Vaca Celeste”, de cujas tetas nascia a Via Láctea.
 
Geb desempenhava um papel de destaque na mitologia egípcia e era citado em vários textos como Seb, Keb, Kebb, Qeb ou Gebb, sendo originário de uma linhagem antiga de deuses e representando a terra. Era descrito como um homem barbudo, sua cabeça sustentando um ganso ou uma coroa branca com adornos, conhecida por “Coroa Ritual” (atef). Também podia ser retratado simplesmente como um ganso, palavra cuja grafia em egípcio também era geb, esta ave sendo seu símbolo, seu animal sagrado e que fazia parte da grafia de seu nome em hieróglifos. Por essa associação com o ganso ele é denominado o “Grande Cacarejador” e sua filha Ísis às vezes recebia o epíteto de ”Ovo do Ganso”. Geralmente aparecia como um homem com a pele verde ou preta, a cor das coisas vivas, da vegetação e do lodo fértil do Nilo, respectivamente. Frequentemente era desenhado deitado de lado sobre a terra, apoiado sobre seu cotovelo ou com os joelhos dobrados e elevados tocando o céu, com plantas brotando de seu corpo. Nesta imagem dizia-se que Geb representava os vales e colinas do país, enquanto o pai Shu segurava o corpo de Nut com seus braços elevados, da mesma forma que o ar segurava o céu. Este posicionamento tem uma grande importância mítica, pois quando Shu elevou Nut (o céu) acima de Geb (a terra) ele colocou um fim ao caos; se ele deixasse de segurar Nut, o mundo voltaria ao caos primordial. A terra era chamada de A Casa de Geb, assim como o ar era chamado de A Casa de Shu, e o céu A Casa de Nut. Outra crença era a de que ele era a divindade supridora dos minerais e das pedras preciosas e, por isso, também era o deus das minas. Em síntese, era um deus provedor de tudo: pedras, alimentos e plantas que cresciam às margens do Nilo.

A cidade de Heliópolis, situada poucos quilômetros a nordeste do atual Cairo, era tida como o local do nascimento dos nove deuses e onde realmente se iniciou a obra da criação do mundo. Diversos papiros ilustram o primeiro ato da criação ocorrido quando o deus-Sol apareceu no céu pela primeira vez e iluminou a terra com seus raios. Em uma ilustração de um papiro do Livro dos Mortos datado da XXI dinastia (c. 1070 a 945 a.C.) Geb aparece deitado sobre o solo com o pênis ereto, como se tentasse manter relações sexuais com Nut - para enfatizar sua característica de deus da fertilidade -, com uma das mãos voltadas para o chão e a outra estendida em direção ao céu. Um dos joelhos geralmente está flexionado, bem como um dos cotovelos, simbolizando as montanhas e vales da terra.
As montanhas eram consideradas como sendo seus ossos, ou o resultado dos seus esforços infrutíferos de unir-se à deusa Nut..

Em hinos e outras composições o deus Geb é denominado de erpa, ou seja, pai ou chefe hereditário dos deuses, numa alusão aos seus quatro filhos. Originalmente deus da terra e da fertilidade, mais tarde Geb passou a ser uma divindade dos mortos, já que é no seio da terra que os mortos são depositados. Nesse sentido ele desempenha papel muito importante no Livro dos mortos onde aparece como um dos deuses que assistem à pesagem do coração do defunto no “Saguão das Duas Verdades”. As pessoas com integridade moral, conhecedoras das palavras mágicas necessárias, eram capazes de se evadir da terra e Geb as guiava para o céu, dando-lhes alimento e bebida. Os maus, entretanto, seriam presas fáceis de Geb, que os aprisionava em seu próprio corpo — a terra. Na tampa dos ataúdes, Geb era representado embaixo e Nut acima, de maneira que o defunto ficava contido entre as duas divindades.
 
Geb tornou-se um rei poderoso e ganhou o título exclusivo de Herdeiro dos Deuses. Não existia um distrito ou cidade dedicada especificamente a essa divindade, nem se sabia em que localidade ela foi cultuada pela primeira vez. Sabe-se, entretanto, que uma extensão do templo em Apolinópolis Magna foi dedicada a esse deus e que um dos nomes da cidade de Dendera era a Casa dos filhos de Geb. Mas o seu principal centro de culto parece ter sido Heliópolis, onde ele e sua esposa Nut produziram o “Grande Ovo” do qual se originou o deus-Sol na forma de um pássaro conhecido pelos egípcios como Ave Benu e pelos gregos como Fênix.  O ovo sempre foi, para os antigos egípcios, um símbolo de renovação, simbolismo que até hoje persiste por ocasião da celebração do Sabbat celta Ostara e da páscoa cristã.

Com o passar do tempo a influência de Nut cresceu e ela passou a personificar não somente o céu diurno, mas o firmamento inteiro e tudo o que era contido entre o nascer e o pôr do sol. Como deusa do período histórico mais recente do Egito, Nut absorveu uma variedade dos atributos das deusas mais antigas, incluindo os da deusa Hathor, quando era representada por uma belíssima mulher, com o disco solar adornando sua cabeça. Invocada como “A Grande protetora, O horizonte infinito ou A
Mãe dos deuses”, Nut era festejada no “Festival das Luzes”; nos seus inúmeros templos serviam apenas mulheres, que cuidavam dos seus altares e rituais, na esperança de que após sua morte iam brilhar como “estrelas no corpo da Deusa celeste”. Mesmo com a diminuição do poder divino feminino nas dinastias mais recentes, Nut continuou a ser reverenciada, principalmente devido à sua importância nos ritos funerários e nas representações das tampas dos sarcófagos, tanto dos reis, quanto das pessoas humildes, assegurando assim a sua proteção após a morte e a certeza do renascimento.
 
“Grande Deusa, Tu que te tornaste céu, Tu és poderosa e forte, bela e bondosa e a própria Terra se prosterna aos Teus pés. Tu abranges toda a criação nos Teus reluzentes braços e recebes as almas, tornando-as estrelas que embelezam a vastidão do Teu corpo”.


Mirella Faur - Teia de Thea

A senhora da Roda de Prata

 “Tu, que perambulas por muitos lugares sagrados e és reverenciada com diferentes rituais;
Tu, cuja luz suave clareia o caminho dos viajantes e nutre as sementes escondidas sob a terra;
Tu, que controlas o caminho do Sol e até mesmo a intensidade dos seus raios
eu Te imploro,
chamando todos os Teus nomes e todos os Teus aspectos
eu Te invoco
com todas as cerimônias que Te foram dedicadas,
venha a mim e me traga repouso e paz”
Apuleio, "O Asno Dourado

 
Para nossa mentalidade atual, baseada em valores solares, pode parecer estranha a afirmação do escritor romano Apuleio (século I) sobre o controle exercido pela Lua na trajetória e intensidade dos raios do Sol.

No entanto, se voltarmos para o início da história da humanidade, podemos constatar a maior relevância simbólica e mitológica da Lua, bem como a antiguidade dos cultos lunares em relação aos valores e cultos solares. Na Caldéia, os astrólogos ignoravam o Sol e fundamentaram seu sistema nos movimentos da Lua. Até hoje, na astrologia védica, o peso da interpretação recai sobre o signo lunar natal, os meses são denominados “mansões lunares” e caracterizados pela posição da Lua cheia na respectiva mansão.

Os cultos lunares se originaram no paleolítico e os primeiros calendários conhecidos foram os lunares, baseados no ciclo menstrual da mulher. O mais antigo calendário astrológico conhecido foi criado pelos babilônios e chamava-se “As casas da Lua”, estabelecido a partir do ciclo de lunação, com seus períodos mensais representados pelos signos zodiacais. A principal deusa lunar da Babilônia era Ishtar, cujo cinturão era enfeitado com representações e símbolos do zodíaco.
Inúmeros artefatos neolíticos talhados em pedra, chifre e osso, encontrados em grutas espalhadas por vários países na Europa e Ásia têm inscrições agrupadas em séries alternadas de 28 a 30 traços, demonstrando o antigo conhecimento astronômico dos ciclos lunares. Atualmente está sendo cada vez mais divulgado e utilizado o calendário lunar do povo maia, com base no ciclo das treze lunações que formam um ciclo solar.

Desde os mais remotos tempos, a Lua foi reverenciada como a manifestação da Grande Mãe Universal, o aspecto feminino da Divindade, a fonte criadora e mantenedora da vida, cuja luz e bênção eram invocadas nos rituais de fertilidade, no plantio das sementes e no parto das crianças. Suas fases passaram a simbolizar o próprio ciclo da geração, nascimento, crescimento, mas também o amadurecimento, decadência e morte. As suas faces clara e escura foram consideradas os aspectos doadores da vida e destruidores da natureza – a Mãe sendo tanto a Criadora como a Ceifadora.

A Lua foi venerada sob inúmeros nomes nas várias tradições e culturas antigas. Apesar dessa diversidade, existe uma similitude em relação aos seus atributos de acordo com suas fases. A Lua crescente representava a vitalidade da Deusa jovem, o frescor da Donzela, o potencial do crescimento, o início das realizações. Tornando-se cheia, a Lua personifica o ventre grávido da Mãe, o florescimento e abundância da natureza, a concretização das possibilidades. Ao minguar, a Lua assume o aspecto de Anciã, assinalando o fim da colheita, o declínio das energias, a sábia preparação para conhecer os mistérios da morte e do renascimento.
Dificilmente se encontra nas várias mitologias uma única deusa que sintetize a inteira gama do simbolismo lunar. Nos panteões grego e celta, existem inúmeras deusas lunares com características específicas relacionadas aos atributos das fases e representando os arquétipos da Donzela, da Mãe e da Anciã.

Uma Deusa celta pouco conhecida é Arianrhod, descrita na coletânea de textos galeses “Mabinogion” como “A Senhora da Roda de Prata”. Vivendo na longínqua terra encantada de Caer Sidi, ela personificava uma antiga Deusa Mãe celeste, regente da constelação estelar Corona Borealis, cujo nome em galês era “Caer Arianrhod” , ou seja, “O castelo girante de Arianrhod”.

O mito de Arianrhod é muito complexo, com elementos contraditórios e de difícil compreensão, denotando as deturpações decorrentes da interpretação das antigas lendas da tradição oral dos bardos, pelos monges e historiadores cristãos. Há, no entanto, uma passagem muito interessante que descreve de forma metafórica e pitoresca uma mescla de atributos da Deusa como Donzela e Mãe escura. Filha da deusa da terra Don, Arianrhod foi chamada pelo Deus celeste Math para ser sua acompanhante (na verdade, seu dever era segurar os pés do Deus no seu colo enquanto ele descansava). A condição essencial deste encargo era a virgindade da candidata.

Mas, ao ser testada pelo bastão mágico de Math, Arianrhod de repente deu a luz a gêmeos – um, bem formado, Dylan, que se foi arrastando para o mar (onde se transformou depois em um deus marinho), e outro, ainda em estado embrionário. Arianrhod desapareceu, mas antes amaldiçoou este filho para que ele não tivesse jamais um nome, não pudesse usar armas e nem casar. Na cultura celta, era a mãe que dava o nome e abençoava seu filho nestes rituais de passagem. No presente mito, a criança foi adotada pelo irmão de Arianrhod, o mago Gwydion, que, no devido tempo, conseguiu ludibriar Arianrhod e, usando recursos mágicos, a convenceu a dar um nome a seu filho e permitir-lhe usar armas. O nome Llew Llaw Gyffes, “o brilhante, luminoso e habilidoso”, era o mesmo nome de um famoso herói celta Lugh, personificação de um antigo deus solar. Comprova-se, assim, por metáforas e intrincados simbolismos celtas, a antiguidade das divindades e cultos lunares, a Lua representando as tradições matrifocais da Deusa que deram origem aos cultos e mitos solares posteriores.

Na Ásia - Ocidental e Menor - durante séculos foram reverenciadas inúmeras Deusas Mãe, algumas delas com características lunares. Na Suméria e na Babilônia, a Deusa Anath, Anunith ou Antu era conhecida como a “Senhora da Lua, do Céu e das Montanhas”, representada por um disco prateado com oito raios. Assim como Arianrhod, ela reunia as qualidades da Donzela – regendo o plantio das sementes e o crescimento dos brotos e da Mãe – quando desce para o mundo subterrâneo para resgatar seu filho/consorte da escura morada de Mot, o deus da morte, e regenera a terra seca com a chuva fertilizadora. Posteriormente, os atributos de Anath foram absorvidos no mito e no culto de outras deusas, como Ashtar, Astarte e Asherah.

Mirella Faur  -  Teia de Thea

Kali

Kali, a Negra Mãe do Tempo

Por ti Devi, este universo é gerado e nosso mundo criado
Por ti Devi, ele é protegido e no fim do tempo consumido
Pois tu és a força criadora, o escudo protetor e o poder destruidor
Que segue a inexorável passagem do tempo.
Devi Mahatmya

 
Kali Ma, a deusa ancestral hindu é venerada na Índia como um arquétipo de Devi, a Grande Mãe, de quem tudo se origina e para quem todos devem retornar. Apesar de Kali ser na verdade uma deusa Tríplice: da criação, preservação e destruição, é este seu ultimo aspecto que é mais conhecido e – para nós ocidentais – o mais difícil de compreender e aceitar, por parecer primitivo e atemorizador. Representada como uma Deusa negra, nua, com os dentes à mostra e a língua de fora, adornada por uma guirlanda de caveiras e dançando vitoriosa sobre o cadáver de Shiva, o seu consorte, Kali desafia a imagem estereotipada da Mãe Divina bondosa e amorosa e desperta nossos medos atávicos da morte e do desconhecido.

No entanto, se procurarmos conhecer seus símbolos, ultrapassando a dicotomia conceitual do bem e do mal, poderemos paulatinamente perceber toda a beleza, plenitude e grandiosidade de Kali como sendo a própria Mãe do Tempo, cuja eterna dança entre a vida e a morte nos leva da destruição para a regeneração. Uma vez compreendida sua força e seu poder transformador, Kali nos oferecerá a libertação de todos os medos – inclusive perante a morte –, livrando-nos assim dos apegos, das fantasias e das ilusões.

Observar e acatar a impermanência da vida significa aprender a difícil lição do desapego e da renúncia. A entrega é difícil, presos como estamos nas teias das ilusões, nas amarras dos apegos, na trama das compensações, que nos fazem cair novamente nas armadilhas das sensações. Acreditamos que não podemos – e nem sabemos – como renunciar, nos desapegar, mudar, deixar ir, fluir, pois para renascer, primeiro precisamos morrer. Morrer para que o velho ego dê lugar para um novo Eu, descobrindo assim a nossa verdadeira identidade e assumindo a responsabilidade pelas conseqüências das nossas ações. Como estamos vivendo na ”era de Kali” (segundo a cosmologia hindu) é do seu poder que necessitamos para dançar a dança da transformação – nossa e do mundo ao nosso redor.
Para as mulheres modernas, Kali oferece um arquétipo poderoso para despertar a sua combatividade, aprender a delimitar e defender seus espaços, lutar por seus anseios e objetivos e vencer os demônios dos medos. Reconhecendo a sombra da Mãe Terrível – em si e nos outros – elas também vão saber quando precisam usar a espada da destruição ou o lótus da compaixão.

Descobrir, aceitar, liberar e transmutar a raiva, admitir e libertar-se dos medos e das culpas, identificar e rasgar os véus das ilusões, são etapas necessárias para encarar as sombras, ultrapassar as limitações, trocar de pele e assumir o verdadeiro poder. Não o poder sobre os outros, mas o poder interior que mobiliza a vontade, quebra a inércia e liberta dos grilhões. Somente assim a mulher renascerá para uma nova compreensão e vivência do Sagrado em si, nos outros, na vida e no eterno feminino.

Meditando a respeito da sua feroz apresentação, descobriremos que a sua cor preta evoca o mistério do útero cósmico primordial e do silêncio regenerador da terra. Sua nudez revela a beleza e a singeleza da verdade. Nas mãos ela segura a espada da sabedoria que destrói as ilusões, a tesoura que corta os apegos e as dependências, a cabeça decapitada que recomenda libertar-se do controle pela mente racional e os jogos egóicos, o lótus que promete a expansão da consciência e a realização espiritual. A guirlanda de caveiras é formada pelo colar das existências passadas, amarradas pelo cordão umbilical dos nascimentos futuros. Dançando freneticamente sobre o corpo morto do seu consorte, Kali o reanima, transformando o cadáver (Shava em sânscrito) em Shiva – o deus da dança e do poder fertilizador. As serpentes que envolvem seus braços simbolizam a força transformadora de Shakti, o princípio feminino da sexualidade e da vida, transmitido ao Shiva pela dança de Kali.

Aceitando a idéia da necessidade do processo de destruição para limpar o velho e abrir espaço para o novo, é fácil compreender os amplos atributos de Kali, seja como uma deusa guerreira que usa suas armas com coragem e sem pena, seja como uma deusa mãe criadora e preservadora da vida, bem como a negra ceifadora que acompanha o eterno e imutável processo de decadência, decomposição e regeneração.

Dependerá do seu momento e da sua prioridade conectar se e invocar um destes aspectos, com pleno conhecimento dos seus atributos, bem como tendo a plena consciência da responsabilidade da escolha e das conseqüências do seu pedido. Lembre-se que “às vezes é melhor não pedir do que pedir demais” e que “um presente requer sempre uma retribuição”. Portanto, cuidado com que pedir, pois poderá por Kali ser atendida!


Mirella Faur - Teia de Thea

Pacha Mama

 

Pacha Mama, Mama Pacha

"Somos seus filhos, Mãe, ouça nossa prece, Mãe,
Nós que viemos para este mundo, Mãe, pelo teu útero, Mãe,
Hoje nós lutamos e destruímos você
Por favor, Mãe, queremos viver em harmonia
Ajude-nos a compreender e cuidar de você
Por favor, Mãe, ajude-nos a viver em harmonia
Ouça nossa prece, Pacha Mama
Ajude-nos a aprender como agradecer e amar você."
(Canto para Pacha Mama)

 
Para os povos nativos, conceitos atuais como “respeitar a Mãe Terra” ou “honrar todos os seres da criação” eram verdades milenares que constituíam a base de suas tradições religiosas. Conhecida e reverenciada por inúmeros nomes, conforme o local de seu culto, a Terra sempre foi nossa Mãe – no entanto, nem sempre amada ou honrada.
Sem precisarem de sofisticadas teorias ecológicas, os povos andinos nunca deixaram de amar e reverenciar Pacha Mama, a provedora de todos os alimentos, nutridora e protetora de seus filhos. A agricultura existia nos Andes desde o século 3 a.C. e incluía avançadas técnicas de irrigação, de seleção e de adaptação de diversas espécies vegetais, em função dos fatores geográficos e climáticos. A religião praticada pelas tribos andinas, antes de sua conquista pelos incas, refletia, de forma singela, sua permanente observação e conexão com as forças da Natureza e os ciclos das estações.

Os elementos naturais (Sol, Lua, estrelas, vento, nuvem, chuva, arco-íris, relâmpago, terra, água, montanha) eram divinizados e reverenciados com cerimônias e oferendas. Até o século XIII, quando os incas conquistaram e dominaram as tribos esparsas, impondo sua hierarquia social e religiosa e introduzindo os bárbaros sacrifícios humanos (de prisioneiros, crianças e virgens), as oferendas dos camponeses eram simples, assim como seu modo de viver. Oferecia-se milho: em grão, farinha ou
fermentado como bebida (chicha), raízes, frutas, folhas de coca, fumo e sangue de lhama.

Diariamente, as famílias colocavam um pouco de sua comida no chão, agradecendo a Pacha Mama por ela. No plantio ou na colheita, as mulheres salpicavam fubá sobre a terra e falavam suavemente com Pacha Mama, pedindo ou agradecendo a fartura da colheita.
Era importante lembrar e agradecer sempre à Pacha Mama, para que ela não se zangasse e assumisse seu aspecto de dragão, que sacudia a terra e provocava terremotos, enchentes, geadas ou secas. Os viajantes deixavam oferendas nas encruzilhadas antes de iniciarem suas caminhadas, também se pedindo a proteção de Pacha Mama antes de subir uma montanha, de forma a evitar o mal de alturas ou a queda nos precipícios (castigos que ela infligia àqueles que a desrespeitavam ou ofendiam suas criaturas).

Até hoje, nos lugares mais isolados da Bolívia, Peru e Equador, são realizados rituais e oferendas tradicionais para agradecer a Pacha Mama pela saúde, trabalho, bens e prosperidade. Acredita-se que Pacha Mama também tem fome e que precisa ser alimentada antes de lhe ser pedido qualquer favor. As oferendas, às vezes, são queimadas, junto com resina de copal, para que a fumaça leve as orações para todos os cantos da terra.
No mês de abril celebra-se o Dia Internacional da Terra. Nada melhor para marcar essa data do que realizar um ritual pessoal ou coletivo de gratidão para a Terra, que é nossa eterna Mãe.

Mirella Faur - Teia de Thea

Ishtar

Ishtar, a Rainha do Céu

 
Amplamente cultuada na antiguidade, conhecida sob vários nomes e títulos em diferentes países, Ishtar era uma deusa lunar, uma das manifestações de Magna Dea, a Grande Mãe do Oriente e uma versão mais tardia e complexa da deusa suméria Inanna. Foi venerada como Astarte em Canaã, Star na Mesopotâmia, Astar e Star na Arábia, Estar na Abissínia, Stargatis na Síria, Astarte na Grécia. No Egito sua equivalente era Ísis, cujo culto espalhou-se até a Grécia e Roma, florescendo até os primeiros séculos da era cristã.

Ishtar personificava a força criadora e destruidora da vida, representada pelas fases da Lua, crescente e a cheia que favorecem o desenvolvimento e a expansão, a minguante e a negra que enfraquecem e finalizam os ciclos anteriores. Como Deusa da fertilidade ela dava o poder de reprodução e crescimento aos campos, aos animais e aos seres humanos. Foi nesta qualidade que se tornou a Deusa do Amor, que teria descido do planeta Vênus, acompanhada de seu séqüito de sacerdotisas Ishtaritu que ensinaram aos homens a sublime arte do êxtase: sensorial e espiritual.

Como rainha do céu era a regente das estrelas, pois ela mesma tinha vindo de uma estrela que brilhava no amanhecer e no entardecer e era o ponto central de seu culto. As constelações zodiacais eram conhecidas pelos antigos como o “cinturão de Ishtar” e era ela quem percorria o céu todas as noites em uma carruagem puxada por leões, controlando o movimento dos astros e as mudanças do tempo. Muitos eram os títulos que lhe foram atribuídos – “Mãe dos Deuses, A Brilhante, Criadora da Vida, Condutora da Humanidade, Guardiã das Leis e da Ordem, Luz do Céu, Senhora da Luta e da Vitória, Produtora de Sementes, Senhora das Montanhas, Rainha da Terra”.

As suas representações a mostram como a mãe que segura os seios fartos, a virgem guerreira, a insinuante sedutora, a sábia conselheira, a juíza imparcial. Mas Ishtar tinha também um aspecto escuro, que surgia quando ela descia ao mundo subterrâneo e uma época de terrível depressão e desespero caia sobre a terra. Na sua ausência, nada podia ser concebido, nenhum ser podia procriar, a Natureza inteira mergulhava na inércia e inação, chorando por sua volta. Era então chamada de “Mãe Terrível, Deusa da Tempestade e da Guerra, Destruidora da vida, Senhora dos Terrores Noturnos e dos Medos”. Porém, era nessa manifestação que ela podia ensinar os mistérios, revelar as coisas ocultas, propiciar presságios e sonhos, permitir o uso da magia, o alcance da sabedoria e a compreensão dos ciclos da vida e da natureza.

Em suas formas variadas e mutantes Ishtar desempenha as múltiplas possibilidades da essência feminina, sendo a personificação do princípio feminino – seja o da natureza Yin, seja o da anima. Nas celebrações de lua cheia dedicada ao seu culto (chamadas Shapattu) as mulheres da Babilônia, Suméria, Anatólia, Mesopotâmia e Levante levavam oferendas de velas, flores, perfumes, mel e vinho para seus templos, cantavam-lhe hinos, dançavam em sua homenagem e invocavam suas bênçãos para suas vidas, suas famílias e sua comunidade.

Mirella Faur - Teia de Thea

domingo, 21 de julho de 2013

Deusas celtas, soberanas da Terra e da Guerra

“A morte nasce conosco e conosco caminha por todos os instantes da vida, mesmo que tentemos ignorá-la”. John O’Donoghue, escritor irlandês.


Do grande tronco indo-europeu faziam parte os vários povos celtas estabelecidos em diferentes lugares do continente europeu. Considerados pelos romanos como bárbaros valentes, jamais formaram um império pois lhes faltava uma liderança única, as diversas tribos sempre guerreando entre si. Apesar da sua diversidade étnica, entre os séculos VIII e V a.C. houve uma cristalização da cultura celta com a uniformização dos sepultamentos (os mortos passaram a ser enterrados com armas e pertences e não mais cremados), a construção de fortificações com paliçadas e melhor elaboração dos conceitos e costumes sobre vida e morte. A sociedade celta era dividida em clãs e os laços familiares eram muito valorizados. As mulheres celtas se assemelhavam aos homens não apenas pela sua estatura e altivez, mas também com respeito à coragem e participação ativa nas batalhas, conforme comprovam centenas de relatos de mulheres poderosas e rainhas deificadas como Boudicca e Maeve.
 
Os celtas respeitavam profundamente a Natureza, honrando a Terra e suas criaturas como elos sagrados na teia da criação e na magia da vida. Esta reverência e o culto de inúmeras divindades ligadas às forças da natureza mantiveram-se intactos mesmo depois da romanização das terras celtas e do sincretismo com os deuses romanos. Porém, a erradicação e perseguição agressiva e opressiva da religião pagã aconteceram com a chegada do cristianismo, que conseguiu impor seus dogmas e proibições apesar da resistência dos druidas e do povo, principalmente o irlandês. Para erradicar a religião pagã e suas tradições os monges cristãos começaram a registrar lendas, mitos, crenças e costumes com as devidas correções e inevitáveis distorções, introduzindo elementos e conceitos cristãos. Mesmo assim, uma boa parte do legado ancestral foi preservada e o substrato original pode ser distinguido se usarmos um “filtro” corretor, olhando além das incongruências conceituais e sobreposições cristãs.
 
Um dos conceitos celtas mais difíceis de compreender e aceitar - pela nossa cultura cristã e a mentalidade atual - é a associação dos arquétipos sagrados femininos com a guerra. Para transpormos barreiras conceituais devemos conhecer o princípio celta da soberania da terra, sempre representado por uma Deusa Mãe com características protetoras e defensoras. A vida e a sobrevivência dependiam da terra e por isso ela devia ser preservada e protegida, pois desrespeitar a terra e a soberania de um povo significava ofender e ameaçar a própria natureza criadora da vida. A soberania – o verdadeiro poder de quem governava e conduzia os destinos de um povo – pertencia a um arquétipo feminino, a própria Deusa da Terra, com a qual o rei ou governante devia se casar simbolicamente para garantir a prosperidade e paz. O casamento do rei com a Deusa da terra representava as condições indispensáveis para que a soberania se manifestasse: respeito, igualdade, confiança, parceria e solidariedade. A representante da Deusa soberana era uma sacerdotisa ou rainha imbuída de poderes especiais, que até mesmo podia ser divinizada, como se conclui das lendas de Macha, Maeve e Boudicca. Nos mitos aparece de forma metafórica o alerta sobre as conseqüências da opressão, violência e exploração da natureza e da mulher com os inerentes desequilíbrios, a falta de prosperidade e do convívio pacífico.
 
Em várias lendas, Macha (pronuncia-se Maha) é descrita como uma típica deusa celta tendo um caráter ambíguo: ora generosa e gentil, ora terrível e implacável guerreira.Ela - assim como Maeve – é uma divindade ctônica, ligada às dádivas da terra e à sua necessária defesa e proteção. Maeve (ou Medb) representava o espírito feminino arcaico, existente em cada mulher e que é expresso em grau maior ou menor como comportamento instintivo, impulsivo, corajoso, combativo, sedutor e fértil. Outras fontes citam Macha como sendo uma das faces de Morrighan, a formidável deusa tríplice da guerra, morte e sexualidade (o meio natural para garantir a fertilidade). As faces de Morrighan chamadas de Morrigna eram conhecidas como: Nemain, o frenesi combativo que infundia o terror nos inimigos, Morrighan, a “Grande Rainha” que planejava o ataque e incitava o heroísmo e a valentia dos combatentes, Macha ou Badb, o corvo que se alimentava dos cadáveres dos mortos em combate e que era associada aos sangrentos troféus da batalha (as cabeças decapitadas dos inimigos, consideradas “sua colheita”). Esta triplicidade também era conhecida com os nomes de Banba, Fotla, Eriu, as ancestrais padroeiras da Irlanda.
A natureza das deusas celtas é multifuncional e com complexos significados, mesclando elementos ancestrais dos pacíficos povos pré-celtas (maternidade, fertilidade) com os dos combativos celtas, onde prevaleciam atributos de guerra, morte e sexo, acrescidos de soberania.Várias divindades representam uma paradoxal união de extremos: amor e guerra, guerra e fertilidade, guerra e soberania. Não existe uma deusa do amor no panteão celta, as deidades - deusas e deuses- simbolizam as forças da natureza e a eterna roda da vida/ morte/renascimento, início/ fim/recomeço, em que os opostos se seguem em círculos evolutivos e tem o mesmo peso.
Na filosofia celta não existia vida sem morte, nem paz sem guerra. Cada ser traz em si estes elementos e pela sua percepção vemos a necessidade do seu equilíbrio, que pode ser desestabilizado pela supervalorização de uma característica em detrimento de outra. Nosso desenvolvimento espiritual depende da compreensão e harmonização de todos os elementos que fazem parte do nosso ser. Somente conhecendo a face escura e selvagem e “domando-a”, poderemos tomar consciência da nossa divina complexidade, conhecendo assim a verdadeira e completa natureza. É possível unir as qualidades maternais e femininas com os aspectos guerreiros, os dons da arte, magia e sedução.
 
Em muitas referências míticas, iconográficas e literárias vê-se a forte ligação entre as deusas da guerra e a presença de mulheres nas batalhas. Indo além das interpretações tendenciosas romanas e as difamações cristãs, percebemos esta ligação como uma associação simbólica entre guerra e ritual. Para os celtas a caça era uma atividade que envolvia rituais para assegurar o sucesso, da mesma forma como as mulheres celtas vestidas de preto, com os braços elevados e proferindo maldições contra os conquistadores romanos tinham um forte componente ritualístico.As sacerdotisas que atuavam nos campos de batalha usavam encantamentos para atrair poderes sobrenaturais e direcioná-las contra os inimigos, fortalecendo seus companheiros para não recuar perante o inimigo. Os historiadores romanos descreveram as mulheres celtas como bruxas ferozes e ameaçadores, altas, robustas, com pele alva e olhos azuis e longos cabelos ruivos, sacudindo os punhos com raiva e gritando maldições. Em outras situações, as mulheres ficavam com seus filhos na retaguarda e incentivavam seus homens com gritos e orações para que lutassem melhor e não desistissem.
 
Das inúmeras mulheres guerreiras, sacerdotisas e rainhas poderosas sobressaem-se duas famosas rainhas: Cartimandua, dirigente dos Brigantes, sacerdotisa da deusa Brigantia e Boudicca governante dos Iceni, que se tornou famosa por venerar a deusa Andraste ou Andarta, a deusa da guerra citada por várias fontes. O nome Boudicca ou Boadiceia se origina na palavra celta bouda que significa vitória. A sua história é repleta de atos de coragem nas batalhas e crueldade com as prisioneiras, que eram empaladas vivas e mutiladas como oferendas sangrentas para a deusa Andraste e uma vingança pelo estupro das suas filhas e a conquista da terra pelos romanos. Existe um forte elo entre Boudicca e Andraste, podendo serem vistas como aspectos de uma mesma entidade, uma residindo no mundo sobrenatural e a outra sendo uma valente dirigente e cruel guerreira humana, ao mesmo tempo servindo como sacerdotisa da deusa da guerra.
 
Andraste ou Andred cujo nome significa ”A Invencível’ era uma deusa irlandesa equiparada com Andarte cultuada na Gália e com características semelhantes à Morrighan, sendo evocada na véspera das batalhas para garantir a vitória.Os romanos diminuíram seu status para uma deusa lunar (por ser a lebre seu totem) e a associaram ao amor e fertilidade. No entanto, o arquétipo original de Andraste é de uma deusa escura e ceifadora, invocada apenas nos momentos de extrema necessidade, pois ela exigia sacrifícios de sangue humano, considerado o mais potente substrato mágico.Ela controlava os fios da vida de cada ser humano, do nascimento até a morte, pois a morte era parte inevitável da vida.
O seu lado sombrio (da anciã) era amenizado pelos seus atributos de deusa lunar, regente do amor e da fertilidade (como mãe criadora da vida) e regente da caça (na sua face de donzela).
 
O aparente paradoxo entre os aspectos e naturezas das deusas celtas reflete a profunda compreensão do processo de dar/receber, nascer/morrer, começo/fim. Muitas deusas aparecem como figuras promíscuas e destrutivas, mas elas personificavam aspectos da natureza, como a fertilidade e a soberania da terra, que tinham que ser defendidas a qualquer preço para assegurar a sobrevivência dos descendentes. A criação e a destruição são processos interdependentes, existe uma ausência de vida na escuridão da terra que recebe os mortos, mas também é a terra escura que abriga e promove o desabrochar das sementes, que renascem - assim como os mortos nela enterrados - para uma Nova Vida.

A Grande Mãe Brasileira

Brasil é o país que concentra o maior número de pessoas a cultuarem uma das manifestações da Grande Mãe, como Iemanjá, a deusa ancestral das águas, “A Senhora do Mar”. Só perde para a Índia, onde inúmeras deusas com diversos nomes e aspectos são cultuadas até hoje. Anualmente, às vésperas do Ano Novo e no dia dois de fevereiro, milhões de pessoas levam suas oferendas e orações para as praias brasileiras, ou saem em procissões marítimas ou fluviais, similares às antigas cerimônias egípcias e romanas – Navigium Isidi – dedicadas a Ísis, Deusa Mãe protetora dos viajantes e das embarcações.

Apesar da devoção brasileira a Iemanjá, seu culto não é nativo - ele foi trazido ao Brasil no século XIII pelos escravos da nação ioruba. Yemojá ou YéYé Omo Ejá, a “Mãe cujos filhos são peixes”, era o orixá dos Egbá, a nação ioruba estabelecida outrora perto do rio Yemojá, no antigo reino de Benin. Devido a guerras, os Egbá migraram e se instalaram às margens do rio Ogun, de onde o culto a Iemanjá foi levado pelos escravos para o Brasil, Cuba e Haiti.
Nesses países, Iemanjá passou a ser venerada como “Rainha do Mar”, orixá das águas salgadas, apesar da sua origem ter sido “o rio que corre para o mar”, sua saudação sendo Odo-Yiá, que significa “Mãe do Rio”. Analisando os nomes Ya/man /Ya  e Ye/Omo/Ejá conforme a “Lei de Pemba”– a grafia sagrada dos orixás, postulada pela Umbanda Esotérica-, encontram-se os mesmos vocábulos sacros que significam “Mãe das águas, Mãe dos filhos da água (peixes) e Mãe Natureza”.
Iemanjá é considerada pela Umbanda Esotérica como uma das sete “Vibrações Originais”, sendo o princípio gerador receptivo, a matriz dos poderes da água, o eterno e Sagrado Feminino. Portanto, Iemanjá personifica os atributos lunares e aquáticos da Grande Mãe, padroeira da fecundidade e da gestação, inspiradora dos sonhos e das visões, protetora e nutridora, mãe primeva que sustenta, acalenta e mitiga o sofrimento dos seus filhos de fé.

No entanto, por mais que Iemanjá seja reconhecida e venerada no Brasil, ela não representa a Mãe Ancestral nativa, que tenha sido cultuada pelas tribos indígenas antes da colonização e da chegada dos escravos. Infelizmente, muito pouco se sabe a respeito das divindades e dos mitos tupi-guarani. A cristianização forçada e a proibição pelos jesuítas de qualquer manifestação pagã destruíram ou deturparam os vestígios de Tuyabaé-cuáa, a antiga tradição indígena, a sabedoria dos velhos payés.
Segundo o escritor umbandista W.W. da Matta e Silva e seus discípulos Rivas Neto e Itaoman, a raça vermelha original tinha alcançado, em uma determinada época distante, um altíssimo patamar evolutivo, expresso em um elaborado sistema religioso e filosófico, preservado na língua-raiz chamada Abanheengá, da qual surgiu Nheengatu, a “língua boa”, origem dos vocábulos sagrados dos dialetos indígenas. Com o passar do tempo, a raça vermelha entrou em decadência e, após várias cisões, seus remanescentes se dispersaram em diversas direções. Deles se originaram os tupi-nambá e os tupi-guarani, que se estabeleceram em vários locais na América do Sul.

As concepções religiosas do tronco tupi eram monoteístas, postulando a existência de uma divindade suprema, um divino poder criador (às vezes chamado de Tupã) que se manifestava por intermédio de Guaracy (o Sol) e Yacy (a Lua) que, juntos, geraram Rudá (o amor) e, por extensão, a humanidade. O culto a Guaracy era reservado aos homens, que usavam os tembetá, amuletos labiais em forma de T, enquanto as mulheres veneravam Yacy e Muyrakitã, uma deusa das águas, e usavam amuletos em forma de batráquios e felinos, pendurados no pescoço ou nas orelhas.
Guaracy era a manifestação visível e física do poder criador representado pelo Sol. Apesar do astro ser considerado o princípio masculino na visão dualista atual, a análise dos vocábulos nheengatu do seu nome revela sentido diferente. Guará significa “vivente”, e cy é “mãe”, o que formaria a “Mãe dos seres viventes”, a força vital que anima todas as criaturas da natureza, a luz que cria a vida animal e vegetal. Também em outras tradições e culturas (japonesa, nórdica, eslava, báltica, egípcia, australiana e nativa americana), o Sol era considerado uma Deusa, o que nos faz deduzir que, para os  nativos tupi, a vida e a luz solar provinham de uma Mãe - Cy - que só mais tarde foi transformada em Pai. Yacy era a própria Mãe Natureza, seu nome sendo composto de Ya (senhora) e Cy (mãe), “a Senhora Mãe”, fonte de tudo, manifestada nos atributos da Lua, da água, da natureza, das mulheres e das fêmeas.

Cy - ou Ci - representa, portanto, a origem de todas as criaturas, animadas ou não, pois tudo o que existe foi gerado por uma mãe que cuida da sua preservação, do nascimento até a morte. Sem Cy (mãe), não existe, nem pode perdurar a vida, pois ela é a Mãe Natureza, o principio gerador, nutridor e sustentador da vida. Na língua tupi existem vários nomes que especificam as qualidades maternas: Yacy, a Mãe Lua; Amanacy, a Mãe da Chuva; Aracy, a Mãe do Dia, a origem dos pássaros; Iracy, a Mãe do Mel; Yara, a Senhora da Água; Yacyara, a Senhora do Luar; Yaucacy, a Senhora Mãe do Céu; Acima Ci, a Mãe dos Peixes; Ceiuci, a Mãe das Estrelas; Amanayara, a Senhora da Chuva; Itaycy, a Mãe do Rio da Pedra, e tantas outras mães – do frio e do calor, do fogo e do ouro, do mato, do mangue e da praia, das canções e do silêncio. As tribos indígenas conheciam e honravam todas as mães e acreditavam que elas geravam sozinhas seus filhos, sem a necessidade do elemento masculino, atribuindo-lhes a virgindade - o que também em outras culturas simbolizava sua independência e autossuficiência. Em alguns mitos e lendas, as virgens eram fecundadas por energias numinosas (sobrenaturais) em forma de animais (serpente, pássaro, boto), forças da natureza (chuva, vento, raios), seres ancestrais ou divindades.

A explicação da omissão na mitologia indígena do elemento masculino na criação era o desconhecimento do papel do homem na geração da criança, além do profundo respeito e reverência pelo sangue menstrual que, ao cessar “milagrosamente”, se transformava em um filho. Somente pela interferência dos colonizadores europeus e pela maciça catequese jesuíta que, na criação do homem, o Pai assumiu um papel preponderante, o Filho tornou-se o segundo na hierarquia, salvador da humanidade - como Jurupary, e à Mãe coube apenas a condição de virgem (como Chiucy). Porém, apesar do zelo dos missionários para erradicar os vestígios dos cultos nativos da cultura indígena e dos escravos, muitas de suas tradições sobrevivem nas lendas, nos costumes folclóricos, nas práticas da pajelança - e sua variante a encantaria - que estão ressurgindo, cada vez mais atuantes, saindo do seu ostracismo secular.

Outro arquétipo da Mãe Ancestral é descrito no mito amazônico da Boiúna, a “Cobra Grande”, dona das águas dos rios e dos mistérios da noite. Apresentada como um monstro terrível que vive escondido nas águas escuras do fundo do rio e ataca as embarcações e pescadores, a Boiúna ou “Cobra Maria” é, na verdade, a “Face Escura da Deusa, a Mãe Terrível, a Ceifadora”, que tanto gera a vida no lodo como traz a morte, no eterno ciclo da criação, destruição, decomposição, transformação e renascimento. Caamanha, a “Mãe do Mato”, é outro aspecto da “Mãe Escura” que protege as florestas e os animais silvestres, e pune, portanto, os desmatamentos, as queimadas, a captura e matança dos animais e a violência contra a natureza. Pouco conhecida, ela foi transformada em dois personagens lendários: Curupira e Caapora. Descritos como seres fantasmagóricos, peludos, com os pés voltados para trás, às vezes com um aspecto feminino, são os guardiões das florestas, que levavam os caçadores e invasores do seu habitat a se perderem nas matas, punindo-os com chicotadas, pesadelos, acidentes ou até mesmo com a morte.

Nas lendas guarani relata-se a aparição da “Mãe do Ouro”, que surge como uma bola de fogo ou manifesta-se nos trovões, raios e ventos, mostrando a direção da mudança do tempo. Em sua representação antropomórfica, ela torna-se uma linda mulher que reside em uma gruta no rio, rodeada pelos peixes e de onde se manifesta no ar como raios luminosos, ou então surge na forma de uma serpente de fogo, punindo os destruidores das pradarias. Em sua versão original, ela era considerada a guardiã das minas de ouro, que seduzia os homens com seu brilho luminoso, afastando-os das jazidas. Seu mito confunde-se com o do Boitatá, uma serpente de contornos fluídicos, plasmada em energia etérea com dois imensos olhos; ela guardava os tesouros escondidos, reminiscência dos aspectos punitivos da Mãe Natureza, defendendo e protegendo suas riquezas.

A deturpação cristã do mito punitivo pode ser vista na figura da “Mula sem Cabeça”, metamorfose da concubina de padre, que assombra os viajantes nas noites de sexta-feira (dia dedicado, nas culturas pagãs, às deusas do amor, como Astarte, Afrodite, Vênus, Freyja) e do Teiniágua, lagarto encantado que se transforma em uma linda moça para seduzir os homens, desviando-os dos seus objetivos.
Quanto ao significado esotérico de Muyrakitã, devemos decompor seu nome em vocábulos para compreender sua simbologia feminina: Mura - mar, água; Yara - senhora, deusa; Kitã - flor. Podemos então interpretá-lo como “A deusa que floriu das águas” ou “A Senhora que nasceu do mar”. Esta divindade aquática, considerada a filha de Yacy, era reverenciada pelas mulheres que usavam amuletos mágicos chamados ita-obymbaé, confeccionados com argila verde, colhida nas noites de Lua Cheia no fundo do lago sagrado Yacy-Uaruá (“Espelho da Lua”), morada de Muyrakitã. Esses preciosos amuletos só podiam ser preparados pelas ikanyabas ou cunhãtay, moças virgens escolhidas desde a infância como sacerdotisas do culto de Muyrakitã - vetado, portanto, aos homens. Nas noites de Lua Cheia, as cunhãtay, devidamente preparadas, esperavam que Yacy espalhasse sua luz sobre a superfície do lago e, então, mergulhavam à procura da argila verde. A preparação das virgens incluía jejum, cânticos e sons especiais (para invocar os poderes magnéticos da Lua), além da mastigação de folhas de jurema, uma árvore sagrada que contém um tipo de narcótico que facilita as visões. Enquanto as cunhãs mergulhavam, as outras mulheres ficavam nas margens do lago entoando cânticos rítmicos ao som dos mbaracás (chocalhos). Depois de “recebida” a argila das mãos da própria Muyrakitã, ela era modelada em discos com formato de animais, sendo deixado um pequeno orifício no centro. Em seguida, todas as mulheres realizavam encantamentos mágicos, invocando as bênçãos de Muyrakitã e Yacy sobre os amuletos, até que Guaracy, o Sol, nascia solidificando a argila com seus raios.

Esses amuletos, que ficaram conhecidos com o nome de muiraquitã, tinham cor verde, azul ou de azeitona e eram usados no pescoço ou na orelha esquerda das mulheres. Acreditava-se que eles conferiam proteção material e espiritual e que podiam ser utilizados para prever o futuro, nas noites de Lua Cheia. Após serem submersos na água do mesmo lago, os amuletos eram colocados na testa das cunhãs e com orações eram invocadas as bênçãos de Yacy e Muyrakitã.
No nível exotérico, profano, o muiraquitã é conhecido como um talismã zoomorfo, geralmente em forma de sapo, peixe, serpente, tartaruga ou de felinos, talhado em pedra (nefrite, esteatita, jadeíta ou quartzito), bem polido, ao qual se atribuíam poderes mágicos e curativos. Foram encontrados vários deles na área do baixo Amazonas, entre as bacias dos rios Trombetas e Tapajós, sendo chamados de “pedras verdes das Amazonas”.

Esta denominação folclórica pode ser uma confirmação do mito das Amazonas ou Ycamiabas, as “mulheres sem homens”, como foram chamadas pelo padre Carvajal, da expedição de Francisco de Orellana, em 1542. Os relatos míticos as descrevem como mulheres altas, belas, fortes e destemidas, longos cabelos negros trançados e tez clara, que andavam despidas e utilizavam com maestria o arco e a flecha para guerrear e caçar. Diz a lenda que elas escolhiam anualmente homens adequados para serem os pais de seus filhos, presenteando-os com muiraquitãs. Outras fontes afirmam que elas usavam ornamentos de pedras verdes esculpidos em forma de animais como objetos de troca com visitantes ou tribos vizinhas. Os missionários atribuíam aos índios tapajós a origem dos muiraquitãs, mas eles eram apenas seus portadores, não os fabricantes, exibindo-os como símbolos de poder ou riqueza, ou ainda como compensação na realização de ritos fúnebres, nas cerimônias de casamento ou para selar alianças e acordos de paz entre as tribos.

Ocultos em mitos, lendas e crenças, existem ainda muitos resquícios das antigas tradições e cultos indígenas. Descartando as sobreposições e distorções cristãs e literárias, poderemos resgatar a riqueza original das diversas e variadas apresentações da criadora ancestral brasileira, Mãe da Natureza e de tudo o que existe, que existiu e sempre existirá. Cabe aos estudiosos e pesquisadores atuais desvendar os tesouros históricos do passado indígena brasileiro, com isenção de ânimo e sem distorções, em uma sincera dedicação e lealdade à verdade original, para oferecer às nossas mentes as provas daquilo que os nossos corações femininos sempre souberam, ou seja, "que a Terra é a nossa Mãe e devemos cuidar dela”.  

Cada vez mais temos provas científicas desta verdade que existe nos nossos corações, ou seja, que nos tempos antigos os seres humanos veneravam e oravam para uma Criadora, guardiã dos portais da vida e da morte, cujos templos eram a própria Natureza e cujos nomes estão ocultos nas nossas memórias ancestrais. Por sermos seus filhos, somos todos nós irmãos de criação, interligados, conectados e responsáveis por fazermos parte da teia cósmica e telúrica da Sua Criação. Como Filhas da Grande Mãe brasileira, devemos lembrar e honrar que cada árvore, animal, pedra ou planta tem uma mãe, que existem guardiões da natureza que observam e julgam nossas ações e que a única maneira de garantir nossa sobrevivência é respeitar, cuidar e amar o solo sagrado sobre qual caminhamos, que nos alimenta e sustenta. Porém não devemos esquecer que a Mãe Natureza tem sua
Face Terrível e antes que ela a torne contra nós, precisamos mudar nossas ações e atitudes, curar as feridas que infligimos no corpo da Mãe Terra, expandir nossa consciência, refazer crenças, valores e propósitos e consagrar nossas vidas para deixar um melhor legado para nossos descendentes.
Que a Grande Mãe perdoe nossas faltas e erros e que nos ajude salvar a natureza e manter a paz sobre a Terra!
 
Versão em português do artigo em inglês publicado pela revista The Beltane Papers  #30 em fevereiro de 1998
 
Atualização do artigo  - A Grande Mãe brasileira - Mirella Faur/ Teia de Thea