segunda-feira, 22 de julho de 2013

Lilith, O Lado Escuro da Lua

 
Nova paLILITH, ARQUÉTIPO FEMININO PRIMORDIAL 


"Eu danço para mim mesma
pois sou completa;
digo o que penso e penso o que digo.
Eu danço a escuridão e a luz
o consciente e o inconsciente
Eu falo por mim mesma com total convicção
sem me importar com as aparências
Todas as partes de mim fluem como um todo.
Eu ouço o que preciso ouvir
nunca me verão pedir desculpas.
Eu vivo toda minha sexualidade
para agradar a mim mesma.
Expresso-a na totalidade da minha dança.
Eu sou a fêmea
sou sexual
sou o poder."


Na origem de todos os povos do mundo sempre existiu a tradição de um casal fundador da raça humana. A maioria são casais-deuses, exceto nas religiões patriarcais, como a cristã, onde um único Deus masculino formou todas as coisas e seres. Entretanto, ao estudar a espiritualidade hebraica, através da Kabala, nos é ensinado que o grande deus monoteísta não é do sexo masculino, mas é completo em si mesmo, o que existem são divisões de gênero, inclusive é uma insolência lhe dar aspecto humano, pois sua essência é luz pura. E desde quando luz tem sexo?
Mas como sabemos vivemos num mundo bipolar e é em decorrência deste motivo que nossa Divina Arquiteta teve a iluminada idéia de semear o amor no terreno fértil de nossos corações, para que pudéssemos andar lado a lado, sempre em casais e nunca sozinhos.
Ao se estudar Carl Jung descobriremos que dentro de cada homem há uma mulher (anima) e em cada mulher há o princípio masculino (animus).
Este eterno jogo de yin-yang se ajusta e se completa. Portanto, nenhum indivíduo é inteiramente masculino ou inteiramente feminino.
Cada um de nós é composto dos dois elementos e esses dois constituintes estão freqüentemente em conflito. O princípio feminino ou "Eros" é universalmente representado pela Lua e o princípio masculino ou "Logos" pelo Sol. O mito da criação no Gênesis afirma:
Deus criou duas luzes, a luz maior para reger o dia e a luz menor para reger a noite. O Sol como princípio masculino é o soberano do dia, da consciência, do trabalho e da realização, do entendimento e da discriminação conscientes, o Logos. A Lua, o princípio feminino é a soberana da noite, do inconsciente. É a deusa do amor, controladora das forças misteriosas que fogem à compreensão humana, atraindo os seres humanos irresistivelmente um para o outro, ou separando-os inexplicavelmente. Ela é o Eros, poderoso e fatídico e totalmente incompreensível.
Na natureza, o princípio feminino ou a deusa feminina mostra-se como uma força cega, fecunda, cruel, criativa, acariciadora e destruidora. É a fêmea das espécies mais mortal que o macho, feroz em seu amor como também com seu ódio. Esse é o princípio feminino na forma demoníaca. O medo quase universal que os homens têm de cair sob o domínio ou fascinação de uma mulher e a atração que esta mesma servidão têm para eles, são evidências de que o efeito que uma mulher produz num homem é, em geral realmente de caráter demoníaco. Essa imagem repousa tão somente, na natureza da própria "anima"do homem ou alma feminina, sua imagem interior do feminino. A "anima"' não é uma mulher, mas um espírito de natureza feminina, que reflete as características do lado demoníaco, tanto glorioso, como terrível.
Na vida cotidiana o homem não entra diretamente em contato com o princípio masculino duro, predatório, mas encontra-o sob a máscara humana, mediado pela sua função superior. Mas o feminino dentro dele não é mediado através de uma personalidade humana culta e desenvolvida. O princípio feminino, a Deusa Lua, age sobre ele diretamente do inconsciente, aproximando-se como um traidor que vem de dentro. Não é de admirar tanto medo e desconfiança!

LILITH, O LADO ESCURO DA LUA


Lilith foi originalmente a Rainha do Céu Sumeriana, uma deusa mais antiga que Inana. A Lua Negra, como também é conhecida, foi incorporada pelos hebreus, que a transformaram na primeira esposa de Adão e que foi criada diretamente por Deus. Ela recusou-se a deitar-se debaixo de Adão durante o ato sexual. Lilith insistia que, por terem sido criados iguais, eles deveriam fazer sexo de igual para igual. Como Adão não concordou, ela o deixou. Blasfemando e criando asas, Lilith abandona o paraíso e voa para o Mar Vermelho, onde dá início a uma dinastia de demônios. Mas Adão ao ficar, sente-se só e então Deus cria Eva, que foi retirada de uma das suas costelas, mas condenada eternamente à inferioridade. Cuidadosamente apagada da Bíblia cristã, Lilith permanece como símbolo de rebelião à repressão do feminino na psique e na sociedade. O mito Lilith mostra bem a passagem do matriarcado para o patriarcado.
Enquanto Lilith é descrita como forma negativa, Eva, ao contrário, é apresentada em suas belezas e ornamentos. Adão não a recusa por vê-la como ossos dos seus ossos.
"onde poderíamos ver uma condensação de duas experiências: a primeira - o conhecimento carnal - é censurada e removida; a segunda, ao contrário, exprime a aceitação da imagem "boa" externa, da companheira, aquela que é mais agradável ao Pai e à lei, mas que será também esta, inexorável fonte de pecado." (Sicuteri. 1987, p. 31)
Lilith desobedece à supremacia de Adão, Eva desobedeceria à proibição. Criada ao pôr do sol, Lilith é noturna, e por isso lhe foi atribuída a qualidade de vampiro. Lilith, ou as projeções do mito eram descritas em suas características eróticas, sensuais, mas quase sempre misturadas com características horrendas, partes animalescas, sobretudo nas extremidades.
A tradição de Lilith é a tradição da vingança desde a rejeição de Adão. O não de Adão, como já observamos, deveu-se não só ao caráter demoníaco de Lilith, mas também a exigência de igualdade na relação homem-mulher. Segundo Sicuteri: A serpente-demônio, ou o próprio demoníaco que existe em Lilith, impele a mulher a "fazer algo" que o homem não permite: em Lilith há o pedido da inversão das posições sexuais equivalentes aos papéis, enquanto em Eva há o ato de transgressão da árvore em obediência à serpente.
Lilith é o arquétipo da mulher indomada, que luta apaixonadamente pelo poder pessoal. Suas características são destemor, força, entusiasmo e individualismo. Ela é atividade e exuberância emocional.
Para as religiões patriarcais, é a personificação da luxúria feminina, uma inimiga das crianças que atua de noite, semeando o mal e a discórdia. Em Isaias 34:14, ela é chamada de "a coruja da noite".
No Zohar, é descrita como "a prostituta, a maligna, a falsa, a negra".
Lilith aparece em nossas vidas para nos dizer que é hora de assumirmos o nosso poder. Você tem medo de assumi-lo? Você é daquelas pessoas que não sabem dizer "não"? Tem medo de perder sua feminilidade se tiver o poder em suas mãos? Você teme ser afastada(o) ou banida(o) pelos outros quando estiver em exercício de seu poder?
Está com medo de fazer mau uso dele, dominando ou manipulando os outros? Lilith diz que, agora, para você, o caminho da totalidade está em reconhecer que não está ligada ao seu poder e, então, em segundo lugar, submeter-se e aceitar este poder.

RITUAL DE PODER - CERIMÔNIA DE CORTAR A CORDA 


Este ritual é excelente, eu já o realizei e consegui ativar poderes interiores por mim totalmente ignorados. Você deve realizá-lo de acordo com o ciclo lunar. O tempo certo para você colocar as cordas é um dia depois da entrada da LUA CHEIA (sempre à noite). Para cortá-las é no dia em que entra a LUA NOVA (sempre à noite). Cuide para não errar a lua, pois pode fazer muita diferença!
Para esta cerimônia você precisará de uma corda ou barbante, uma tesoura, um queimador de incenso e um caldeirão ou uma fogueira. O ritual pode ser feito a sós ou com um grupo de pessoas.
Deverá ter em mente três situações em que foi-lhe solicitado o uso de poder, mas você não conseguiu exercê-lo, por medo, insegurança, crenças ou qualquer outro motivo. Em seguida agende a data para colocar os cordões.

CERIMÔNIA

Você deve traçar um círculo (com pedras, sal ou o que achar melhor).
Abra os portais e peça gentilmente que seu animal de poder esteja presente. Quando estiver pronta(o) pegue a corda e corte do tamanho que corresponda ao lugar do corpo que pretende amarrá-la. Por
exemplo, se você está com algum bloqueio que a (o) está impedindo de caminhar com todo seu poder, você deve amarrar a corda em torno dos tornozelos. Se você estiver com problemas de expressão, deve amarrá-la na garganta. Se tem medo de que a sua sexualidade a(o) impeça de manifestar o seu poder, amarre a corda nos quadris. No momento em que estiver amarando a corda, afirme o significado dela. Durante os dias que separam a colocação e o corte das cordas, você deverá diariamente concentrar-se em cada uma delas e no que elas representam, olhando-as e sentindo-as ! junto à pele.
Na noite de cortar as cordas, peque o queimador de incensos e o caldeirão, fósforos e uma faca ou tesoura. Trace o círculo, acenda o incenso (pode ser de alecrim) e chame seu animal de poder. Você deve tocar selvagemente o tambor e gritar o significado das cordas. Se não quiser chamar a atenção dos vizinhos pode falar mentalmente. Sente-se em frente ao caldeirão e corte as cordas confirmando o significado de cada uma delas. Jogue-as dentro do caldeirão e queime-as. Sinta o fluxo do poder enquanto observa cada uma delas transformar-se em fumaça. Respire fundo e sinta sua nova noção de poder. Se você traçou um círculo, libere o que foi chamado para fazer parte dele com gratidão. Agradeça a Lilith por lhe apontar o caminho para o seu próprio poder.

  
 

Cathya Gaya

Ouça o Chamado

 
 
"Ouça-me bem querida,
Preste atenção ao som do meu Chamado,
À beira do abismo que divide os mundos.
Preste atenção ao som do meu Chamado,
No canto mais longínquo do seu coração.
Ouça-me bem, querida,
Falarei sempre límpida e claramente,
Como fazíamos há muito.
Pois veja, juntas sopramos a criação da Vida em cada canto do mundo.
Estávamos juntas quando elevamos os Céus, que os Índigos chamam de Casa,
E juntas nós estávamos quando desenhamos com rochas as Montanhas mais antigas.
Você se lembra?
Procure lembrar-se de quando brincávamos juntas, banhando-nos com as águas espumantes do Mar,
Navegando nas águas coloridas que escolhíamos para forrar o maravilhoso povo do Oceano.
Foi com o calor de nossos corações que forjamos o Espírito, quando criamos a luz da mais intensa Fogueira.
 
 
Ouça, querida.
Ouça-me bem.
Preste atenção ao som do meu Chamado
E perceba como estivemos juntas desde Sempre.
Sei que sente a falta dos meus braços, mas não sofra tanto, filha querida. Nunca estive distante de você.
Se me procura verdadeiramente, lembre-se de que sou a própria Vida e sou também a própria Morte.
Se deseja ouvir meu Canto, basta recolher-se ao som de seu ventre e perceberá que ele pulsa junto ao meu.
Se sonha em reencontrar-me no Amor, abra seu coração, querida, pois é nele que guardo a Pintura da Vida com todas as emoções que criei. Conheça o sabor das lágrimas e desfrute o que reservei na dor e no êxtase para você.
E, assim, conheça seu corpo, sinta o que dele se ensina, e aprenda a ouvir minha sabedoria dentro de cada célula que lhe presenteei.
Honre seu corpo como um altar, filha amada, pois ele é capaz de realizar o Sagrado,
E dentro do seu infinito ser que você possa desejar o mergulho profundo e o voo sublime, pois lhe dei caudas e asas para isso.
Feche seus olhos, querida filha, e voe para dentro. Abra sua visão e mergulhe no Universo da sua profunda essência.
Lá, a Lua será sua guia, e as estrelas que enviei serão suas companheiras de jornada. Preserve sua Gratidão e ofereça o Amor a todos os seres.
E saiba que a intuição que lhe concedo levará você ao meu encontro.
 
 
Venha, filha minha, ouça o meu Chamado. Ele está a sua espera. E com ele, a minha esperança em você, pois a águia que voa alto na floresta é sua irmã, assim como as cachoeiras que revelam o parto das montanhas.
Sua força de viver foi nutrida com o leite abençoado de mil lobas e seu corpo foi abençoado com o mel das bordadeiras da fertilidade.
Para sua Magia, cultivei a beleza e a sabedoria dos seres.
Honre seu povo, querida filha, pois você é fonte de paz e harmonia por onde caminhar.
Concedo a você a consciência de quem você é. E lhe Chamo.
Desperte, filha minha, e venha ao meu encontro, pois sou sua Mãe e desejo o seu Amor." -
Renata Navega

Prece ao coração da Mãe

 
 
Poderosa Grande Mãe, de todo amor e de toda bondade, eu te saúdo e te reverencio. Aos teus pés coloco meu coração e peço o teu amparo e a tua proteção. Unge a minha existência com o teu espírito e me transforma em um ser à tua imagem e semelhança.

Abre meus olhos e me faz vislumbrar a vida sem temores e ansiedades, e amplia a minha visão para que o horizonte das soluções de que preciso seja percebido com brevidade e adequado ao tamanho das tribulações. Aguça meus ouvidos para que não se confunda o meu entendimento e não se turve a minha compreensão. Cala minha boca diante dos impulsos de proferir palavras que ferem ou magoam, e que tudo o que eu disser seja para construir, socorrer e refletir a tua gentileza.

Estende meus braços na direção de cada ser vivo da tua natureza para eu acolher todos e nunca me negar ao préstimo generoso que ensinaste com o teu exemplo. Coloca a tua ternura em minhas mãos, e que elas sirvam para abençoar, plantar, nutrir, afagar e trabalhar segundo a tua vontade. Conduz minhas pernas e meus pés rumo ao destino do bem, da solidariedade, da misericórdia e da compaixão comigo e com os que estão em meu entorno no universo. Dirige meus passos e me mantém em segurança. Desvia-me das ilusões e das vaidades que possam me afastar do teu caminho sagrado.
Resguarda-me pela frente e pelas costas, pela esquerda e pela direita, acima e abaixo de mim, e livra-me das ameaças, riscos e perigos, e, ainda, das tentações. Põe a tua luz sobre a minha cabeça e ilumina meus pensamentos, e que nenhuma sombra de medo me torne esquiva da perseverança, do otimismo e da confiança.

Lava meu coração das tristezas que ele conheceu, das amarguras que acumulou, dos ressentimentos que guardou, e purifica-o com o perdão e o esquecimento. Acalma as minhas angústias e devolve-me a serenidade, o equilíbrio e a ponderação para eu transpor as dificuldades sem me perder nas sendas dos tormentos humanos. Aumenta a minha fé para eu reconhecer e acatar os teus transcendentes desígnios e para aceitar com resignação as lições que me entregas por meio da dor. Transmuta o meu sofrimento em aprendizado e eleva a minha paciência diante dos infortúnios para que a gratidão seja maior do que os lamentos de minha alma.

Orienta meu espírito na claridade do dia e na escuridão da noite, e sussurra em minha intuição o que devo fazer, desde o meu acordar até que eu adormeça no agasalho de teu ventre. Doutrina-me na humildade e no respeito, molda-me na tua devoção e funde-me em tua índole sublime. Sustenta-me em teu colo quando eu andar sozinha e carrega-me pela mão, de volta, se eu me afastar de ti e do que seja benéfico a mim e, também, aos outros. Liberta-me das opressões que abalam a minha tranquilidade e dos problemas que não sei resolver sem o teu auxílio, e inspira os meus gestos, decisões e comportamento. Renova a minha esperança, anima a minha vontade e fortalece a minha coragem para eu não desistir enquanto não se esgotar o manancial de forças que vêm de ti.
C
orrige as minhas imperfeições e cura-me dos erros que pratiquei para que a paz ocupe o lugar do arrependimento. Aperfeiçoa a obra incompleta que sou, desenvolve as minhas aptidões, melhora as virtudes que tenho e me instrui a repreender os meus defeitos. Fortifica a saúde do meu corpo físico, abastece-me de harmonia espiritual, estabilidade emocional, capacidade mental e de bons fluidos energéticos. Derrama as tuas bênçãos sobre o meu lar, sobre a minha família, sobre a irmandade universal, e que a chama do teu imenso amor se mantenha flamejante, espargindo o teu fulgor sobre todas as vidas e em todos os lugares.

Mãe e Senhora! Tu és o meu escudo e a minha guia, quem rege a minha jornada e me defende. Toma a minha vida em tua amorosa graça, onde eu estiver e em tudo o que fizer. Sê tu em mim a cada momento, e me dá permissão para ser uma ínfima demonstração da tua sagrada presença Eu Sou. Revela-te em mim para que eu seja, ao menos, uma centelha do teu divino amor, uma migalha da tua infinita sabedoria, uma faísca da tua magnífica e purificadora luz. Eu me consagro a ti e te ofereço tudo o que sou, tudo o que tenho, tudo o que faço e tudo o que construímos juntas. Que seja assim, agora e sempre!


(*) Veraluz - Grupo Bifrost. Crônica publicada no jornal A Razão (Santa Maria/RS)

Mãe, ouve o meu apelo!

 
Mãe, ouve o meu apelo! Toca o meu coração com o teu amor e acalma as dores que me tiram a paz. Serena o meu espírito com o sopro da tua compaixão para que as angústias se dissipem. Acolhe as preocupações que me desassossegam e me entrega a confiança de que haverás de me inspirar a melhor solução. Dá-me a virtude da fé se eu desacreditar da vida e me ensina a perseverança em lugar do desânimo. Sê o meu estímulo quando eu desencorajar e o meu ânimo, se eu fraquejar.
 
Não permitas, Mãe, que os problemas sejam maiores do que a capacidade que me deste para resolvê-los. Que nenhuma dificuldade exceda as forças do meu espírito. Que o mal não me alcance e a desventura não me vença. Que o desespero não me aconselhe e o medo não regre a minha conduta. Que os obstáculos não cancelem a minha alegria e que a tristeza se desfaça pelo contentamento de estar sob a tua guarda e proteção, sempre!
 
Não deixes, Mãe, que o temor domine a coragem, impedindo que avancem os meus propósitos e se realizem os sonhos que acalento. Que a minha vontade esteja em plena harmonia com a tua, para que a minha caminhada não se desvie dos teus planos. Faz-me compreender e aceitar os teus projetos para mim quando eles forem diferentes do que eu desejar, e que os teus sagrados desígnios se cumpram, não os meus profanos anseios.
 
Abençoa, Mãe, as minhas mãos com a habilidade realizadora do trabalho para produzir o meu sustento sem agredir a natureza. Abençoa os meus pés para que trilhem o caminho do bem e dele jamais se desviem, seguindo na tua luminosa direção, de volta ao teu aconchego ao fim dos meus dias sobre a terra. Abençoa o meu coração para que pulse em uníssono com o teu e esteja aberto a toda a irmandade universal. Abençoa os meus olhos para que eles se orientem pela verdade dos teus ensinamentos e assim sejam poupados de enganos e ilusões. Abençoa-me onde eu estiver, com quem estiver e no que fizer, como até aqui, hoje e por toda a minha vida.
 
Liberta-me, Mãe, da vaidade para que eu reconheça que todas as vitórias são dádivas com que me tu favoreces, que os triunfos são partilhas do amor que me ofereces, que as glórias que desfruto são dadas pela tua nobreza, não pela minha. Lembra-me, a cada instante, da humildade que aprecias e da bondade que te agrada, a fim de que eu não busque lauréis efêmeros, mas a graça de ser una contigo. E ainda que não possa comparar-me a ti, que eu não te perca como exemplo.
 
Perdoa, Mãe, as minhas fraquezas humanas e lapida-me, pelo teu ensinamento, para que me torne uma pessoa melhor do que sou. Releva a minha ignorância e mostra-me o rumo da sabedoria. Que eu não seja indiferente ao meu próximo como não desejo que me relegues ao esquecimento. Que todas as minhas ações contemplem o bem de todos e o bem do todo a que pertenço. Não me afastes dos teus cuidados e, se eu me distanciar de ti, resgata-me de novo ao teu colo, onde quero estar.
 
Faz, Mãe, com que minha alma seja cristalina, sem marcas de sofrimento nem mágoas do passado, e que ela seja livre para mais te amar e para amar todos os seres da divina criação. Desfaz os nós que possam aprisioná-la a lembranças que acendem ressentimentos e reavivem amarguras. Que minha alma seja leve como a brisa de uma manhã de primavera e que possa bailar entre experiências e aprendizados. Que o meu corpo, abrigo transitório do meu ser, seja tratado com desvelo, respeito e carinho, mantendo-o saudável e longe de qualquer perigo.
 
 
Vera Pinheiro
 

Ísis

Ísis, a Deusa dos Dez Mil Nomes
 
 
Ísis Toda Poderosa, a mais antiga dos antigos, amada pelos deuses e mortais, cuja beleza encanta e traz riqueza;
Deusa luminosa e poderosa, Tu és Aquela que iniciou a existência, que existiu desde o começo, de onde tudo e todos surgiram, que inicia o ano e rege o destino;
Mãe Divina, criadora e benfeitora, nutridora e regeneradora, Mãe Suprema e sem igual;
Luz celeste, chama ardente, Mãe do céu, da Terra e do Além; Senhora da Lua e das estrelas, da noite e da escuridão, da luz e do brilho solar;
 
Rainha do trono celeste, ventre primordial que criou todos os seres e todas as coisas;
Mãe da natureza, senhora do pão, dos grãos e das colheitas, portadora dos frutos e da boa sorte, controladora das estações, dos ventos e dos elementos;
Guardiã dos quadrantes do céu e da Terra, dos portais que levam para outros mundos que Tu abres no alvorecer e no crepúsculo;
Senhora da Magia, grande no céu, poderosa na Terra, que tem o conhecimento das palavras de poder e as usou para criar o universo;

Mãe dos vivos e dos mortos, senhora verde dos campos e colinas, soberana das pedras e das montanhas, dos lagos, rios e mares, Ísis Pelagia, Rainha do mar;
Estrela-Guia, invocada como Sothis ou Sirius, que protege navios e navegantes, caminhos e caminhantes, que conduz os ventos e as chuvas;
Senhora das canções, poemas e das danças, da alegria e do prazer;
Mestra que ensinou a agricultura, a fiação e a tecelagem, protetora e salvadora das mulheres, dos partos e das crianças;
 
Guardiã do casamento, soberana do amor, da sexualidade e da união sagrada;
Senhora velada da sabedoria e personificação do eterno princípio sagrado feminino;
Tu, que estabeleces as leis e ciclos naturais e sustentas a humanidade, pelo Teu poder os rios correm, as marés sobem e as estrelas dançam;

Tu, que és amor divino, vida, magia, mistério, Deusa: sendo uma, Tu és todas;
Gloriosa Ísis que mora no esplendor da luz e na quietude do silêncio;
Curadora dos corações feridos, cujo leite nutre e mitiga os sofrimentos do corpo e da alma;
Guerreira vitoriosa e invicta, protetora dos teus adeptos, que salva e ajuda aqueles que te amam, que encoraja a independência e a soberania das mulheres;

Mãe Suprema e sem igual, que inunda a Terra com esplendor e a ilumina com teu amor;
Senhora da verdade, que tudo sabe e tudo vê, que ama, nutre e protege suas filhas e filhos;
Gloriosa Deusa Ísis Pantheia, Au Set, Iset, Myrionymos, Deusa dos Mil Nomes, que é o início e o fim, o ontem e o amanhã, o dia e a noite, o Sol e a Lua, o acima e o abaixo;
para Ti colocaremos, no altar de nossos corações, pedras azuis esverdeadas, como a cor dos teus olhos; penas iridescentes, como as do teu manto; tua chave e a cruz sagrada; o mel e o leite para nossas libações.
 
Nós te reverenciamos, Mãe, no roçar das ondas, nos murmúrios dos riachos e no brilho das pedras molhadas pelo orvalho.
Nós te saudamos, no nascer do Sol e nas sombras silenciosas da noite, te procuramos no brilho das estrelas e nas faces mutantes da Lua, ouvimos tua voz na brisa suave do verão ou nos assobios dos ventos que trazem as chuvas, seguimos teu chamado para passarmos pelos portais da Terra.
Nós te invocamos, ó Mãe, para sustentar nossas almas e amparar o vôo dos nossos espíritos, oramos para que Tu nos defendas dos perigos e dos venenos com o poder dos teus amuletos sagrados, amarrando teus nós para fechar as brechas de nossa vulnerabilidade, curando com teu sagrado leite as feridas de nossos corações.

Nós te pedimos, Mãe, ajoelhadas perante teu trono de poder e luz, que nos cubra com tuas asas resplandecentes, que nos permita sermos conduzidas e iniciadas no teu Templo de Sabedoria, aprendendo “aquilo que é, foi e sempre será”, revelando para nossas mentes os Mistérios da Lua e da Terra, lembrando os ensinamentos antigos e aprendendo teus segredos para sermos mulheres amorosas, poderosas, gentis, leais, amigas sábias e dedicadas para ajudarmos a nós mesmas, aos outros e à própria Terra.
 
 
Mirella Faur - Teia de Thea

Graças à Mãe Divina

 
 
Graças Te dou, Mãe Divina, por tudo o que eu vivi!
Nos risos fartos por momentos felizes, o Teu contentamento ressoou em mim. Nas vitórias que alcancei, o Teu triunfo exultou em meu peito. Nas alegrias que experimentei, o Teu júbilo repercutiu nos meus sentidos. No sucesso dos empreendimentos, o Teu poder confirmou os meus avanços.
 
Nos sonhos que realizei, a Tua esperança me contagiou. Na perseverança que proveu minhas idéias, a Tua pertinácia me animou. Na ousadia das realizações, a Tua coragem me sustentou. Na fé que me robusteceu, o Teu caráter se manifestou. No enfrentamento de desafios, a Tua firmeza me fortaleceu.
Na bravura que me abasteceu, o Teu vigor me apoiou.
 
Nos desafios que encontrei, o Teu auxílio me resguardou. Nas escolhas que fiz, o Teu discernimento me orientou. Nas decisões que tomei, a Tua inspiração me norteou. No otimismo que cultivei, a Tua confiança me entusiasmou. Nas conquistas que obtive, a Tua persistência me impulsionou. Nos prazeres que me deleitaram, a Tua companhia me regozijou. Nas buscas a que me lancei, a Tua direção me encaminhou.
Nas lágrimas que derramei, o Teu colo me consolou. Nas dores que me contristaram, o Teu amor me vivificou. Nas expectativas que me frustraram, a Tua bondade me reconstituiu. Nas amarguras que conheci, o Teu afago me confortou. Nas desesperanças que me desolaram, a Tua resistência me firmou. Nos desgostos que atravessei, o Teu cuidado me reanimou. Nas tristezas que me corroeram, o Teu acolhimento me consolou.
 
Nos desapontamentos que vivenciei, a Tua constância me regenerou. Nos fracassos que amarguei, o Teu estímulo me recobrou. Na infelicidade por que passei, a Tua bênção me restaurou. Nas decepções que tive, o Teu abraço me acalmou. Nas dificuldades que enfrentei, a Tua segurança me alentou. Nas mágoas que suportei, o Teu carinho me aliviou. Nos desgostos que provei, a Tua energia me regenerou. Nos pesares que me atormentaram, o Teu afago me refez.
 
Nas angústias que padeci, a Tua paz me reergueu. Nos obstáculos com que me defrontei, a Tua sabedoria me governou. Nas tribulações que me desinquietaram, o Teu aconselhamento me serenou. Nas incompreensões que recebi, a Tua temperança me esclareceu. Nos conflitos que me embaraçaram, a Tua moderação me libertou. Nos desenganos que me visitaram, a Tua sinceridade me reabilitou. Nas desilusões que me machucaram, a Tua compaixão me curou.
 
Nas dúvidas que me importunaram, o Teu conhecimento me guiou. Nas contrariedades que me aborreceram, a Tua brandura me equilibrou. Nas raivas que me envenenaram, o Teu perdão me purificou. Nas ofensas que me golpearam, o Teu ensinamento me instruiu. Na solidão que me acompanhou, a Tua presença me escoltou. Nas carências que me afligiram, a Tua generosidade me preencheu.
 
Mãe Divina, no abandono és o meu asilo. Na ingratidão, o reconhecimento. No perigo, a proteção. No desamparo, o esteio. Nos tropeços, o amparo. Nas lutas, o escudo. Nos confrontos, a defesa. No silêncio, a voz. Na palavra, a lição. Nos passos, o desvelo. Nos riscos, o abrigo. Na escuridão, a luz. Nas necessidades, a providência. Nas demandas, a justiça. Na fraqueza, a força. Na rigidez, a flexibilidade. Nas incertezas, a convicção. Nas desventuras, a compreensão. Na crueldade, a misericórdia. No medo, o sossego. Na prisão das emoções, a liberdade do ser. No corpo, nutrição. Na mente, clareza. No espírito, aperfeiçoamento.
 
Tu, Grande Mãe, és o farnel para a minha jornada cotidiana. Não sinto frio, porque me agasalhas; não sinto calor, porque me refrigeras; não sinto fome, porque me alimentas; não sinto cansaço, porque repouso em Teu aconchego; não sinto sede, porque bebo na fonte sagrada da Tua magnitude.
 
Com meus joelhos dobrados diante de Ti, coloco tudo o que sou, tudo o que tenho, a inteireza do meu coração, meus pensamentos e atitudes, e todas as minhas relações sob Tua cautela, e posso adormecer segura de que a vida é um belíssimo presente que me concedes. Não importa o que me entregues, eu Te dou graças, porque estou em Tuas mãos e confio nos Teus propósitos, ainda que o meu entendimento esteja em construção. Bênçãos e graças, Mãe!

Vera Pinheiro  -  Veraluz - Grupo Bifrost

Nut

Nut, A Deusa Egípcia do Céu

 
 “Nut, minha divina mãe, estenda teus braços sobre mim, afastando as sombras e me protegendo enquanto brilharem no céu as imorredouras estrelas”. - Inscrição sobre um peitoral encontrado no túmulo de Tutankhamon junto à sua múmia.
 
 
“Eu sou Nut e vou abraçar e proteger aqueles que vierem a mim, afastando todos os males”. -  Texto inscrito sobre a tampa dos sarcófagos.
 
 
No começo dos tempos, quando nada ainda havia sido criado, existia somente uma massa aquosa que cobria o universo. O deus Khepera (o precursor de Ra, representado como um escaravelho e simbolizando o sol matutino) gerou-se a partir desta matéria primordial ao dizer seu próprio nome. Em seguida ele concebeu duas outras deidades, cuspindo-as de sua boca: o deus Shu, personificando o ar e a deusa Tefnut, simbolizando o orvalho. Ambos, por sua vez, geraram duas crianças gêmeas: Geb, o deus da terra, e Nut, deusa do céu. Com a criação das primeiras quatro divindades (Shu, Tefnut, Geb e Nut), estabeleceu-se o Cosmos. Geb e Nut deram à luz quatro crianças: Osíris e Ísis, Seth e Néftis cuja missão foi fazer a mediação entre os seres humanos e o Cosmos. Esses nove deuses compunham a enéade (palavra de origem grega designando um agrupamento de nove divindades, geralmente ligadas entre si por laços familiares) de Heliópolis, a mais importante congregação de deuses do panteão egípcio.

Existem várias versões do mito de criação egípcio e em todas Nut desempenha um papel importante. O mito que pertencia ao reino baixo do Egito afirmava que no começo dos tempos existia apenas o oceano, do qual apareceu de repente um ovo flutuando na sua superfície e do qual emergiu Ra, o deus solar. Ele gerou das suas secreções quatro filhos: os deuses Shu e Geb e as deusas Tefnut e Nut. Shu e Nut formaram a atmosfera, que pairava sobre Geb, a terra e Nut se elevou formando o céu, enquanto Ra era o governante supremo, regendo sobre o todo e todos. Geb e Nut tiveram dois filhos: Set e Osíris e duas filhas, Ísis e Néftis. Com o passar do tempo Ra envelheceu e cedeu seu lugar a Osíris, que passou a reger o mundo auxiliado por Ísis, sua irmã e esposa. Set odiava seu irmão Osíris e acabou matando-o; a partir deste evento, Osíris passou a personificar a bondade e Seth a maldade, estabelecendo assim os dois polos da moralidade. Ísis usou poderosas magias e ressuscitou Osíris, que se tornou “Senhor do Mundo Subterrâneo” e o rei dos mortos. O filho deles - Horus venceu Seth em uma grande batalha e assumiu o seu lugar como “Senhor da Terra”.

O mito do reino alto do Egito difere ligeiramente, descrevendo a existência de Nun, o oceano primordial, que continha em si os começos de tudo aquilo que poderia ser criado. Ra surgiu do oceano e gerou de forma partenogenética do seu esperma Shu (deus do ar) e Tefnut (a deusa da umidade); este casal gerou os gêmeos Nut, a deusa do céu e Geb, o deus da Terra. No universo físico assim criado, a humanidade surgiu das lágrimas de Ra. Geb e Nut nasceram abraçados, mas como Ra desaprovava este incesto, ordenou a Shu para se colocar entre eles, separando assim o céu da terra. Porém, eles permanecerem juntos, mesmo sem permissão, fazendo amor em um abraço ininterrupto. Ra enfurecido chamou Shu pedindo que os separasse em definitivo; Shu interveio e ergueu Nut para o alto segurando-a com seus braços e assim ela passou a ser a abóbada estrelada do céu, deixando Geb prostrado abaixo dela. Ra, sem saber que Nut estava grávida, a amaldiçoou para que ela não parisse em nenhum dia e em nenhum ano. Nut desesperada foi procurar ajuda com seu amigo Thoth, o deus da sabedoria, que também era filho de Ra. Thoth conseguiu achar um estratagema para contornar a maldição. Primeiro ele foi visitar Khonsu, o deus lunar e o desafiou para um jogo de damas; quanto mais o jogo durava, maiores eram as apostas. No final o vencedor foi Thoth e a aposta de Khonsu tinha sido uma quantidade de luz, suficiente para criar cinco dias adicionais. Thoth adicionou esses dias a mais no final do velho ano e no início do novo, dias estes que não faziam parte de nenhum dia e de nenhum ano. Graças à sabedoria de Thoth, a maldição de Ra foi anulada e Nut pariu seus filhos naqueles cinco dias antes inexistentes.

Em outra versão do mito Ra, o deus solar pediu a Nut para elevá-lo ao céu distante, tirando-o do mundo telúrico que ele detestava. Nut elevou Ra nas suas costas, mas ficou tonta com a altura e quase ia deixar Ra cair, se não fosse pelo suporte de quatro deuses que firmaram seus pés e Shu sustentou o arco do seu corpo. Estes deuses se tornaram os pilares celestes, Nut sendo o firmamento ao qual Ra prendeu as estrelas. O mito do deus solar Ra e da sua mãe Nut foi mais marcante e prolongado no baixo do Nilo, na região do delta, pois naquela latitude a visão da Via Láctea se assemelhava à imagem celeste de Nut com o seu corpo arqueado sobre a terra.
Os egípcios acreditavam que nos tempos pré-históricos o país tinha sido governado por deuses, que estavam fisicamente presentes. Algumas listas bem antigas de reis apresentam o terceiro faraó divino como tendo sido Geb. Rá e Shu governaram antes dele e Osíris, depois. O deus-terra teria defendido o direito de Hórus  de ocupar o trono quando da luta deste contra Seth e, por isso, era cultuado como divindade protetora do faraó, que era conhecido como o Herdeiro de Geb. Em homenagem à atuação de Geb como um grande rei e pela admiração que tinha alcançado como soberano, o trono do faraó era honrado como O Trono de Geb.

Nut, Nuit, Nith ou Neit representava o céu, simbolizado pelo seu corpo e nas suas imagens aparecia como uma mulher com pele negra, dourada ou azulada, com cabelos trançados e sua vestimenta ornada por estrelas. Outra imagem a representava como uma belíssima mulher nua, carregando uma vasilha com água sobre sua cabeça, uma alusão ao seu dom de verter a chuva sobre a terra e ao fato que das suas lágrimas teria nascido o rio Nilo.  Muitas vezes aparecia sob a forma de uma vaca (imagem comum a outras deusas) ou emergindo do tronco de uma árvore e oferecendo uma bandeja com água e pão aos falecidos. Nut representava a passagem das divindades pré-dinásticas - que expressavam os poderes divinos em forma de animais - para as divindades cosmogónicas.  Porém a sua imagem mais frequente era como abóbada celeste, o seu corpo alongado, coberto por estrelas, se estendendo sobre a terra, com a Lua sobre seu ventre enquanto a Via Láctea abrangia os seus seios. Era a representação mítica do abraço da deusa do céu sobre Geb sobre , o deus da Terra, uma metáfora do seu eterno amor e desejo pela união. O mito em que o céu e a terra são casados, e depois separados, existe como um tema universal em diversas culturas com uma larga gama de variações.
Do ponto de vista matrifocal, Nut é a toda-abrangente força feminina do oceano primordial, o fundamento da criação; ela guarda no seu corpo o Sol, a Lua e as estrelas como seus filhos transitórios e efêmeros, pois eles nascem e desaparecem com as marés do seu corpo. Do ponto de vista patriarcal - formulado pelos sacerdotes de Ra - o sol torna-se o foco, o ser primário que viaja no seu barco sobre o abismo aquoso do céu, descrito como o corpo da vaca celeste que o sustenta, mas não o gera. Assim Nut não é mais a mãe de Ra, mas sua neta, uma inversão do papel tradicional. As nuances avermelhadas do alvorecer não mais representam o sangue puerperal da mãe, mas o da serpente da escuridão, morta pelo Sol. No entanto, independente da forma como o Sol era descrito, Nut preserva seu papel central como o céu noturno, a mãe cuidadora dos mortos, que abraça e cuida das almas à espera do seu renascimento.

Vários mitos descrevem a trajetória do Sol no céu do leste ao oeste. De acordo com uma lenda egípcia, todas as noites, quando o Sol desaparecia no horizonte, Nut engolia o astro rei, que percorria o seu corpo durante a noite, descansando no seu ventre (“a gruta secreta”) e o dava à luz todas as manhãs como radiante disco solar. A manhã simbolizava a renovação de toda a criação, uma analogia com o rejuvenescimento e a ressureição dos mortos. As imagens do divino feminino reproduzem a experiência simultânea da união e separação. No pôr do sol no oeste, a Deusa é a mulher que recebe a semente de luz, que viaja pelo seu corpo e gera o deus no seu ventre. No leste, no alvorecer, a deusa é Mãe, que dá à luz seu filho e se separam depois. Quando a mãe se une ao pai (Nut com Geb ou Osíris e Ísis) os opostos se unem, a unidade abrange o Todo formado pela combinação da dualidade. O mistério do nascimento é um processo de fusão, gestação, união e individualização, tanto no macro como no microcosmo.
 
Nut era uma deusa celestial, mas seu culto era associado ao contexto funerário devido à sua conexão com o renascimento do Sol e com a crença egípcia na ressureição dos mortos. Acreditava-se que ela estendia a mão aos que tinham morrido, consolando-os e os colocando como estrelas para iluminar o seu corpo. Nas ilustrações nos tetos de vários túmulos e templos, no Vale dos Reis, o corpo de Nut - cujas extremidades simbolizavam os pontos cardeais - aparecia arqueado sobre a terra, abraçando o seu irmão e esposo Geb. Segundo os “Textos das Pirâmides”, a sua função era de "cobrir o corpo do deus", de tal modo que no interior das tampas dos sarcófagos e na parte interna da base, Nut era representada com uma imagem virada para baixo, a outra para cima, simbolizando a recepção dos defuntos com o seu abraço materno, cobrindo-os para sua proteção e auxiliando o seu renascimento.
Em todo o Egito foram encontradas imagens do corpo nu da Mãe Celeste, pintadas nos tetos dos templos e dos sarcófagos em azul anil ou decoradas com lápis lazuli. Às vezes seu corpo é dourado com estrelas brilhando sobre ele representando seus filhos, as almas dos mortos ou daqueles que ainda não nasceram. Outras imagens a mostram engolindo - na forma de um globo dourado - a semente do Sol morrendo ao anoitecer, que renasce do corpo materno no alvorecer do outro dia com a ajuda de Khepera, o escaravelho dourado. A celebração do nascimento do deus solar honrava também a Grande Mãe como “Vaca Celeste”, de cujas tetas nascia a Via Láctea.
 
Geb desempenhava um papel de destaque na mitologia egípcia e era citado em vários textos como Seb, Keb, Kebb, Qeb ou Gebb, sendo originário de uma linhagem antiga de deuses e representando a terra. Era descrito como um homem barbudo, sua cabeça sustentando um ganso ou uma coroa branca com adornos, conhecida por “Coroa Ritual” (atef). Também podia ser retratado simplesmente como um ganso, palavra cuja grafia em egípcio também era geb, esta ave sendo seu símbolo, seu animal sagrado e que fazia parte da grafia de seu nome em hieróglifos. Por essa associação com o ganso ele é denominado o “Grande Cacarejador” e sua filha Ísis às vezes recebia o epíteto de ”Ovo do Ganso”. Geralmente aparecia como um homem com a pele verde ou preta, a cor das coisas vivas, da vegetação e do lodo fértil do Nilo, respectivamente. Frequentemente era desenhado deitado de lado sobre a terra, apoiado sobre seu cotovelo ou com os joelhos dobrados e elevados tocando o céu, com plantas brotando de seu corpo. Nesta imagem dizia-se que Geb representava os vales e colinas do país, enquanto o pai Shu segurava o corpo de Nut com seus braços elevados, da mesma forma que o ar segurava o céu. Este posicionamento tem uma grande importância mítica, pois quando Shu elevou Nut (o céu) acima de Geb (a terra) ele colocou um fim ao caos; se ele deixasse de segurar Nut, o mundo voltaria ao caos primordial. A terra era chamada de A Casa de Geb, assim como o ar era chamado de A Casa de Shu, e o céu A Casa de Nut. Outra crença era a de que ele era a divindade supridora dos minerais e das pedras preciosas e, por isso, também era o deus das minas. Em síntese, era um deus provedor de tudo: pedras, alimentos e plantas que cresciam às margens do Nilo.

A cidade de Heliópolis, situada poucos quilômetros a nordeste do atual Cairo, era tida como o local do nascimento dos nove deuses e onde realmente se iniciou a obra da criação do mundo. Diversos papiros ilustram o primeiro ato da criação ocorrido quando o deus-Sol apareceu no céu pela primeira vez e iluminou a terra com seus raios. Em uma ilustração de um papiro do Livro dos Mortos datado da XXI dinastia (c. 1070 a 945 a.C.) Geb aparece deitado sobre o solo com o pênis ereto, como se tentasse manter relações sexuais com Nut - para enfatizar sua característica de deus da fertilidade -, com uma das mãos voltadas para o chão e a outra estendida em direção ao céu. Um dos joelhos geralmente está flexionado, bem como um dos cotovelos, simbolizando as montanhas e vales da terra.
As montanhas eram consideradas como sendo seus ossos, ou o resultado dos seus esforços infrutíferos de unir-se à deusa Nut..

Em hinos e outras composições o deus Geb é denominado de erpa, ou seja, pai ou chefe hereditário dos deuses, numa alusão aos seus quatro filhos. Originalmente deus da terra e da fertilidade, mais tarde Geb passou a ser uma divindade dos mortos, já que é no seio da terra que os mortos são depositados. Nesse sentido ele desempenha papel muito importante no Livro dos mortos onde aparece como um dos deuses que assistem à pesagem do coração do defunto no “Saguão das Duas Verdades”. As pessoas com integridade moral, conhecedoras das palavras mágicas necessárias, eram capazes de se evadir da terra e Geb as guiava para o céu, dando-lhes alimento e bebida. Os maus, entretanto, seriam presas fáceis de Geb, que os aprisionava em seu próprio corpo — a terra. Na tampa dos ataúdes, Geb era representado embaixo e Nut acima, de maneira que o defunto ficava contido entre as duas divindades.
 
Geb tornou-se um rei poderoso e ganhou o título exclusivo de Herdeiro dos Deuses. Não existia um distrito ou cidade dedicada especificamente a essa divindade, nem se sabia em que localidade ela foi cultuada pela primeira vez. Sabe-se, entretanto, que uma extensão do templo em Apolinópolis Magna foi dedicada a esse deus e que um dos nomes da cidade de Dendera era a Casa dos filhos de Geb. Mas o seu principal centro de culto parece ter sido Heliópolis, onde ele e sua esposa Nut produziram o “Grande Ovo” do qual se originou o deus-Sol na forma de um pássaro conhecido pelos egípcios como Ave Benu e pelos gregos como Fênix.  O ovo sempre foi, para os antigos egípcios, um símbolo de renovação, simbolismo que até hoje persiste por ocasião da celebração do Sabbat celta Ostara e da páscoa cristã.

Com o passar do tempo a influência de Nut cresceu e ela passou a personificar não somente o céu diurno, mas o firmamento inteiro e tudo o que era contido entre o nascer e o pôr do sol. Como deusa do período histórico mais recente do Egito, Nut absorveu uma variedade dos atributos das deusas mais antigas, incluindo os da deusa Hathor, quando era representada por uma belíssima mulher, com o disco solar adornando sua cabeça. Invocada como “A Grande protetora, O horizonte infinito ou A
Mãe dos deuses”, Nut era festejada no “Festival das Luzes”; nos seus inúmeros templos serviam apenas mulheres, que cuidavam dos seus altares e rituais, na esperança de que após sua morte iam brilhar como “estrelas no corpo da Deusa celeste”. Mesmo com a diminuição do poder divino feminino nas dinastias mais recentes, Nut continuou a ser reverenciada, principalmente devido à sua importância nos ritos funerários e nas representações das tampas dos sarcófagos, tanto dos reis, quanto das pessoas humildes, assegurando assim a sua proteção após a morte e a certeza do renascimento.
 
“Grande Deusa, Tu que te tornaste céu, Tu és poderosa e forte, bela e bondosa e a própria Terra se prosterna aos Teus pés. Tu abranges toda a criação nos Teus reluzentes braços e recebes as almas, tornando-as estrelas que embelezam a vastidão do Teu corpo”.


Mirella Faur - Teia de Thea

A senhora da Roda de Prata

 “Tu, que perambulas por muitos lugares sagrados e és reverenciada com diferentes rituais;
Tu, cuja luz suave clareia o caminho dos viajantes e nutre as sementes escondidas sob a terra;
Tu, que controlas o caminho do Sol e até mesmo a intensidade dos seus raios
eu Te imploro,
chamando todos os Teus nomes e todos os Teus aspectos
eu Te invoco
com todas as cerimônias que Te foram dedicadas,
venha a mim e me traga repouso e paz”
Apuleio, "O Asno Dourado

 
Para nossa mentalidade atual, baseada em valores solares, pode parecer estranha a afirmação do escritor romano Apuleio (século I) sobre o controle exercido pela Lua na trajetória e intensidade dos raios do Sol.

No entanto, se voltarmos para o início da história da humanidade, podemos constatar a maior relevância simbólica e mitológica da Lua, bem como a antiguidade dos cultos lunares em relação aos valores e cultos solares. Na Caldéia, os astrólogos ignoravam o Sol e fundamentaram seu sistema nos movimentos da Lua. Até hoje, na astrologia védica, o peso da interpretação recai sobre o signo lunar natal, os meses são denominados “mansões lunares” e caracterizados pela posição da Lua cheia na respectiva mansão.

Os cultos lunares se originaram no paleolítico e os primeiros calendários conhecidos foram os lunares, baseados no ciclo menstrual da mulher. O mais antigo calendário astrológico conhecido foi criado pelos babilônios e chamava-se “As casas da Lua”, estabelecido a partir do ciclo de lunação, com seus períodos mensais representados pelos signos zodiacais. A principal deusa lunar da Babilônia era Ishtar, cujo cinturão era enfeitado com representações e símbolos do zodíaco.
Inúmeros artefatos neolíticos talhados em pedra, chifre e osso, encontrados em grutas espalhadas por vários países na Europa e Ásia têm inscrições agrupadas em séries alternadas de 28 a 30 traços, demonstrando o antigo conhecimento astronômico dos ciclos lunares. Atualmente está sendo cada vez mais divulgado e utilizado o calendário lunar do povo maia, com base no ciclo das treze lunações que formam um ciclo solar.

Desde os mais remotos tempos, a Lua foi reverenciada como a manifestação da Grande Mãe Universal, o aspecto feminino da Divindade, a fonte criadora e mantenedora da vida, cuja luz e bênção eram invocadas nos rituais de fertilidade, no plantio das sementes e no parto das crianças. Suas fases passaram a simbolizar o próprio ciclo da geração, nascimento, crescimento, mas também o amadurecimento, decadência e morte. As suas faces clara e escura foram consideradas os aspectos doadores da vida e destruidores da natureza – a Mãe sendo tanto a Criadora como a Ceifadora.

A Lua foi venerada sob inúmeros nomes nas várias tradições e culturas antigas. Apesar dessa diversidade, existe uma similitude em relação aos seus atributos de acordo com suas fases. A Lua crescente representava a vitalidade da Deusa jovem, o frescor da Donzela, o potencial do crescimento, o início das realizações. Tornando-se cheia, a Lua personifica o ventre grávido da Mãe, o florescimento e abundância da natureza, a concretização das possibilidades. Ao minguar, a Lua assume o aspecto de Anciã, assinalando o fim da colheita, o declínio das energias, a sábia preparação para conhecer os mistérios da morte e do renascimento.
Dificilmente se encontra nas várias mitologias uma única deusa que sintetize a inteira gama do simbolismo lunar. Nos panteões grego e celta, existem inúmeras deusas lunares com características específicas relacionadas aos atributos das fases e representando os arquétipos da Donzela, da Mãe e da Anciã.

Uma Deusa celta pouco conhecida é Arianrhod, descrita na coletânea de textos galeses “Mabinogion” como “A Senhora da Roda de Prata”. Vivendo na longínqua terra encantada de Caer Sidi, ela personificava uma antiga Deusa Mãe celeste, regente da constelação estelar Corona Borealis, cujo nome em galês era “Caer Arianrhod” , ou seja, “O castelo girante de Arianrhod”.

O mito de Arianrhod é muito complexo, com elementos contraditórios e de difícil compreensão, denotando as deturpações decorrentes da interpretação das antigas lendas da tradição oral dos bardos, pelos monges e historiadores cristãos. Há, no entanto, uma passagem muito interessante que descreve de forma metafórica e pitoresca uma mescla de atributos da Deusa como Donzela e Mãe escura. Filha da deusa da terra Don, Arianrhod foi chamada pelo Deus celeste Math para ser sua acompanhante (na verdade, seu dever era segurar os pés do Deus no seu colo enquanto ele descansava). A condição essencial deste encargo era a virgindade da candidata.

Mas, ao ser testada pelo bastão mágico de Math, Arianrhod de repente deu a luz a gêmeos – um, bem formado, Dylan, que se foi arrastando para o mar (onde se transformou depois em um deus marinho), e outro, ainda em estado embrionário. Arianrhod desapareceu, mas antes amaldiçoou este filho para que ele não tivesse jamais um nome, não pudesse usar armas e nem casar. Na cultura celta, era a mãe que dava o nome e abençoava seu filho nestes rituais de passagem. No presente mito, a criança foi adotada pelo irmão de Arianrhod, o mago Gwydion, que, no devido tempo, conseguiu ludibriar Arianrhod e, usando recursos mágicos, a convenceu a dar um nome a seu filho e permitir-lhe usar armas. O nome Llew Llaw Gyffes, “o brilhante, luminoso e habilidoso”, era o mesmo nome de um famoso herói celta Lugh, personificação de um antigo deus solar. Comprova-se, assim, por metáforas e intrincados simbolismos celtas, a antiguidade das divindades e cultos lunares, a Lua representando as tradições matrifocais da Deusa que deram origem aos cultos e mitos solares posteriores.

Na Ásia - Ocidental e Menor - durante séculos foram reverenciadas inúmeras Deusas Mãe, algumas delas com características lunares. Na Suméria e na Babilônia, a Deusa Anath, Anunith ou Antu era conhecida como a “Senhora da Lua, do Céu e das Montanhas”, representada por um disco prateado com oito raios. Assim como Arianrhod, ela reunia as qualidades da Donzela – regendo o plantio das sementes e o crescimento dos brotos e da Mãe – quando desce para o mundo subterrâneo para resgatar seu filho/consorte da escura morada de Mot, o deus da morte, e regenera a terra seca com a chuva fertilizadora. Posteriormente, os atributos de Anath foram absorvidos no mito e no culto de outras deusas, como Ashtar, Astarte e Asherah.

Mirella Faur  -  Teia de Thea

Kali

Kali, a Negra Mãe do Tempo

Por ti Devi, este universo é gerado e nosso mundo criado
Por ti Devi, ele é protegido e no fim do tempo consumido
Pois tu és a força criadora, o escudo protetor e o poder destruidor
Que segue a inexorável passagem do tempo.
Devi Mahatmya

 
Kali Ma, a deusa ancestral hindu é venerada na Índia como um arquétipo de Devi, a Grande Mãe, de quem tudo se origina e para quem todos devem retornar. Apesar de Kali ser na verdade uma deusa Tríplice: da criação, preservação e destruição, é este seu ultimo aspecto que é mais conhecido e – para nós ocidentais – o mais difícil de compreender e aceitar, por parecer primitivo e atemorizador. Representada como uma Deusa negra, nua, com os dentes à mostra e a língua de fora, adornada por uma guirlanda de caveiras e dançando vitoriosa sobre o cadáver de Shiva, o seu consorte, Kali desafia a imagem estereotipada da Mãe Divina bondosa e amorosa e desperta nossos medos atávicos da morte e do desconhecido.

No entanto, se procurarmos conhecer seus símbolos, ultrapassando a dicotomia conceitual do bem e do mal, poderemos paulatinamente perceber toda a beleza, plenitude e grandiosidade de Kali como sendo a própria Mãe do Tempo, cuja eterna dança entre a vida e a morte nos leva da destruição para a regeneração. Uma vez compreendida sua força e seu poder transformador, Kali nos oferecerá a libertação de todos os medos – inclusive perante a morte –, livrando-nos assim dos apegos, das fantasias e das ilusões.

Observar e acatar a impermanência da vida significa aprender a difícil lição do desapego e da renúncia. A entrega é difícil, presos como estamos nas teias das ilusões, nas amarras dos apegos, na trama das compensações, que nos fazem cair novamente nas armadilhas das sensações. Acreditamos que não podemos – e nem sabemos – como renunciar, nos desapegar, mudar, deixar ir, fluir, pois para renascer, primeiro precisamos morrer. Morrer para que o velho ego dê lugar para um novo Eu, descobrindo assim a nossa verdadeira identidade e assumindo a responsabilidade pelas conseqüências das nossas ações. Como estamos vivendo na ”era de Kali” (segundo a cosmologia hindu) é do seu poder que necessitamos para dançar a dança da transformação – nossa e do mundo ao nosso redor.
Para as mulheres modernas, Kali oferece um arquétipo poderoso para despertar a sua combatividade, aprender a delimitar e defender seus espaços, lutar por seus anseios e objetivos e vencer os demônios dos medos. Reconhecendo a sombra da Mãe Terrível – em si e nos outros – elas também vão saber quando precisam usar a espada da destruição ou o lótus da compaixão.

Descobrir, aceitar, liberar e transmutar a raiva, admitir e libertar-se dos medos e das culpas, identificar e rasgar os véus das ilusões, são etapas necessárias para encarar as sombras, ultrapassar as limitações, trocar de pele e assumir o verdadeiro poder. Não o poder sobre os outros, mas o poder interior que mobiliza a vontade, quebra a inércia e liberta dos grilhões. Somente assim a mulher renascerá para uma nova compreensão e vivência do Sagrado em si, nos outros, na vida e no eterno feminino.

Meditando a respeito da sua feroz apresentação, descobriremos que a sua cor preta evoca o mistério do útero cósmico primordial e do silêncio regenerador da terra. Sua nudez revela a beleza e a singeleza da verdade. Nas mãos ela segura a espada da sabedoria que destrói as ilusões, a tesoura que corta os apegos e as dependências, a cabeça decapitada que recomenda libertar-se do controle pela mente racional e os jogos egóicos, o lótus que promete a expansão da consciência e a realização espiritual. A guirlanda de caveiras é formada pelo colar das existências passadas, amarradas pelo cordão umbilical dos nascimentos futuros. Dançando freneticamente sobre o corpo morto do seu consorte, Kali o reanima, transformando o cadáver (Shava em sânscrito) em Shiva – o deus da dança e do poder fertilizador. As serpentes que envolvem seus braços simbolizam a força transformadora de Shakti, o princípio feminino da sexualidade e da vida, transmitido ao Shiva pela dança de Kali.

Aceitando a idéia da necessidade do processo de destruição para limpar o velho e abrir espaço para o novo, é fácil compreender os amplos atributos de Kali, seja como uma deusa guerreira que usa suas armas com coragem e sem pena, seja como uma deusa mãe criadora e preservadora da vida, bem como a negra ceifadora que acompanha o eterno e imutável processo de decadência, decomposição e regeneração.

Dependerá do seu momento e da sua prioridade conectar se e invocar um destes aspectos, com pleno conhecimento dos seus atributos, bem como tendo a plena consciência da responsabilidade da escolha e das conseqüências do seu pedido. Lembre-se que “às vezes é melhor não pedir do que pedir demais” e que “um presente requer sempre uma retribuição”. Portanto, cuidado com que pedir, pois poderá por Kali ser atendida!


Mirella Faur - Teia de Thea

Pacha Mama

 

Pacha Mama, Mama Pacha

"Somos seus filhos, Mãe, ouça nossa prece, Mãe,
Nós que viemos para este mundo, Mãe, pelo teu útero, Mãe,
Hoje nós lutamos e destruímos você
Por favor, Mãe, queremos viver em harmonia
Ajude-nos a compreender e cuidar de você
Por favor, Mãe, ajude-nos a viver em harmonia
Ouça nossa prece, Pacha Mama
Ajude-nos a aprender como agradecer e amar você."
(Canto para Pacha Mama)

 
Para os povos nativos, conceitos atuais como “respeitar a Mãe Terra” ou “honrar todos os seres da criação” eram verdades milenares que constituíam a base de suas tradições religiosas. Conhecida e reverenciada por inúmeros nomes, conforme o local de seu culto, a Terra sempre foi nossa Mãe – no entanto, nem sempre amada ou honrada.
Sem precisarem de sofisticadas teorias ecológicas, os povos andinos nunca deixaram de amar e reverenciar Pacha Mama, a provedora de todos os alimentos, nutridora e protetora de seus filhos. A agricultura existia nos Andes desde o século 3 a.C. e incluía avançadas técnicas de irrigação, de seleção e de adaptação de diversas espécies vegetais, em função dos fatores geográficos e climáticos. A religião praticada pelas tribos andinas, antes de sua conquista pelos incas, refletia, de forma singela, sua permanente observação e conexão com as forças da Natureza e os ciclos das estações.

Os elementos naturais (Sol, Lua, estrelas, vento, nuvem, chuva, arco-íris, relâmpago, terra, água, montanha) eram divinizados e reverenciados com cerimônias e oferendas. Até o século XIII, quando os incas conquistaram e dominaram as tribos esparsas, impondo sua hierarquia social e religiosa e introduzindo os bárbaros sacrifícios humanos (de prisioneiros, crianças e virgens), as oferendas dos camponeses eram simples, assim como seu modo de viver. Oferecia-se milho: em grão, farinha ou
fermentado como bebida (chicha), raízes, frutas, folhas de coca, fumo e sangue de lhama.

Diariamente, as famílias colocavam um pouco de sua comida no chão, agradecendo a Pacha Mama por ela. No plantio ou na colheita, as mulheres salpicavam fubá sobre a terra e falavam suavemente com Pacha Mama, pedindo ou agradecendo a fartura da colheita.
Era importante lembrar e agradecer sempre à Pacha Mama, para que ela não se zangasse e assumisse seu aspecto de dragão, que sacudia a terra e provocava terremotos, enchentes, geadas ou secas. Os viajantes deixavam oferendas nas encruzilhadas antes de iniciarem suas caminhadas, também se pedindo a proteção de Pacha Mama antes de subir uma montanha, de forma a evitar o mal de alturas ou a queda nos precipícios (castigos que ela infligia àqueles que a desrespeitavam ou ofendiam suas criaturas).

Até hoje, nos lugares mais isolados da Bolívia, Peru e Equador, são realizados rituais e oferendas tradicionais para agradecer a Pacha Mama pela saúde, trabalho, bens e prosperidade. Acredita-se que Pacha Mama também tem fome e que precisa ser alimentada antes de lhe ser pedido qualquer favor. As oferendas, às vezes, são queimadas, junto com resina de copal, para que a fumaça leve as orações para todos os cantos da terra.
No mês de abril celebra-se o Dia Internacional da Terra. Nada melhor para marcar essa data do que realizar um ritual pessoal ou coletivo de gratidão para a Terra, que é nossa eterna Mãe.

Mirella Faur - Teia de Thea