domingo, 21 de julho de 2013

Frigga

Frigga, “a amada”, Deusa nórdica Protetora das Mulheres
 
No limiar dos mundos, no palácio Fensalir cercado por pântanos e escondido pela névoa, a deusa Frigga fica sentada no seu trono de cristal e fia com seu fuso estelar os fios multicoloridos do destino. Rainha Mãe das divindades Aesir, Frigga é a deusa que conhece os desígnios de todos os seres, mas guarda silêncio, sem revelar o futuro ou fazer profecias. Rainha Celeste e consorte do deus Odin, Frigga, no entanto, passa mais tempo no seu palácio, onde vive cercada por uma constelação de doze acompanhantes, que personificam aspectos e atribuições divinos, cada uma tendo funções variadas.

São elas: Saga, a sábia contadora de histórias e detentora das memórias ancestrais; Eir, a curadora hábil no uso de ervas e raízes; Fulla, guardiã dos mistérios, riquezas e dons ocultos, confidente e conselheira das mulheres; Gna, a mensageira que traz os pedidos humanos e espalha as bênçãos da Deusa; Syn, guardiã dos limites, portais e de tudo que precisa ficar escondido ou fechado; Hlin, defensora e protetora das mulheres injustiçadas ou perseguidas; Gefjon, padroeira das mulheres solteiras e doadora da abundância como fruto do trabalho; Sjofn, abre os corações para o amor e a afeição; Lofn abençoa as uniões com permissão, proteção e paz; Var é a testemunha dos juramentos, que pune os transgressores e zela pela integridade moral e espiritual; Vor guia a intuição, aprofunda a compreensão e a expansão da consciência; Snotra ensina a conduta certa, reforça os elos grupais e as qualidades de gentileza, honra e parceria.
Protetora das mulheres, Frigga as conduz no aprendizado dos Mistérios do Sangue e nos ritos de passagem ao longo das suas vidas. Como Grande Tecelã, Ela fia a energia cósmica e entrega os fios para as Nornes, as Senhoras do Destino, que são as responsáveis por tecer a intrincada e complexa tessitura do destino universal.

Na cosmologia nórdica existem dois conceitos representando o destino, chamados orlög e wyrd. Orlög refere-se aos fatores que não podem ser mudados como: raça e país de origem, ancestralidade, família, genética, potencial inato, perfil astrológico, ações e eventos passados da trajetória individual, familiar e grupal e suas implicações na vida presente. Orlög é a base do destino e do próprio mundo e está além do nosso alcance, por ser imutável. Podemos imaginá-lo como uma urdidura (ou trama) de fios, fixada no tear cósmico, através dos quais move-se a laçadeira que conduz os fios móveis do wyrd. Diferente do orlög, o wyrd é mutável por ser constituído por nossas ações, atitudes e escolhas atuais, cujas conseqüências irão se refletir no futuro.

Podemos mudar a cor dos fios do wyrd, a velocidade com qual se move a laçadeira e a padronagem da tessitura, porém jamais poderemos alterar a trama básica do orlög, que reina absoluto na atuação das leis do destino. Tanto o orlög quanto o wyrd formam a teia da nossa vida, tecida pelas Nornes, que ficam sentadas sob as raízes de Yggdrasil, a Árvore do Mundo, e monitoram a vida dos deuses e dos seres humanos. Tudo está subordinado às leis das Nornes, nem mesmo as divindades escapam das leis eternas e inexoráveis.
Frigga é a única deusa que compartilha da sabedoria das Nornes, pois Ela percebe e compreende a diversidade das modulações da tessitura cósmica, mas não revela esse conhecimento. Sem poder mudar o orlög, Frigga, no entanto, pode tecer encantamentos de proteção para aqueles que Ela ama e protege, como as mulheres, em especial as gestantes e parturientes, os recém nascidos e os casais que desejam ter filhos.

Frigga se apresenta como uma mulher madura e majestosa, com os cabelos da cor das folhas de outono, trançados e presos em forma de coroa com faiscantes pedras preciosas lapidadas como estrelas. Suas vestes são simples, mas sempre usa um colar de âmbar e um cinto dourado com várias chaves penduradas. Às vezes porta um manto de penas (de cisne ou falcão) representando seu dom de metamorfose para sobrevoar os nove mundos do cosmos nórdico.
Frigga detém o poder sobre os elementos e os seus reinos, mas a sua atribuição principal é como protetora do lar e da lareira, empenhando-se em criar e manter a harmonia e a paz familiar e grupal. Por ser Ela mesma uma esposa leal e mãe amorosa, cria laços afetivos - com os fios por Ela tecidos - entre homens e mulheres, mães e filhos, deuses e humanos, conectando também os tempos, com a lembrança do passado, a vivência plena no presente e a necessária sabedoria e prudência no futuro.

A melhor maneira para pedir ajuda para a deusa Frigga é sentir o desejo sincero de harmonizar e apaziguar sua família e o seu lar. A energia do nosso ambiente doméstico permeia todos os aspectos da nossa vida e nos afeta de forma sutil ou intensa. Nosso lar deve ser nosso santuário, um oásis de tranqüilidade e bem estar, onde podemos nos refugiar e refazer do desgaste cotidiano, despindo nossas armaduras, descartando máscaras e abrindo nossos corações para receber e dar amor.

Cada vez que sentirmos energias negativas invadindo nosso lar e criando discórdias e desassossego, podemos criar um pequeno ritual reunindo nossos familiares ao redor da mesa de jantar, acendendo uma vela no centro cercada de frutas secas e frescas, sementes e flores. Após uma curta oração para a Mãe Divina (arquétipo fácil de compreender e aceitar por todos) pediremos que cada pessoa possa fazer uma avaliação em relação a um fato doloroso do passado, dele se desligando e perdoando, comendo depois uma fruta seca e agradecendo pela cura e transmutação. Logo após se agradecem as dádivas do presente - incluindo a família e o lar - comendo uma fruta fresca. Em seguida faz-se uma invocação e um pedido relacionado com um projeto futuro, mastigando devagar três sementes e mentalizando sua realização.

No final todos fazem um brinde com suco de maçã agradecendo as futuras conquistas e de mãos dadas, cada um expressa seu compromisso pessoal para contribuir à sua maneira na manutenção da harmonia familiar. Quem quiser, poderá acender uma vela e caminhar ao redor da casa no sentido horário, visualizando a luz divina clareando as sombras e afastando a negatividade, interna e externa. A seguir as velas serão colocadas perto da lareira ou do fogão e deixadas para queimar até o fim. A mulher que invocou a ajuda da Deusa para sua casa, permanecerá algum tempo em introspecção e oração visualizando as vibrações de harmonia, paz, alegria e proteção preenchendo seu lar e agradecerá as bênçãos recebidas da amada Mãe Divina Frigga.
 

Danu

Danu, a Grande Mãe Irlandesa

 
“No início havia o Vazio, a vastidão do Nada,
a supremacia da criatividade não-diferenciada
Do vazio nasceu o Caos,
Da união entre o vazio e o caos originou-se Ana,
a Grande Sonhadora, Criadora e Tecelã dos mundos,
em cujo ventre fértil resplandeciam estrelas e planetas.
Da união entre Sonho e o nosso Sol foram criados
a Mãe Terra, o Pai Céu e o oceano, os ancestrais primevos.
Do encontro entre o céu e a Terra surgiram os Seres Brilhantes,
os Dakinis e os Dakas que trouxeram a luz ao mundo.
E do ventre de Ana, tocado pela luz das Plêiades,
nasceram os Tuatha de Danann,
o povo da deusa Danu.”
Kathy Jones, “The Well of Ana”

 

Os primeiros relatos escritos sobre as lendas e as crenças dos povos celtas foram feitos pelos romanos, que invadiram a Grã Bretanha em 55 a.C. Na medida das suas conquistas, eles incorporavam ao seu próprio sistema religioso mitos e conceitos dos povos indígenas, registrando-os, porém, de forma fragmentada e adaptada, em função da localização geográfica e da similitude entre uma divindade local e uma correspondente romana.
Esses registros referem-se aos antigos mitos irlandeses, galeses e escoceses, acrescentando, também, lendas das tribos celtas que tinham chegado posteriormente na Grã Bretanha (cerca de 500 a.C.), provavelmente vindo da França central. Ocultas nas histórias encontram-se reminiscências das tradições pré-celtas, dos povos neolíticos, construtores dos círculos de menires e das câmaras subterrâneas, encontradas em inúmeros lugares nas ilhas Britânicas e na Bretanha (região do Oeste da França).

Essa herança ancestral, preservada durante milênios pela tradição oral e as práticas religiosas pagãs, parcialmente registradas por historiadores romanos, foi aproveitada, reinterpretada, deturpada e truncada nos relatos dos monges cristãos ao longo dos séculos. Mantendo somente o que convinha à moral e aos dogmas cristãos, os monges reduziram o vasto panteão e a rica simbologia celta a relatos épicos de guerras, invasões, intrigas, traições e atos imorais, perpretados pelas várias raças e tribos, diferenciados apenas pela localização geográfica.
Mesmo preservando resquícios das verdades originais, as histórias cristãs minimizaram ou ignoraram a beleza e a sabedoria do legado celta, reduzindo ou distorcendo o seu valor mítico e espiritual. Na visão patriarcal dos monges, as Deusas foram vistas como Rainhas e princesas, os deuses como Reis e Heróis e o significado transcendental foi diluído, modificado ou perdido.

No século XI foi publicado “O Livro das Invenções”, que descreve uma sucessão de 5 povos que teriam vivido na Irlanda antes da chegada dos celtas, os ancestrais dos habitantes atuais.
Nas lendas, estas raças diferentes são descritas de uma forma ambígua, tendo tanto características divinas quanto humanas e sendo apresentadas como deusas, deuses, gigantes, devas e seres elementais ( seres análogos aos de tantos outros mitos de várias culturas e países). Sem precisar entrar em detalhes da complexa nomenclatura e das vastas descrições das batalhas, o importante é saber que cada uma dessas raças foi vencida e seguida pela seguinte, alternando-se assim seus mitos, suas divindades e sua organização social e religiosa.

A quarta raça - Tuatha de Dannan ou povo da deusa Danu -, apareceu de forma misteriosa: não da terra, de uma direção definida, como outros invasores, mas do céu, simultaneamente das 4 direções. Aterrissaram no dia do Sabbat Beltane e depois fundaram 4 cidades que se tornaram os centros espirituais da Irlanda.
Tanto a sua natureza, quanto a sua origem, permanecem envoltos em mistério, mas sabe-se que seus atributos eram de bondade e luz. Por terem vencido a “escura” e agressiva raça anterior foram por isso chamados de “seres brilhantes”. Trouxeram ensinamentos e objetos de magia, arte, sabedoria e cura e deixaram como marcos os círculos de menires e os monumentos megalíticos.

Após um longo e pacífico reinado eles também foram vencidos pela última raça, os precursores dos celtas; depois da sua derrota se retiraram no interior das colinas sagradas, tornando-se o assim chamado “Povo das Fadas”. É importantíssimo ressaltar que apesar de se traduzir fairy por “fada”, este termo não descreve uma “diáfana figura feminina sobrevoando as flores”. O sentido arcaico de Fairy People refere-se a seres sobrenaturais, com aparência etérica, sim, mas pertencendo a ambos os sexos, jovens que gostavam de música, danças, cores, flores, e abominavam o ferro (comprovação de sua origem anterior à Idade do Ferro).

O maior legado dos Tuatha de Dannan foi o culto da deusa Dana (também conhecida como Danu, Anu ou Ana), considerada a Deusa Mãe, progenitora das outras divindades. Representando a força ancestral da Terra, a fertilidade, a vida e a morte, Dana foi posteriormente considerada como a representação da tríplice manifestação divina, da qual sobreviveu até hoje somente o culto à Brighid, cristianizada e fervorosamente venerada como a milagreira Santa Brígida.
Apesar do seu culto ter sido proibido pelo cristianismo e seu nome aos poucos ser esquecido, Danu está presente em toda a parte da Irlanda, seja nos verdes campos, no perfil arredondado das montanhas, no sussurro dos riachos. O Seu lugar sagrado no Condado de Kerry, chamado Paps of Anu, reproduz, na forma das duas colinas, Seus fartos seios, cujos mamilos são formados por cairns, os antigos amontoados de pedras que foram formados pelas oferendas de pedras levadas pelos peregrinos ao longo dos tempos, em sinal de reverência e gratidão.

Atualmente, com o ressurgimento do Sagrado Feminino, Danu, assim como as Deusas de outras tradições, está sendo lembrada e reverenciada como Senhora da Terra, da água, da abundância, da plenitude da Natureza e da soberania.

Mirella Faur - Teia de Thea

Cerridwen

Cerridwen - A Guardiã do Caldeirão da Transmutação

                                             
 
" Mulher sábia, anciã, mãe e mestra,
 Você diminui a escuridão do céu e parteja o nascer do sol,
Possuidora de energia e sabedoria,
Criadora do movimento e do significado,
Dai-me da sua força, ensine-me sua sabedoria.
No seu grande caldeirão Awen,
Eu experimento sua magia e conheço seu poder,
Eu transformo minha forma e aprendo com seu conhecimento.
Assim, eu começo a minha busca e ouço a sua inspiração,
Para um novo começo, o fim e a inevitável morte,
Meu renascimento sendo guiado por você, Grande Cerridwen!" - Michelle Skye: Goddess alive

 

 
Um dos símbolos mais antigos da mitologia celta é o "caldeirão da transmutação" honrado como mistério central da religião por simbolizar o renascimento do ventre da Deusa Escura (o ventre representado pelo caldeirão). Sua magia se devia à capacidade da transmutação, processada através de mudanças, experiências, desafios e o recebimento final da inspiração divina (denominada grael). Acreditava-se que o caldeirão era capaz de transformar a forma material em essência espiritual e de favorecer a preparação da bebida da imortalidade e da inspiração.
Denominado Awen no mito da deusa Cerridwen, o caldeirão era o receptáculo sagrado da sabedoria divina e do dom da inspiração, o meio mágico para a regeneração no ventre escuro da Deusa Anciã. Ele foi o precursor do Santo Graal, considerado uma fusão do caldeirão mágico do paganismo celta e do cálice do cristianismo. Cerridwen era uma deusa galesa, guardiã do caldeirão, dotada com a habilidade da metamorfose (assim como outras divindades celtas), profetisa e regente dos processos de vida, morte e regeneração. O elo entre a deusa Cerridwen e o caldeirão mágico foi descrito em um manuscrito do século XIII - “O livro de Taliesin” (que descrevia a vida do grande poeta galês do século VI) e também mencionado no poema épico galês Mabinogion. Em ambas as fontes, o nascimento do poeta é associado com circunstâncias sobrenaturais e elementos mágicos, ligados ao mito de Cerridwen.
 
Cerridwen representa a “Face Anciã” da Deusa Tríplice celta; seu nome tem como origem os termos galeses ceryd “admoestar com amor” e gwen “branco e abençoado”. Apesar da sua representação habitual como uma mulher velha, chamada de “A anciã da criação” ou simplesmente “A anciã”, ela era uma deusa que mudava sua forma, passando de jovem à mulher madura ou velha, incluindo também sua metamorfose em animais. Como deusa da fertilidade e abundância, ela era chamada de “Deusa soberana dos cereais”, a porca sendo seu animal totêmico e representando a fecundidade do mundo subterrâneo, bem como o poder materno (criador e destruidor, que dá e tira a vida).
Cerridwen é associada com a Lua, os dons de inspiração, a poesia, as profecias, a habilidade da metamorfose, o ciclo de vida e morte, sendo a guardiã da sabedoria e do conhecimento. É ao mesmo tempo Deusa parteira e protetora dos mortos, pois o mesmo poder que conduz os corpos para a morte traz a vida. No seu ventre gera-se a vida, mas a vida antecede a morte. Seu aspecto de Anciã representa o conhecimento de todos os mistérios que só a idade e a experiência podem proporcionar.
 
Cerridwen é ao mesmo tempo uma Deusa do caos e da paz, do início e do fim, da harmonia e da desarmonia. Ela é a Deusa que devemos reverenciar nos momentos de dificuldades e para a transmutação dos desafios e malefícios.
No seu mito conta-se que ela vivia no meio do lago Bala, no Norte do País de Gales, junto com seu marido Tegid Foel e dois filhos gêmeos, a filha Creirwy (cujo nome significava luz, beleza) e o filho Morfran (“o corvo”) equivalente de Afagddu (feio, escuro). Enquanto a moça era de cor clara, alegre e dotada de uma beleza estonteante, o rapaz era deformado, feio, mal-humorado, com pele escura e corpo peludo. Os irmãos eram evidentes representantes das polaridades: luz e sombra, dia e noite, verão e inverno, céu e mundo subterrâneo.
Preocupada com a aparência do filho – que ela não podia mudar mesmo sendo uma deusa - e desejando que ele fosse aceito pela sociedade, Cerridwen decidiu preparar uma poção mágica no seu caldeirão, que lhe conferisse os dons da inspiração e sabedoria, tornando-se assim um renomado bardo. Como costumeiro nas magias celtas, a poção devia ferver e ser misturada sem parar durante um ano e um dia, condensada finalmente para três gotas que continham a sabedoria do mundo, o resíduo sendo apenas veneno. Para auxiliar nesta tarefa Cerridwen chamou duas pessoas: um rapaz chamado Gwion Bach para mexer no caldeirão e um velho cego- Morda para cuidar do fogo. Ambos assumiram suas tarefas sem reclamar, enquanto Afagddu não quis participar de nada.
 
Cerridwen começou a estudar manuscritos antigos sobre as propriedades das plantas e as configurações planetárias benéficas para favorecer o preparo da poção mágica. Ela juntou no caldeirão água de fontes sagradas, espuma do oceano, ervas e raízes mágicas colhidas em diferentes lugares, horas e estações, que iam favorecer o despertar da intuição e da inspiração. No final do período de um ano e um dia, Cerridwen colocou seu filho Afagddu na frente do caldeirão pedindo-lhe que ficasse atento quando o elixir ficasse concentrado e pronto para que as três gotas saltassem para fora. Desinteressado, Afagddu adormeceu, enquanto Cerridwen entrou em transe após recitar os encantamentos mágicos (ou em outra versão adormeceu exausta pelo trabalho demorado). Enquanto isso, Gwion mexeu com tanta força no caldeirão, que o líquido borbulhante espirrou e as três gotas caíram na sua mão; em seguida o caldeirão explodiu. Sentindo a dor da queimadura, o rapaz colocou instintivamente a mão na boca para buscar aliviar, mas no mesmo momento, ele adquiriu o conhecimento e toda a sabedoria do mundo, compreendendo todos os segredos do passado e do futuro. Outras fontes citam uma história diferente, em que Gwion empurrou Afaggdu que estava vigiando a poção e pegou as preciosas gotas ele mesmo, antes que o caldeirão explodisse devido ao resíduo do líquido transformado em veneno.
 
Enfurecida pela perda do precioso elixir que conferiu o dom de sabedoria para Gwion e não ao seu amado filho, Cerridwen correu atrás do rapaz, perseguindo-o sem cessar, mesmo depois da sua metamorfose em diversos animais. Cada vez que ele assumia a forma de um animal, ela se transformava no predador dele. A caça tornou-se uma guerra entre poderes mágicos, cada um dos oponentes se metamorfoseando em vários animais.
Gwion transformou-se numa lebre que fugiu rapidamente, enquanto Cerridwen assumiu a forma de um galgo ágil e correu atrás dele, quase conseguindo abocanhá-lo. Gwion conseguiu escapar e correu para um rio onde se tornou peixe, enquanto Cerridwen assumiu a forma de uma lontra, que o perseguiu sob a água até que ele se viu forçado a transformar-se num pássaro e alçou voo. Ela, transformada em falcão com garras fortes e visão aguçada, o seguiu sem parar e não lhe deu descanso no ar. E quando estava prestes a alcançá-lo, cansado da perseguição e temendo pela própria vida, Gwion avistou um monte de trigo peneirado no solo de um celeiro e mergulhou no meio da pilha, transformando-se num dos grãos, certo de que Cerridwen não ia reconhecê-lo. Porém ela, sem sentir cansaço e atiçada pela caça, aguçou sua vista e se transformou numa galinha negra, que ciscou no trigo, encontrou o fugitivo e o engoliu.
 
Nove meses e dez lunações depois, da semente engolida e gestada no ventre de Cerridwen, nasceu um lindo menino. Apesar da decisão de matá-lo assim que nascesse Cerridwen ficou tocada pela sua beleza e seu ar radiante; comovida o embrulhou em uma bolsa de pele de foca e depois o jogou no mar. Alguns dias depois, o príncipe celta Elphin passeando na beira mar ouviu um choro de criança e salvou o belo menino; impressionado pela sua aparência radiante deu-lhe o nome Taliesin, que significava “testa alta e brilhante”. Quando adulto Taliesin tornou-se o legendário bardo galês, dotado de uma fantástica sabedoria e inspiração, sendo conselheiro de reis, exímio mago e honrado como a genuína encarnação da sabedoria druídica. Sendo ao mesmo tempo um arquétipo sobrenatural amalgamado com uma figura histórica, Taliesin considerava sua sabedoria como um dom divino, uma coletânea de memórias de todas as suas encarnações anteriores.
 
A caça e as metamorfoses seguidas têm intrigado durante séculos estudiosos de história e mitologia. Uma das teorias interpreta os obstáculos como o empenho e a determinação do discípulo para alcançar as metas do treinamento mágico imposto pelo mestre. O período de um ano e um dia era o tempo de estudo exigido pelos mestres celtas antes da iniciação ou passagem de grau dos seus discípulos. Era também um prazo usado em vários trabalhos mágicos e em determinados procedimentos legais na antiga sociedade celta. Cerridwen na realidade estava treinando Gwion, testando o seu real valor e potencial, superando sua própria raiva e frustração para melhor conhecer e aceitar o futuro papel de Gwion nas lendas celtas. Outra explicação encontrada em algumas fontes associa os animais da caça com alguns dos totens dos clãs celtas, simbolizando força e habilidade dos guerreiros nas batalhas. O peixe - ou melhor, o salmão - a lebre, o falcão, a lontra e os pássaros são animais mágicos celtas. Os grãos são a essência do deus agrícola, que se sacrifica e entrega seu poder e força para que as espigas cresçam. Todavia, o galgo e a galinha não possuem poderes mágicos, portanto esta teoria é desprovida de fundamento mítico. Uma prática celta para adivinhação que constava em fazer oferendas para as divindades, comer carne crua e depois chupar o polegar - chamada Imbas Forosnai-, talvez tenha sido inspirada pelo mito de Cerridwen e Gwion. No relato mítico do herói irlandês Finn Mc.Cool, conta-se que ele adquiriu a sabedoria lambendo seu dedo queimado enquanto assava um salmão (o animal totêmico celta detentor da sabedoria).
A sacerdotisa e pesquisadora Jhenah Telyndru - no seu livro Avalon within - compara a caça com os diferentes estágios da transformação da alma, progredindo das sombras do inconsciente para a vontade consciente. Neste cenário cada par de animais é associado a um elemento. A lebre e o galgo pertencem à terra, o peixe e a lontra, à água, o pássaro e o falcão ao ar e a galinha e o grão, ao fogo.
 
As transformações e seus elementos correspondentes simbolizam o desenrolar da vida individual. Ar seria o nascimento, fogo, a juventude, água, a maturidade e a terra, velhice e morte. Por ter renascido do ventre de Cerridwen após a sua morte, Gwion simboliza a crença celta na reencarnação ou a volta do espírito para a terra, assumindo outro corpo e forma.
O prazo de um ano e um dia é uma referência ao calendário pagão formado de 13 meses lunares de 28 dias cada, somando 364 dias e acrescentando mais um dia para o total de 365. Este mesmo prazo aparece em muitas outras lendas, mitos e contos de fadas e levou à perseguição cristã do número 13, considerado de mau augúrio e associado à bruxaria. No entanto, a tradição pagã persistiu em muitos nomes e símbolos como os famosos “13 Tesouros da Bretanha”, possivelmente símbolos lunares, associados às constelações zodiacais e descritos como: espada, cesto, chifre para beber, carruagem, faca e pedra para afiar, caldeirão, tacho, corda, travessa, tábua de xadrez, vestuário, manto. Os treze meses do calendário menstrual eram representados nas paredes do templo de Tarxien em Malta como uma porca com 13 tetas, semelhante à descrição celta de Cerridwen como “a Porca Branca”.
 
O mito de Cerridwen e o seu caldeirão mágico retrata a crença galesa de que, para que a verdadeira inspiração divina se manifestasse no mundo, era necessária a morte e o renascimento. O ventre de Cerridwen, assim como o seu caldeirão, tinha o potencial de gerar todas as manifestações da criação, sendo o começo e o fim da vida. Cerridwen é ao mesmo tempo uma criadora e iniciadora, na realidade ela é o próprio receptáculo do renascimento, pois engoliu Gwion e depois lhe deu a vida; o simbolismo do grão comido pela galinha é uma alegoria da semente enterrada na terra para renascer. Ao beber as três gotas proibidas, Gwion teve a visão perfeita da divindade representada por Cerridwen. Perseguido e castigado pela Deusa ele não pode morrer realmente pois tem o conhecimento perfeito; por isso a deusa o ingere na forma de grão de trigo e ele se integra à divindade de Cerridwen. Quando Gwion se apodera dos segredos de Cerridwen representados pelas três gotas se produz um caos comparável ao do nascimento. A partir desse momento, aparece a necessidade de reconstruir a unidade perdida, a necessidade de voltar atrás, até a mãe, e dessa forma se produzirá um "novo nascimento". Gwyon Bach não morre, ele volta para o ventre da mãe para um novo amadurecimento, fecunda a própria mãe e renasce pela segunda vez como Taliesin, o bardo que conhece os segredos do mundo e da divindade.
 
Essa narração, embora seja da época cristã, é baseada na crença arcaica de que o homem nada tem a ver com o fenômeno do parto, que é função específica da mulher. O homem não era considerado pai dos filhos no sentido que nós damos agora a esse termo, pois antigamente se desconhecia a paternidade fisiológica e o pai era completamente alheio ao nascimento dos filhos. Característica de uma sociedade que consideramos primitiva (no sentido pejorativo da palavra) na verdade esta crença representa um estágio de uma civilização que não era pior do que o paternalismo da civilização romana, ou os nossos conceitos atuais. Na sociedade matrilinear, o pai não desfrutava de nenhum privilégio em relação aos filhos e não tinha, portanto, direito ao seu afeto, precisando se empenhar para ganhá-lo. Por outro lado, não tendo as responsabilidades financeiras que envolviam uma família, se sentia mais livre para deixar que seus instintos paternais se desenvolvessem. Na sociedade paternalista que insiste sobre o papel biológico do pai, se reforçam todos os conflitos de natureza edípica, destruindo o equilíbrio da sociedade matrilinear que promovia para o pai uma relação desinteressada, isenta de toda autoridade e buscando o amor. Além disso, as sociedades paternalistas consideram até hoje a mulher como uma máquina de prazer ou de procriação e insistem sobre a sacrossanta virgindade das jovens.
 
A caça mágica enfatiza o papel de Cerridwen no ciclo natural de nascimento, morte e renascimento. Seu movimento não é caótico, mas medido e em forma de círculos. Ela e seu caldeirão representam o começo e o fim, a madrugada luminosa e a escuridão da noite; ela é a força que nos ajuda nascer de novo, superando decepções, frustrações, doenças e morte. Espiralando eternamente, Cerridwen lembra-nos que de cada fim nasce um começo e que cada começo tem um fim, vida e morte sendo apenas aspectos do cosmos rodopiando e mudando eternamente. A sua mensagem é: “cada fracasso contém em si um sucesso”. Um antigo canto celta para a invocação de Cerridwen - usado até hoje - é originário da Escócia, sem que se saiba a data exata ou o significado das palavras. Sua finalidade visava invocar o poder de Cerridwen no corpo, na alma e no espírito, para que a pessoa se tornasse um canal aberto para deixar passar a energia da deusa:
 
Amores Cerridwen

Calami carbones stultorum moenia chartee

Calami carbones stultorum moenia chartee
 
A aparição de Cerridwen na vida de alguém (em sonhos, presságios ou visões) prenuncia situações de morte e renascimento, algo deve morrer e deve ser deixado para trás, para que o novo possa renascer; a matéria não pode ser criada ou destruída, mas é sujeita a transformações. A dança das estações nos ensina como viver plenamente, aceitando todas as faces da existência, que incluem a morte e o renascimento. A plenitude é vivida quando temos a consciência de que cada passo que damos na vida é também um passo para a morte e o renascimento. Seremos plenos e conscientes quando aceitarmos a nossa dança com a morte e o renascimento. Fazemos parte do processo cósmico de reciclagem e devemos aceitar que o fim faz parte da nossa vida, assim como o começo. Precisamos ter coragem para o desapego (de medos, hábitos, situações ou emoções negativas); iremos receber de volta aquilo que deixamos ir, transmutado para uma forma mais benéfica e abundante, o que irá aumentar o nosso poder e expandir a nossa consciência.
 
Mergulhando no caldeirão de Cerridwen poderemos alcançar nossos objetivos, encontrar a força para superar adversidades, transmutar os bloqueios e os medos e encontrar a luz no momento da morte. Não devemos encarar a morte como o fim, mas como um renascimento. Quando aprendermos a abrir mão de certas coisas e situações, estaremos aprendendo a morrer espiritualmente, de várias pequenas maneiras ao longo da vida. No momento da morte, o ato de abrir mão se multiplica milhares de vezes e a liberação proporciona uma conexão divina totalmente nova. Os místicos ensinam que para poder mergulhar na presença divina é necessário exercitar o desprendimento A totalidade só é conquistada no momento em que aceitarmos entrar na dança da morte e do renascimento.
 
"Eu lhe dou a vida e lhe dou também a morte,

Fases que fazem parte de tudo o que vivencia ao longo da espiral,
O caminho espiralado é a própria existência,
Sempre seguindo, sempre crescendo e mudando,
Nada morre que não renascerá, nada existe que não vá morrer.
Quando você vem a mim, eu lhe dou as boas vindas,
E depois a recebo no meu ventre, o caldeirão da transmutação,
Onde você será mexida e virada, fervida e triturada,
Derretida e amassada, reconstituída e reciclada.
Você sempre voltará a mim e seguirá o seu ciclo, renovada.
Morte e vida são apenas pontos de transição

Ao longo da Senda Eterna e Espiralada!"

“Oráculo da Deusa” Amy Marashinski
 
Mirella Faur      - Teia de Thea

Brigid

Brigid, Deusa e Santa

“Brigid, mulher excelente, chama espontânea dourada e flamejante, brilho do sol radiante, conduza-nos para o reino divino”.
Do hino irlandês Brigid be Bithmaith

Não há como duvidar do extenso culto – antigo e atual – dedicado a Brigid. Ela é um arquétipo poderoso no mundo contemporâneo, que ultrapassa barreiras religiosas ou filosóficas. Seu poder alcança tanto os adeptos do neopaganismo (druidismo, Wicca, seguidores da Tradição da Deusa) que a cultuam no Sabbat Imbolc como uma Deusa Tríplice, padroeira das artes, cura e magia, bem como os cristãos, que a reconhecem como uma mulher real, santificada e venerada, cujos milagres continuam a acontecer até hoje.

A deusa Brigid foi descrita em mitos, lendas, biografias e histórias como uma mulher extraordinária, poderosa, amorosa e enérgica, com traços contraditórios, mesclando fogo e água, determinação e compaixão, cura e combate, virgindade e maternidade, centrada e dedicada na sua missão de proteger e cuidar do seu povo. Para os seus seguidores pagãos, ela é a Deusa Tríplice, padroeira da arte, cura e magia, Senhora do fogo sagrado e das fontes curativas. Para os cristãos, ela é Santa Brigid, uma mulher simples, mas que pela sua vida pura, sua fé e a doação irrestrita para auxiliar doentes e pobres, pode vir a alcançar a santidade. Para os poetas e artistas, ela é a Musa, que os inspira e conduz para a fonte da criatividade. Para os camponeses, ela era a protetora dos rebanhos e da fertilidade da terra, regente da prosperidade, associada às colheitas e ao gado.

A data exata do início do seu culto pagão é desconhecida, acredita-se que foi há milênios, sendo uma das deusas mais antigas, “contemporânea” com Inanna, Ishtar, Ísis, Hera, Gaia, Freyja. A Irlanda pagã foi formada por uma amalgamação de povos indígenas, os construtores dos monumentos neolíticos e as tribos celtas, que chegaram em várias ondas migratórias entre o século VII a.C. e o primeiro d.C. Não se sabe ao certo qual é a sua verdadeira origem, nem a antiguidade do seu culto. Porém, independentemente das suas raízes históricas ou geográficas, seu culto floresceu na Irlanda, Escócia e Bretanha e seu nome imortalizado em várias fontes na França, Espanha, Suécia. Adaptado para a figura cristã da santa, este culto persiste até hoje e centenas de lugares e pessoas na Irlanda guardam seu nome e seus costumes.

A tradição oral celta preservou muitos mitos, lendas e poemas, mas com o passar do tempo e as contínuas guerras, muito do legado ancestral foi perdido. Suas lendas permaneceram ao longo de gerações, transmitidas pelos bardos e poetas (filid) e, mesmo truncadas ou distorcidas pelos monges e historiadores cristãos, preservaram fragmentos da sua esquecida sabedoria e poder. Muitas das lendas da Santa são compilações dos mitos da Deusa, mescladas com elementos cristãos, com o propósito de atrair os pagãos celtas para o cristianismo. Referências escritas apareceram apenas séculos depois da sua morte, reunindo histórias confusas sobre sua suposta identidade, considerando-a ora como a parteira e madrinha de Jesus (que nasceu séculos após) e invocada pelas parturientes, ora a própria Maria. A Deusa foi transformada em Santa a fim de legitimar e promover a conversão para a nova religião, um passo importante para estabelecer a mudança de costumes. O antigo templo de fogo de Kildare da deusa na Irlanda, destruído pelas guerras e os saques, foi recuperado e transformado em catedral da santa. A sua chama sagrada, depois de extinta pela perseguição reformista, foi acesa novamente e continua sendo mantida até hoje pelas freiras da ordem Brigidina.

Os inúmeros nomes da deusa Brigid originaram-se nos vários lugares do seu culto, assim como suas representações: Breo Saighit, a “Flecha Ardente” celta (o nome que melhor representa o poder da sua chama sagrada), a escocesa Bride, a irlandesa Brigid , Brighd ou Bhrid, a gaélica Brighid (pronuncia-se Breed), a inglesa Brigantia, cultuada nas terras do Norte da Inglaterra e parte da França e Espanha (o seu aspecto de Guerreira, com flecha e cetro, mas também mediadora da paz), Brigandu na Gália, Bridget na Suécia, Briid ou Brede na Ilha de Man, Ffraid no País de Gales e Mary of the Gael nos poemas.  Tão diversos quanto os nomes são os seus títulos, que descrevem seus atributos: Brigid, a Vitoriosa, Guerreira imortal, Rainha do Povo das Fadas, Mãe das canções e poesias, Senhora das fontes, Chama do coração das mulheres, Fogo que arde sem deixar cinzas, Mãe da sabedoria, A mais elevada, Deusa da cura com manto verde e cabelos vermelhos.
Em algumas lendas Brigid aparece como filha dos deuses arcaicos da terra Dagda e Danu (ou Boann), fazendo parte do povo sagrado Tuatha de Dannan. Em outros mitos é considerada consorte de Dagda ou de Bres, o “Lindo Guerreiro” (descendente dos Fomorians, a raça que regeu a Irlanda antes dos Tuatha de Danaan), ou sendo “Senhora do mar”, filha do deus do oceano Lir. Da sua união com Bres teria tido um filho - Ruadan- que representava a mescla das energias dos seus genitores: Danaan e Fomorian. Na maioria dos mitos prevalecem, no entanto, suas características de deusa virgem, guardiã da tocha e da lareira, protetora das mulheres e dos caminhos, sua energia sendo ígnea, direta, rápida, iluminadora e vitalizadora.
Brigid é o raio do relâmpago ou a chama do fogo que ilumina a terra, deixando atrás um rastro de luz ou clareza nas mentes e corações humanos. Às vezes é vista como a face jovem da Deusa, Danu ou Cerridwen sendo a Mãe e Cailleach a Anciã, que cede seu lugar para Brigid no Sabbat Imbolc, substituindo o frio do inverno pelas promessas da primavera, trocando o cetro de gelo pelo ramo verde. O seu aspecto de regente das fontes permaneceu no culto da deusa Sulis, adotada pelos romanos como Sulis Minerva e cultuada nas antigas termas de Aquae Sulis, atual cidade inglesa de Bath, onde a energia dela ainda pode ser percebida na fonte subterrânea, repleta de oferendas dos visitantes.

Brigid foi equiparada a várias deusas: com Juno pela tribo dos Brigantes, com Minerva, Hécate, Héstia, Vesta, Ártemis, Diana, Tanit e Sulis pelos romanos. Existem semelhanças entre o mito de Brigid e os de algumas deusas solares como Lucina, a padroeira romana da luz, a báltica Saule e a nórdica Sunna. Algumas lendas celtas atribuem a Brigid uma dupla apresentação: donzela e anciã, Brigid e Cailleach, primavera e inverno, dualidade semelhante às gregas Perséfone e Deméter. Como uma Tuatha de Danaan ela era ligada aos Sidhe, o “Povo das Fadas”, sendo a sua rainha; ela usava como emblema um manto verde, um cinto mágico e uma coroa de ouro. Foi ela quem implantou o keening, os lamentos das vigílias irlandesas que pranteavam os mortos. Nas lendas arturianas, Brigid é descrita como a Guardiã da macieira sagrada de Tir nan Gog, “a terra das mulheres ou da juventude” e a maga artesã que forjou a espada Excalibur. Ela era descrita como doadora da vida e parteira, poeta e artesã, curadora e guerreira, fada e soberana, maga e profetisa, uma figura mítica e multifacetada, que transita entre realidade e fantasia. O arquétipo complexo e múltiplo de Brigid - a mais cultuada das deusas celtas – também amalgamou vários aspectos das antigas deusas irlandesas como Boann, Danu, Macha, Morrigan. Mas ela é uma divindade tão intensamente relacionada com a sacralidade feminina, que a nenhum homem era permitido ultrapassar a cerca ao redor do seu santuário.

Deusa soberana e provedora da terra, guardiã do fogo celeste e telúrico, regente das fontes e ervas curativas, ficou mais conhecida como uma “Deusa Tríplice”, regente das artes (poesia, canto, artesanato, tecelagem, metalurgia, joalheria), da cura, fertilidade, purificação e renovação pela água (pelas fontes e os mistérios das ervas), da magia, oráculos e profecia. Como “Senhora do Fogo Tríplice” ela regia a inspiração (sendo a Musa), a forja (padroeira da metalurgia e das artes marciais), a tocha e a lareira (protetora das casas, das mulheres, famílias e dos viajantes). Nas imagens, Brigid aparece como uma jovem com cabelos ruivos, segurando uma chama, junto de seus animais totêmicos (vaca branca com orelhas vermelhas, cisne, peixe, ovelha, javali ou serpente) ou perto de uma fonte. Outra apresentação é como uma tríade de deusas, cada uma segurando o símbolo dos seus dons (tocha ou chama, ferramentas, cálice cercado com serpentes entrelaçadas ou ervas curativas).
Brigid era honrada como “Senhora dos Bardos” pelos seus dons de inspiração, criatividade, encantamento, fluidez e graça. Para os antigos celtas o fogo era a fonte da inspiração, a iluminação divina procurada pelos poetas, bardos e magos. As suas criações – poemas, canções, histórias, lendas - eram compartilhadas com os demais ao redor de fogueiras, para assim lembrar e honrar os antigos caminhos, mantendo viva a memória da tribo e a reverência dos ancestrais. No fim do inverno, a família ou o clã se reunia próximo ao fogo ou à lareira (buscando o aconchego da chama de Brigid, deusa mãe e protetora do lar), quando o músico, poeta ou o contador de histórias reanimava as pessoas enfraquecidas pelo frio com canções, poemas, relatos e sagas de heróis. Por serem faladas e não escritas, estas histórias eram transitórias na sua natureza e assim como o fogo, não podiam ser dominadas por aqueles que não tinham preparo; o uso das palavras exigia reverência e competência, habilidades além do alcance dos não iniciados. Por isso Brigid foi associada com as propriedades etéreas de todos os tipos de fogo (Imbas) - da forja, da lareira e fogueira, do sol, da transmutação, da cura e do sopro mágico. O fogo era visto pelos celtas como uma energia espiritual latente em todas as coisas e inerente a certos processos cognitivos do intelecto humano, bem como a alguns estados emocionais como paixão, caridade, amor, etc.

A inspiração e a poesia eram associadas pelos celtas também com a água, outro domínio de Brigid, reverenciada como “Senhora das fontes sagradas”, que uniam simbolicamente o mundo subterrâneo, mediano e o superior, por nascerem na escuridão da terra, fluírem para a superfície e refletirem a luz do céu. Da mesma forma, as ideias e visões ocultas do subconsciente podiam ser reveladas pela inspiração e intuição, energias sutis que fluíam livremente para a mente consciente e racional.

Uma composição de personagens dos mitos irlandeses e galeses deu origem à Santa, cujo principal título era ”Brigid, a santa do manto verde e cabelos de ouro (ou fogo)”, traços marcantes das imagens da Deusa. Ela supostamente nasceu entre 439-452 e morreu entre 518-525 da nossa era,  sendo filha de um druida e uma escrava pagã. Seu nascimento foi cercado de fenômenos estranhos (a presença de dois sois no céu) e aconteceu quando sua mãe passava pela soleira da casa, trazendo a ideia dos limiares e fronteiras, considerados lugares sagrados para os celtas. Os que presenciaram o nascimento deste bebê de mística beleza puderam relatar que da sua cabeça surgiam chamas de cor vibrante, como se fosse uma coroa de raios solares.  Alguns dias depois, os vizinhos alarmados viram labaredas saindo da casa em que os pais de Brigid moravam; mas chegando lá, encontraram a menina dormindo tranquila no seu berço e sem nenhuma marca do fogo. Enquanto criança, Brigid recusava qualquer tipo de comida além do leite de uma vaca branca com orelhas vermelhas (cores atribuídas aos animais do “povo das fadas”). Quando jovem ela era uma moça generosa, doando seus pertences e comida aos pobres, sem se interessar em namorar ou casar, almejando apenas a vida religiosa. Era amiga e seguidora dos ensinamentos de São Patrício (o missionário que cristianizou Irlanda). Quando o seu pai permitiu que se dedicasse à vida monástica, foi consagrada diretamente como abadessa em lugar de ser ordenada como simples freira, devido a uma falha inexplicável do oficiante, que recitou o juramento errado (sendo vista nesta hora uma coroa de chamas cercando a cabeça de Brigid).
Brigid se empenhou em criar uma comunidade de mulheres, junto com outras dezenove noviças em Cill Dara, “a igreja de carvalho” (atual Kildare), na Irlanda, que foi crescendo até se transformar em um grande mosteiro, o primeiro centro irlandês de estudos e artes, que incluía trabalhos com metais e ilustração dos manuscritos antigos. Lá, as mulheres dos arredores aprendiam como cuidar de pobres e doentes, auxiliar as gestantes e parturientes, curar com ervas e a energia das mãos, fiar, tecer, bordar, abençoar, fazer encantamentos e predições. A vida de Brigid foi repleta de milagres como: a cura de doenças com o toque das suas mãos, a multiplicação da comida (leite, manteiga, grãos, cerveja), o encontro de animais extraviados e a descoberta dos ladrões; o mais famoso fato mágico foi quando pendurou seu manto molhado sobre um raio de sol. Quando Brigid foi pedir mais terra para sua comunidade ao rei, ele lhe concedeu uma área que o seu manto pudesse cobrir. Brigid tirou seu manto e quando o estendeu, ele cobriu uma enorme área ao redor, que lhe foi depois concedida pelo rei, impressionado com este milagre. Como ferrenha defensora das mulheres, Brigid educava as jovens para seguirem uma profissão, libertava escravas, incentivava esposas maltratadas para pedirem divórcio, auxiliava nos partos ou abortos. Todos estes atos de poder reproduziam os atributos da Deusa: fertilidade, abundância, cura, comunicação com animais, auxílio permanente dado às mulheres e parturientes, aos pobres e doentes.

Após a sua morte, o fogo do seu templo continuou aceso, guardado cada dia por uma das dezenove sacerdotisas ou freiras da sua ordem; na vigésima noite era a própria Brigid que o cuidava. O fogo requeria muita lenha, porém as cinzas dele não aumentavam jamais. A preservação da chama sagrada de Brigid foi mantida pelas freiras até que o seu culto foi proibido mil anos depois. Ela foi enterrada num caixão de ouro e prata em Kildare, mas depois, devido aos saques das incursões Vikings, seus ossos foram levados para o túmulo do Santo Patrício, porém despareceram algum tempo depois. Algumas das suas relíquias ainda existem em igrejas e museus como seu manto verde na Bélgica, seus sapatos no museu de Dublin e outros objetos em lugares mais distantes, que a santa viva jamais percorreu. Santa Brigid é padroeira da Irlanda (junto com São Patrício), das ordens das freiras irlandesas e de Nova Zelândia. Mesmo como santa, ela continua sendo - assim como a deusa - protetora dos agricultores, fazendeiros e criadores de gado, ferreiros, curandeiras e parteiras, crianças e mulheres, poetas, artistas e escritores (que começavam seus escritos com a frase gaélica Adjuva Brigitta, “ajude Brigid”).

A sua representação como Santa tem elementos reais e míticos, alguns historiadores negam a sua real existência, mas foi através dela que a Igreja cristã celta permitiu a perpetuação - de maneira velada e modificada–do culto da deusa Brigid, que, por não poder ser erradicado, foi readaptado pela igreja e transformado para a reverência atual da Santa. Na Irlanda, 1500 anos depois da morte de Brigid, sua memória permanece viva nos corações dos seus fiéis e seus símbolos continuam sendo confeccionados e usados, mesmo que nem todos os que os confeccionam e usam conheçam seu significado sagrado. Tendo feito a transição da condição de Deusa para Santa, preservando o nome, os símbolos e costumes antigos, a figura de Brigid representa uma ponte (bridge em inglês) entre paganismo e cristianismo, continuando como guardiã da sacralidade feminina.

O Sabbat Imbolc da Roda do Ano celta se originou de um antigo ritual de bênção da terra (honrada como ”o ventre da deusa”), feito na chegada da primavera, antes do campo ser semeado, para propiciar fertilidade e proteção. Grãos e espigas da colheita anterior eram usados como oferendas nesta celebração e depois de abençoados com água de uma fonte sagrada, eram misturados com as sementes destinadas ao próximo plantio. Imagens de Brigid eram levadas em procissão para abençoar os campos e atrair a fertilidade, costume preservado mesmo após a cristianização e perpetuado até hoje pelos padres cristãos. Atualmente inúmeros peregrinos buscam as bênçãos de Brigid nos seus lugares sagrados como: Kildare (onde ainda existe sua antiga fonte, a catedral e uma nova igreja), Faughart (o lugar onde ela nasceu e onde vários locais são a ela associados), ambos na Irlanda e as Ilhas Hébridas (cujo nome é associado à Deusa). Glastonbury - na Inglaterra - é um lugar sagrado muito ligado ao arquétipo de Brigid, a forma do seu relevo topográfico parece um cisne (animal sagrado da Deusa), enquanto a pequena colina de Bride’s Mount e a gravura da Deusa (ao lado da sua vaca) sobre o portal da igreja na colina do Tor lembram a estadia da Santa durante algum tempo na cidade. Na fonte sacra de Chalice Well sacerdotisas do Goddess Temple realizam rituais e bênçãos no Sabbat Imbolc. Existem inúmeras fontes (chamadas Tobar Brighde e Clootie Wells) na Irlanda, Escócia, Grã-Bretanha, onde colares, rosários, tranças de fitas, cruzes de palha e pedaços de roupas dos doentes amarrados nas árvores ao redor, comprovam a continuidade do culto de Brigid, como Deusa e Santa, até hoje.
A conexão com Brigid no Sabbat Imbolc pode ser feita individualmente nas margens de um rio, cachoeira, córrego ou simplesmente em casa perto de uma fonte usada na decoração; visualiza-se a purificação pelo poder da água e pede-se à deusa a cura para algum problema específico (seu ou de familiares). Antigamente, as mulheres abriam as portas e janelas das casas pedindo para que Brigid entrasse e as abençoasse, o que pode ser feito também agora. No final da meditação, após agradecer à Deusa pela ajuda recebida, deve-se abençoar-se com água, riscando o símbolo sagrado de triskelion sobre si mesma. Uma antiga tradição irlandesa recomenda deixar um pedaço de pano de algodão (branco ou verde) perto da sua imagem no dia dedicado à celebração do Sabbat Imbolc (primeiro de fevereiro) pedindo à deusa para impregnar o pano com suas energias curadores. Guarda-se depois o pano envolvido em papel de seda para usá-lo quando precisar, colocando-o sobre a parte doente do corpo.

Um símbolo tradicional de Brigid pode ser confeccionado com palha seca ou espigas de trigo em forma de triskelion ou cruz de Brigid (Cros Bhrid), cujos modelos e técnicas de trançar se encontram na internet. Um antigo costume irlandês recomenda confeccionar uma figura feminina de palha para representar a Bhrid Doll. Esta boneca, feita tradicionalmente com as últimas espigas (de trigo
ou aveia) colhidas, era colocada perto da lareira na véspera de Imbolc, em uma cama de palha ou lã de ovelhas, junto com um bastão enfeitado com fitas, tudo cercado por velas acesas. Convidava-se assim a presença da Deusa para abençoar a casa e seus moradores. Antigamente esta boneca era depois enterrada junto com as sementes durante o plantio, mas atualmente, em Glastonbury, as mulheres que reverenciam e celebram Brigid guardam as bonecas por elas confeccionadas (Bride Doll) no Goddess Temple depois de abençoá-las na fonte sagrada de Chalice Well. A fileira de Bride Doll mostra as diversas representações  da inspiração e sabedoria femininas.
Nos grupos e círculos de mulheres Brigid é invocada para conferir criatividade, inspiração, poder mágico e a capacidade de manifestar ideias no mundo material. Para honrá-la, ou pedir sua ajuda ou proteção, usam-se velas laranja, que devem ficar acesas durante dezenove dias, reservando em cada dia um tempo para orar e visualizar seu projeto, sendo então abençoado por Brigid. Durante a meditação, podem aparecer visões e mensagens de Brigid; no final deste período deve ser feita uma oferenda de gratidão para ela (grãos, sementes, pão, mingau de aveia, mel, manteiga, leite, cerveja).

Os círculos de mulheres que seguem a Tradição da Deusa costumam realizar seus rituais de dedicação e iniciação na senda da sacralidade feminina em torno da data de Imbolc (conforme descrito no livro Círculos sagrados para mulheres contemporâneas).  Esta data representa um tempo propício para o plantio de novas sementes: da criatividade, dos novos projetos e realizações, de cura e renovação energética, de atração ou mudanças nos relacionamentos e das bênçãos nos caminhos espirituais. Podem ser abençoadas nesta data dezenas de velas para usar durante o ano, preparados altares com a imagem da Deusa, uma vela de cera, um cálice ou fonte com água, ervas aromáticas ou incenso, um pote com terra, símbolos (lua, cruzes solares, triskelion, pentagrama), objetos associados com a sua profissão, vocação e projetos futuros, oferendas de pão, grãos, leite, manteiga, mel e cerveja. Invoca-se Brigid na sua qualidade de protetora com esta simples oração, que pode ser repetida diariamente:
 
Brigid, deusa vitoriosa da luz,
Cubra-me com teu manto sagrado,
Vigie-me sempre com teus olhos,
Proteja-me com teu cajado,
De manhã e até anoitecer,
Por onde eu andar ou estiver,
De dia ou de noite, que eu seja sempre protegida,
Honrada, acolhida e favorecida,
Brigid, Deusa poderosa e protetora,
Fique ao meu lado e seja a minha companheira,
Minha conselheira, guardiã e defensora!
 
A Naoimh Bhrid Gui Orainn
(pronuncia-se A Nem Brid Gui Orin que significa “Santa Brigid ore por nós”!)
 
 
Mirella Faur   - Teia de Thea

Hécate

As dádivas da Deusa Hécate


O dia 13 de agosto era uma data importante no antigo calendário greco-romano, dedicada às celebrações das deusas Hécate e Diana, quando Lhes eram pedidas bênçãos de proteção para evitar as tempestades do verão europeu que prejudicassem as colheitas. Na tradição cristã comemora-se no dia 15 de agosto a Ascensão da Virgem Maria, festa sobreposta sobre as antigas festividades pagãs para apagar sua lembrança, mas com a mesma finalidade: pedir e receber proteção. Com o passar do tempo perdeu-se o seu real significado e origem e preservou-se apenas o medo incutido pela igreja cristã em relação ao nome e atuação de Hécate. Essa poderosa Deusa com múltiplos atributos foi considerada um ser maléfico, regente das sombras e fantasmas, que trazia tempestades, pesadelos, morte e destruição, exigindo dos seus adoradores sacrifícios lúgubres e ritos macabros. Para desmistificar as distorções patriarcais e cristãs e contribuir para a revelação das verdades milenares, segue um resumo dos aspectos, atributos e poderes da deusa Hécate.

Hécate Trivia ou Triformis era uma das mais antigas deusas da Grécia pré-helênica, cultuada originariamente na Trácia como representação arcaica da Deusa Tríplice, associada com a noite, lua negra, magia, profecias, cura e os mistérios da morte, renovação e nascimento. ”Senhora das encruzilhadas” - dos caminhos e da vida - e do mundo subterrâneo, Hécate é um arquétipo primordial do inconsciente pessoal e coletivo, que nos permite o acesso às camadas profundas da memória ancestral. É representada no plano humano pela xamã que se movimenta entre os mundos, pela vidente que olha para passado, presente e futuro e pela curadora que transpõe as pontes entre os reinos visíveis e invisíveis, em busca de segredos, soluções, visões e comunicações espirituais para a cura e regeneração dos seus semelhantes.
Filha dos Titãs estelares Astéria e Perseu, Hécate usa a tiara de estrelas que ilumina os escuros caminhos da noite, bem como a vastidão da escuridão interior. Neta de Nyx, deusa ancestral da noite, Hécate também é uma “Rainha da Noite” e tem o domínio do céu, da Terra e do mundo subterrâneo. “Senhora da magia” confere o conhecimento dos encantamentos, palavras de poder, poções, rituais e adivinhações àqueles que A cultuam, enquanto no aspecto de Antea, a “Guardiã dos sonhos e das visões”, tanto pode enviar visões proféticas, quanto alucinações e pesadelos se as brechas individuais permitirem.

Como Prytania, a “Rainha dos mortos”, Hécate é a condutora das almas e sua guardiã durante a passagem entre os mundos, mas Ela também rege os poderes de regeneração, sendo invocada no desencarne e nos nascimentos como Protyraia, para garantir proteção e segurança no parto, vida longa, saúde e boa sorte. Hécate Kourotrophos cuida das crianças durante a vida intra-uterina e no seu nascimento, assim como fazia sua antecessora egípcia, a parteira divina Heqet.
Possuidora de uma aura fosforescente que brilha na escuridão do mundo subterrâneo, Hécate Phosphoros é a guardiã do inconsciente e guia das almas na transição, enquanto as duas tochas de Hécate Propolos, apontadas para o céu e a terra, iluminam a busca da transformação espiritual e o renascimento, orientado por Soteira, a Salvadora. Como deusa lunar Hécate rege a face escura da Lua, Ártemis sendo associada com a lua nova e Selene com a lua cheia.
No ciclo das estações e das fases da vida feminina Hécate forma uma tríade divina juntamente com: Kore/Perséfone/Proserpina/Hebe - que presidem a primavera, fertilidade e juventude -,

Deméter/Ceres/Hera – regentes da maturidade, gestação, parto e colheita - e o Seu aspecto Chtonia, deusa anciã, detentora de sabedoria, padroeira do inverno, da velhice e das profundezas da terra. Hécate Trivia e Trioditis, protetoras dos viajantes e guardiãs das encruzilhadas de três caminhos, recebiam dos Seus adeptos pedidos de proteção e oferendas chamadas “ceias de Hécate”.
Propylaia era reverenciada como guardiã das casas, portas, famílias e bens pelas mulheres, que oravam na frente do altar antes de sair de casa pedindo Sua benção. As imagens antigas colocadas nas encruzilhadas ou na porta das casas representavam Hécate Triformis ou Tricephalus como pilar ou estátua com três cabeças e seis braços que seguravam suas insígnias: tocha (ilumina o caminho), chave (abre os mistérios), corda (conduz as almas e reproduz o cordão umbilical do nascimento), foice (corta ilusões e medos).
Devido à Sua natureza multiforme e misteriosa e à ligação com os poderes femininos “escuros”, as interpretações patriarcais distorceram o simbolismo antigo desta deusa protetora das mulheres e enfatizaram Seus poderes destrutivos ligados à magia negra (com sacrifícios de animais pretos nas noites de lua negra) e aos ritos funerários. Na Idade Média, o cristianismo distorceu mais ainda seus atributos, transformando Hécate na “Rainha das bruxas”, responsável por atos de maldade, missas negras, desgraças, tempestades, mortes de animais, perda das colheitas e atos satânicos. Essas invenções tendenciosas levaram à perseguição, tortura e morte pela Inquisição de milhares de “protegidas de Hécate”, as curandeiras, parteiras e videntes, mulheres “suspeitas” de serem Suas seguidoras e animais a Ela associados (cachorros e gatos pretos, corujas).

No intuito de abolir qualquer resquício do Seu poder, Hécate foi caricaturizada pela tradição patriarcal como uma bruxa perigosa e hostil, à espreita nas encruzilhadas nas noites escuras, buscando e caçando almas perdidas e viajantes com sua matilha de cães pretos, levando-os para o escuro reino das sombras vampirizantes e castigando os homens com pesadelos e perda da virilidade. As imagens horrendas e chocantes são projeções dos medos inconscientes masculinos perante os poderes “escuros” da Deusa, padroeira da independência feminina, defensora contra as violências e opressões das mulheres e regente dos seus rituais de proteção, transformação e afirmação.
No atual renascimento das antigas tradições da Deusa compete aos círculos sagrados femininos resgatar as verdades milenares, descartando e desmascarando imagens e falsas lendas que apenas encobrem o medo patriarcal perante a força mágica e o poder ancestral feminino. Em função das nossas próprias memórias de repressão e dos medos impregnados no inconsciente coletivo, o contato com a Deusa Escura pode ser atemorizador por acessar a programação negativa que associa escuridão com mal, perigo, morte. Para resgatar as qualidades regeneradoras, fortalecedoras e curadoras de Hécate precisamos reconhecer que as imagens destorcidas não são reais, nem verdadeiras, que nos foram incutidas pela proibição de mergulhar no nosso inconsciente, descobrir e usar nosso verdadeiro poder.

A conexão com Hécate representa para nós um valioso meio para acessar a intuição e o conhecimento inato, desvendar e curar nossos processos psíquicos, aceitar a passagem inexorável do tempo e transmutar nossos medos perante o envelhecimento e a morte. Hécate nos ensina que o caminho que leva à visão sagrada e que inspira a renovação passa pela escuridão, o desapego e transmutação. Ela detém a chave que abre a porta dos mistérios e do lado oculto da psique; Sua tocha ilumina tanto as riquezas, quanto os terrores do inconsciente, que precisam ser reconhecidos e transmutados. Ela nos conduz pela escuridão e nos revela o caminho da renovação.
Porém, para receber Seus dons visionários, criativos ou proféticos precisamos mergulhar nas profundezas do nosso mundo interior, encarar o reflexo da Deusa Escura dentro de nós, honrando Seu poder e Lhe entregando a guarda do nosso inconsciente. Ao reconhecermos e integrarmos Sua presença em nós, Ela irá nos guiar nos processos psicológicos e espirituais e no eterno ciclo de morte e renovação. Porém, devemos sacrificar ou deixar morrer o velho, encarar e superar medos e limitações; somente assim poderemos flutuar sobre as escuras e revoltas águas dos nossos conflitos e lembranças dolorosas e emergir para o novo.
 
Mirella Faur    - Teia de Thea

Ártemis

 Ártemis, a Senhora da Natureza Selvagem

Amada Deusa arqueira,
Senhora da caça e dos animais selvagens,
que vigias no céu estrelado quando o Sol está adormecido,
cuja testa é adornada pelo crescente lunar,
que habitas nas florestas escuras com Teu séquito de ninfas,
a Ti Senhora e Mãe,
eu invoco para me fortalecer e proteger,
ao longo da minha vida como mulher ...
Hino para Ártemis de Virgilio (adaptado)

 
As imagens e mitos gregos mais recentes representam Ártemis como uma virgem assexuada, regente da lua crescente, perambulando pelas florestas com seu grupo de ninfas, evitando o contato com os homens e matando aqueles que espiavam sua intimidade. No entanto, esta é apenas uma das inúmeras identidades assumidas por esta misteriosa Deusa, uma síntese das energias multifacetadas da essência feminina.

A natureza de Ártemis é complexa e contraditória: ela é virgem, mas cuida e auxilia parturientes e crianças; é caçadora e ao mesmo tempo protetora dos animais, é guerreira e rainha das Amazonas, mas também é A Mãe dos Mil Seios, senhora da fertilidade. Simboliza a dualidade do bem e do mal, ora aparecendo como uma linda donzela, ora deusa vingativa, agindo como parteira amorosa ou feroz guerreira, protetora das crianças sem nunca ter sido mãe, cuidando da vida ou promovendo a morte.

A sua origem é remota, sendo a herdeira de Potnia Theron, a Senhora dos Animais da civilização neolítica, representada cercada de animais e alada, com desenhos de peixes e espirais na sua túnica, vistos como símbolos do fluxo de energia criativa. Originariamente, Ártemis era a Mãe da Floresta, invocada por caçadores e viajantes que eram por Ela protegidos, desde que eles não matassem fêmeas prenhas e filhotes, não caçassem por esporte ou distração, nem desperdiçassem recursos e riquezas naturais.

Ártemis foi reverenciada ao longo do tempo e do espaço, com diferentes atributos, nomes e rituais, mas permanecendo sempre Megale Ártemis, a Grande Deusa. Das montanhas de Anatólia, o habitat das tribos de Amazonas, seu culto espalhou-se para África, Sicilia, Europa, as ilhas gregas como Creta e Delos, até Trácia na Grécia, onde floresceu em Brauron com as iniciações e danças das meninas–ursas. Sua estátua como a Deusa dos Mil Seios, no templo de Éfeso (construído em 320 a.C.e destruído mil anos depois pelos godos), era uma das sete maravilhas do mundo antigo e simbolizava o instinto primal de gerar, viver e morrer, o poder verdadeiro da Grande Mãe, tanto a Nutridora quanto a Ceifadora da vida, chamada Proto Thronia, a primeira no trono.
No mito grego Ártemis aparece como filha de Zeus e Leto (que originariamente era uma deusa pré-grega chamada apenas “Nossa Senhora”), que tinha sido amaldiçoada pela Hera para não poder parir em nenhum lugar onde os raios solares incidissem. Leto foi ajudada pela sua irmã Asteria, que se transformou em uma ilha mágica, Ortigia, que flutuava sob a superfície do oceano e assim sendo, livre da maldição. Ártemis nasceu com facilidade, mas como seu irmão gêmeo custava a nascer e Leto sofria dores terríveis, Ártemis a ajudou trazer Apollo ao mundo. Foi assim que se originaram os nomes de Ártemis como Eileithya e Partenos, a Parteira amorosa e o título de “Aquela que trazia a luz”. A ilha mágica - renomeada Delos (“brilhante”) - foi consagrada a Ártemis e Apollo, sendo que lá nenhum ser humano podia nascer ou morrer.

Quando Ártemis completou três anos, foi apresentada ao seu pai e Zeus encantado com sua precocidade lhe ofereceu quaisquer presentes que ela quisesse. Ártemis pediu para jamais precisar casar (e assim permaneceu, sendo imune aos encantamentos de Afrodite e Eros), ter mais nomes do que seu irmão, mas ter arco e flechas como ele, poder usar sempre uma túnica curta para correr à vontade nos bosques, ter como companhia sessenta ninfas do oceano e trinta dos rios que cuidassem dos seus animais, reger a Lua e a luz (na sua qualidade de Phoebe, “a luminosa”), ter o domínio das montanhas e florestas e o direito de fazer sempre suas próprias escolhas.
Assim como Athena e Héstia, Ártemis era virgem, ou seja, tinha autonomia e independência, liberdade para agir seguindo seu instinto, jamais se submetendo ao domínio ou controle masculino. Ela prezava sua liberdade e defendia o Seu espaço, transformando os intrusos em animais, bem como protegia as crianças e animais recém nascidos com a ferocidade da ursa, que era o Seu animal totêmico (além do cão, veado, corça, lebre, javali, lobo, cavalo) e que a personificava como a Mãe Ursa.

Seus inúmeros títulos se referiam às Suas funções e domínios múltiplos, como regente das florestas, dos animais, caça, lagos, pântanos, rios, mares, campos, clareiras, madrugada, Lua, luz, partos, cura, proteção. Ela regia as fases da vida, as transições e dimensões das experiências femininas, (infância, adolescência, gravidez, amamentação, menopausa, solidão, morte), protegendo-as das ações ou interferências masculinas.

Eram três as grandes áreas regidas: a sobrevivência das espécies (fertilidade, reprodução e nascimentos), o controle do tempo, das águas e das marés e o ciclo de vida, destruição e morte (como caçadora ela mantinha o fluxo e o intercâmbio natural das energias), regendo também a lua negra e a noite, junto com Hécate. As matas, os bosques e campos pertenciam à Ártemis e às suas ninfas que moravam nas árvores, plantas, nascentes e rios, cuidando e protegendo tudo com amor e dedicação. A paixão e a virgindade são aspectos entrelaçados de forma estranha e profunda, assim como também é o habitat selvagem e longínquo, que resiste e reage à qualquer forma de violação.
De todas as deusas gregas, Ártemis é a mais próxima das mulheres, por isso é considerada sua Protetora por excelência, como comprovam as dezenas de títulos e atributos a Ela conferidos, distribuídos em várias áreas por eles regidos.

Aspectos da natureza: Agrea, da terra não cultivada, Aetole, dos ventos, Agrotera, da caça, Akrea, das colinas, Amarysia, que traz a chuva, Aphetura e Toxotis, as Arqueiras, Arkadia, das montanhas, Artio e Eleuthera, as Mães Ursas, Astrateia, das estrelas, Daphne, do louro, Diktina, da caça, Euploea, que traz bom tempo, Heleia, dos pântanos, Hemera, do anoitecer, Kypharissa, rainha dos ciprestes, Lakone, do lago, Lemnos, da terra, Kariathis, da nogueira, Kedrinos, do cedro, Lykaena, das lobas, Melissa, das abelhas, Skulakitis, protetora dos cães, Pythia, a serpente.
Protetoras dos partos: Amnius e Delphinia, guardiãs do ventre antes do nascimento, Argennis e Eileithya, auxiliam os partos difíceis, Eulochia, Eunumos, Genetaira e Orsilochia ajudam no parto, Genetyllis, protetora dos nascimentos, Kurotrophos e Paedotrophus, enfermeiras e “babás”, Hemeresia, que tranqüiliza, Locheia, a que cuida do sangue no parto, Mogostakia, ajuda diminuir as dores do parto, Oraia, protege os fetos, Paeonia, a curadora, Soodina, a salvadora nos partos difíceis.

Protetoras das mulheres: Alexeteira, a campeã nas competições, Alexiares, afasta as maldições, Alexibelemnos, protetora da vida, Angelos, mensageira, Aristoboulia e Boulephorus, conselheiras, Berekynthia, traz sabedoria, Brauronia e Philomeirax, protetoras das meninas, Britomartis, a doce donzela cretense, Despoena, a Senhora, Dynatera, a poderosa, Eleutho, a libertadora, Eulinos, a tecelã, Kalliste e Parthenia, lindas donzelas, Keladeina, que dá a boa voz, Kleito, das invocações, Kytheria, para esconder e proteger, Hegemone, da dança, Hiereia, a sacerdotisa, Iasoria , a curadora, Lathrios, dos segredos, Metapontina, guia e protege nas mudanças, Nikephoros, dá a vitória, Opis, do silêncio, Pamphylaia, providencia tudo, Pasikrateia, fortalece, Prothurea, fica na frente da porta, Progoneia, a ancestral, Polymastis, com muitos seios, Skiatis, das sombras, Thekla, a famosa, Themisto, do oráculo, Upis, a que vigia.
“Aquela que traz a luz”: Amphipyros, que leva a tocha, Delia, a Brilhante, Koryphasia, Donzela da luz, Leukione, a Branca Brilhante, Phoebe, a luminosa, Pyronia, guardiã do fogo, Selaphoros, que transmite a luz.

Nos seus cultos e festivais (como Mounichion, em abril em Athenas ou Nemoralia em agosto em Roma), celebrados nas noites de lua cheia eram acesas fogueiras e feitas procissões com tochas; as sacerdotisas apareciam em carruagens puxadas por cervos e traziam bolos cobertos com velas para as oferendas.Em Brauronia, onde tinha um templo dedicado a Ártemis, meninas pré-púberes vestidas com túnicas tingidas com açafrão e nomeadas de “ursinhas” eram iniciadas e preparadas para realizar danças ritualísticas imitando os movimentos das ursas. As sacerdotisas usavam máscaras de argila branca para representar a Lua e dançavam nas clareiras nas noites de lua cheia.
Muitas eram as lendas sobre as ninfas de Ártemis, as jovens que corriam junto com as corças e os cães nas florestas e se defendiam dos perseguidores com seus arcos e flechas como fazia a própria
Deusa. Muitas delas ao invocarem a proteção de Ártemis – quando ameaçadas pela violência ou cobiça masculina – eram transformadas em árvores ou animais, como Daphne que se tornou em louro (planta sagrada e oracular), Aretusa em uma fonte ou Atalanta em leoa. Ártemis matava os seus perseguidores como aconteceu com Orion e Acteon; também matou a serpente Python e o gigante Tithyus, que atormentavam sua mãe, sendo a única deusa que auxilia e defende a mãe.
Para as mulheres que seguem o Caminho da Deusa, Ártemis personifica o espírito feminino independente, que lhes possibilita estabelecer e defender seus próprios objetivos e escolhas, agindo com confiança e determinação, sem precisar da aprovação masculina. Sentindo-se completas em si e por elas mesmas, o arquétipo de Ártemis reencontrado e reavivado pelas mulheres modernas, lhes confere a habilidade de se concentrar naquilo que é importante, sem se perturbar com a competição, as exigências ou necessidades alheias. O enfoque nos objetivos e a perseverança facilitam a superação dos desafios e obstáculos, direcionando a vontade para alcançar o alvo estabelecido.
As metas do movimento feminista podem ser resumidas pelas qualidades de
Ártemis:empreendimento, independência, competência, compaixão (pelos oprimidos, crianças, mulheres, animais). A área dos interesses abrange uma gama variada como: defesa social, socorro às mulheres perseguidas, maltratadas ou abusadas, combate à pornografia e exploração infantil, punição dos estupros e incestos, o empenho para a divulgação e prática dos partos naturais com auxilio das parteiras, a conexão, o respeito e a gratidão permanente perante a natureza, as competições esportivas para jovens, atividades e preocupações ecológicas, solidariedade, parceria e irmandade entre as mulheres, o resgate dos valores e cultos lunares.

Os desafios representados pela exacerbação do arquétipo de Ártemis são: negação da vulnerabilidade própria, indiferença às necessidades alheias (frieza e crueldade com os homens e animais), hostilidade, raiva destrutiva, distanciamento emocional, falta de atenção, cuidados ou compaixão perante os outros, desvalorização das qualidades receptivas, nutridoras e protetoras femininas. A tarefa para retificar os excessos ou faltas deste arquétipo consta na identificação dos padrões positivos e negativos, reconhecendo e eliminando a auto-sabotagem, o alinhamento com os ciclos lunares e naturais, atividades físicas, interesse pela natureza, a definição do que precisa renovar, inovar, descartar, começar ou completar, a valorização da amizade com mulheres.

A sabedoria que Ártemis nos oferece nos dias de hoje é descobrir, defender e expressar a verdade e o poder pessoal, ter centramento e enfoque necessários para alcançar objetivos, complementar as polaridades internas e externas, ampliar os interesses saindo do micro e do individual para o macro e o global, unir razão e emoção, instinto e intuição, força e compaixão, rumo para a unificação e a total integração do ser.
 
                  

Anuket

 Anuket, a Deusa do múltiplo Abraço

“Tu és a Nutridora
Que nos alimenta e sacia a nossa sede;
Tu és a Criadora
De todas as coisas que sustentam a vida;
Tu és aquela que abraça
E cuida dos pobres e necessitados.”
Hino dedicado a Anuket

 
Na cultura egípcia, a reverência ao Sagrado Feminino remonta à era neolítica. A representação da criadora assumiu várias manifestações que podem ser sintetizadas na imagem da “Árvore da Vida”, que oferece, pelos seus frutos ou folhas, a água da vida, seja para a existência terrena, seja para a passagem da alma de uma dimensão para outra.
Inúmeras estatuetas de argila comprovam que a antiguidade dos cultos de diversas deusas remonta à uma época entre 5500 e 3300 anos a.C. Essas deusas eram cultuadas em seus templos, nos quais as funções sacerdotais e oraculares eram desempenhadas por mulheres. No Egito antigo, as mulheres desfrutavam de muita consideração e respeito, tendo um status elevado e sendo as transmissoras do nome e da propriedade para seus descendentes. As rainhas eram o elo entre uma dinastia e outra e a herança real seguia pela linhagem feminina. Somente muito tempo depois que o culto das deusas foi substituído pelo dos deuses, passando então o faraó a ser considerado a manifestação do próprio Deus.

Mesmo assim, Ísis continuou a ser cultuada até a conquista do Egito pelos Romanos. Vestígios de seus atributos, nomes, representações e santuários foram adotados pelo Cristianismo, na veneração de Maria.

Uma deusa egípcia menos conhecida é Anuket, a “personificação” da fonte do Rio Nilo, que nascia do seu ventre. Era representada com quatro braços – que simbolizavam a união dos princípios feminino e masculino – sendo ela “A Una”, nascida por ela mesma e, apesar de virgem, geradora do Deus Solar. Versões posteriores lhe atribuíram um consorte – Knemu - considerado o criador, casado com duas irmãs – Anuket e Satet - às quais ficou atribuída somente a regência das cataratas do Nilo.

No mito original, Anuket, “A que abraça”, gerava a vida e seu emblema era o búzio – símbolo universal do yoni, a vulva, usado em vários países como amuleto para a fertilidade, renascimento, cura, poder mágico ou boa sorte. Segundo algumas fontes, um dos seus nomes, Anka, “A Senhora da Vida”, deu origem à palavra ankh, “A Chave da Vida”, antigo símbolo feminino que representava o yoni da Deusa e a imortalidade dos deuses, assegurada pelo sangue divino da Deusa. Nos selos antigos, a parte ovalada da ankh era pintada em vermelho, enquanto a cruz fálica era branca. Mais tarde, a ankh ficou conhecida como “A Chave do Nilo”, reproduzindo a união mística de Ísis e Osíris, que provocava a inundação anual do rio que fertilizava as terras ribeirinhas.
Para as mulheres contemporâneas, o arquétipo de Anuket é um poderoso incentivo para que reconheçam sua capacidade inata de gerar e nutrir, não apenas aos outros, mas a si mesmas, bem como as múltiplas possibilidades existentes para sua realização sem, no entanto, quererem “abraçar o mundo com suas mãos”.
 
Mirella Faur  - Teia de Thea

Aine

 Aine, Deusa Solar Irlandesa, Rainha do Povo das Fadas

 
“O povo das fadas” (chamado em gaélico de Sidhe), conhecido das lendas e mitos celtas é remanescente dos primitivos povos pré-celtas, que habitavam as Ilhas Britânicas desde a Idade de Bronze. Eles eram descendentes dos Tuatha de Danann, o “Povo da deusa Danu”, misteriosos seres míticos de natureza sutil, que conquistaram a Irlanda após vencerem os primeiros colonizadores- Fir Bolg, e que depois foram vencidos pelos Milesianos. Com a mudança das crenças religiosas e espirituais, os Tuatha de Danann não mais recebiam a sustentação da sua egrégora pelo reconhecimento e a gratidão dos seres humanos perante os seus dons e se afastaram cada vez mais da dimensão material, tecendo um véu de invisibilidade ao redor do seu mundo. Para se protegerem da violência das guerras - sendo eles seres pacíficos - se retiraram para outra dimensão, sutil, a ilha mágica Tyr na n’Og, “A terra debaixo das águas”, situada no Oeste da Irlanda e invisível aos homens. Uma parte deles se refugiou nas montanhas, colinas, florestas e grutas e as repartiu entre si, sendo conhecidos como “O velho povo, Os bons vizinhos, O povo das colinas”, Fairy people ou Fay e suas moradas (barrows) nas colinas ou elevações de terra chamadas de side ou sidhe (pronuncia-se “chee”), nome que aos poucos passou a ser confundido com os próprios seres.
     
 A comprovação deste fato encontra-se na crença comum entre as diversas nações celtas sobre a existência de uma raça de seres sutis, obrigada pelas tribos invasoras a se retirar para o “Outro mundo”, descrito como uma dimensão subterrânea, dentro das colinas ou câmaras subterrâneas neolíticas (burial chamber), ou que tinham ido “além-mar”. Pelo fato que os Sidhe moravam nas câmaras subterrâneas – que eram usadas para o enterro dos reis - ao longo dos tempos eles passaram a serem confundidos com os espíritos ancestrais e denominados de Bean-sidhe ou Banshee, que anunciavam a morte de parentes e apareciam nas suas vigílias pranteando.
   
Os Sidhe eram formados por vários grupos ou ordens, distintas umas das outras, mas que funcionavam como uma coletividade. As terras ocupadas pelos seres feéricos foram chamadas de Fairyland, “a terra das fadas” e seus caminhos e trilhas, imbuídos de energia mágica e telúrica, ficaram conhecidos como ley lines, as linhas de energia da terra, sobre as quais não deveriam ser construídas edificações humanas sob o perigo de eclodirem acontecimentos estranhos ou perniciosos à saúde. Os locais sagrados dos sidhe eram marcados por círculos de pedras, de grama mais verde ou de cogumelos e deviam ser respeitados e evitados pelos seres humanos. No nível mágico, os Sidhe conheciam e manipulavam os poderes dos elementos e por isso, com o passar do tempo e o esquecimento da sua verdadeira origem e poder, eles foram reduzidos às figuras elementais com nomes diferentes em função do elemento em que habitavam ou regiam. Nos contos de fadas lhes foi atribuído o papel de “fadas madrinhas”, conselheiras e protetoras individuais.
   
Sidhe para os irlandeses representa o estado intermediário entre um mundo real e o sobrenatural, povoado por seres sutis, etéreos, dificilmente visíveis pelos seres humanos, devido às vibrações densas do mundo material. Com o advento do cristianismo e sua perseguição e proibição, eles esmaeceram na memória do povo, sendo denominados fadas, duendes e representações malignas do folclore, que viviam em outras dimensões entre o mundo material e espiritual. Contudo, seu fundamento psicológico nunca se perdeu e os mistérios ocultos nos contos de fadas e nas crenças populares conservam as reminiscências do antigo culto.
   
Aos poucos, as fadas ficaram restritas ao folclore anglo-saxão e celta, conhecidas como protetoras e guardiãs das árvores, flores ou jardins, confundindo-se depois com outras entidades sobrenaturais e, às vezes, sendo consideradas magas e feiticeiras. Foram descritos muitos tipos, desde as belas fadas das flores, árvores, lagos e rios, os simpáticos gnomos protetores das moradias, até as entidades perigosas com dentes pontiagudos e garras afiadas. Presentes em todas as formas e manifestações da natureza, as fadas fizeram parte das lendas e do folclore de vários países, mas nenhum povo como o irlandês conseguiu captar, conhecer e compreender tão bem os Fays, provavelmente por serem seus descendentes. O mundo feérico das fadas ainda vive nas crenças e rituais dos camponeses da Irlanda, País de Gales, Escócia, Inglaterra e Bretanha e conta-se que vários mortais tiveram contato com o povo das fadas, aprendendo delas a arte da poesia, música, dança, metalurgia, tecelagem, magia e cura. A Irlanda até hoje é habitada por duas raças: a visível, dos celtas, e a invisível dos Sidhe, mas que podia ser vista e “visitada” pelos clarividentes e magos. As divindades mais conhecidas, consideradas o “Rei” e a “Rainha das Fadas” são a deusa Aine (pronuncia-se Onyá ou Oine), a regente da fertilidade e o deus Gwynn Ap Nudd (pronuncia-se guin ap niid), o “Senhor do Outro Mundo”.
  
 Aine é uma deusa arcaica da Irlanda, originariamente uma deusa solar, soberana da luz, da fertilidade da terra e do amor, cujo nome significava “prazer, alegria, esplendor”, celebrada no Solstício de Verão e que sobreviveu às perseguições cristãs ao ser transformada nas lendas em uma “Fada Rainha”. Apesar de deusa tutelar da província de Munster do Sudeste da Irlanda, muito pouco foi preservado das suas lendas; mesmo assim o seu culto perdurou até o século 20 mas ela jamais foi santificada ou mencionada pela igreja cristã. Os costumes a ela associados continuaram até 1970, preservando sua autêntica essência pagã, os camponeses caminhando com tochas acesas pelos campos plantados invocando o calor e a luz de Aine para a abundância das colheitas. As mulheres idosas queimavam ervas aromáticas para purificar as casas e afastar as doenças.
   
Aine é irmã gêmea de Grian, a “Rainha dos Elfos” e também foi considerada como um dos aspectos da Deusa Mãe celta Ana, Anu, Danu ou Don. Grian e Aine alternavam-se na regência do ciclo solar na Roda do Ano, trocando de lugar a cada solstício. Aine foi mencionada pela primeira vez em 890-910 no dicionário Sanas Cormaic com explicações em latim da etimologia dos termos irlandeses. Mais tarde, apareceram menções no século XII no livro Táin Bó Cúailnge e no século XV em Cath Finntrágha sobre a relação da Deusa com os cairns e resquícios neolíticos encontrados em duas colinas, perto de Lough Gur, consagradas à Deusa, onde ainda hoje ocorrem ritos em honra à deusa Aine. Uma colina, a três milhas a sudoeste do lago é chamada Knockaine (em homenagem à deusa) e lá se encontra uma pedra que confere inspiração poética a seus devotos merecedores e leva à loucura àqueles que forem punidos pela falta de respeito com os lugares sagrados. Do topo da colina podem ser avistados inúmeros locais associados com seres míticos, detalhes topográficos do mito de Aine (como os castelos dos reis) e das batalhas reais entre conquistadores e nativos.
  
 Existem muitas controvérsias a respeito da sua origem, alguns pesquisadores a consideram filha de Eogabail, um rei dos seres míticos Tuatha de Dannan, que teria sido o filho adotivo do deus do mar Manannan Mac Lir, outras vezes como sendo esposa e algumas vezes filha dele. Como Rainha dos reinos encantados Aine pertencia aos Tuatha de Dannann e aos Sidhe e era conhecida como Lenan Sidhe, a amada ou Ain Cliar, a luminosa. Inúmeros lugares eram dedicados a Aine na Irlanda como Knoc Áine (Condado de Limerick), Tobar Áine (Condado de Tyrone), Dun Áine (Condado de Louth), Lios Áine (Condado de Derry). Com o nome de Aine Marine e Aine of Knockaine, ela é associada com Knoc Aine/Knockaine, a sua colina em Munster. Na literatura ela foi descrita como uma “Rainha das Fadas”, a mais famosa sendo Titânia, da peça “O sonho de uma noite de verão” de Shakespeare.
   
Assim como outras deusas celtas, Aine tem diversos aspectos associados a diferentes coisas e atributos, sendo regente do Sol, junto com suas irmãs Fenne e Grainne e também das fases lunares. Como deusa tríplice, sua face de Donzela era tanto generosa, quanto vingativa, recompensando os devotos com o presente da inspiração poética ou os punindo com a loucura, se tivesse sido ofendida ou menosprezada. Ela era invocada geralmente para ajudar, mas se fosse desrespeitada, a sua vingança não tardava. Como Mãe, era associada aos lagos e poços sagrados, cujos mananciais possuem poderes curativos, a fonte dedicada a ela Tobar-na-Aine era renomada pelos poderes curativos. A sua intensa sexualidade a tornou inimiga da igreja cristã, sendo vista como uma ameaça ao matrimônio e à castidade. Mesmo que o simbolismo relacionado com a Deusa Mãe tenha sido esquecido quase por completo desde que começaram os ritos cristãos nas igrejas, o ato de invocação da vida nunca enfraqueceu e ela era reverenciada como protetora da gravidez e das mulheres, punindo aqueles que as tivessem ofendido, agredido, perseguido ou violentado. Como Deusa Escura e regente do teixo, Aine era considerada a “Anciã de Knockaine”, caridosa com aqueles que lhe pediam ajuda, mas vingativa com quem a explorava pela má fé. Por ser uma deusa detentora do poder da vida e da morte, Aine podia aparecer para os homens como uma mulher sábia de rara beleza, qualificada como sidhe leannan, ou seja, “uma amante-fada-fatal” que exercia tal atração sobre os homens, que eles sucumbiam aos seus encantos e muitas vezes não sobreviviam. As mais dramáticas e poéticas histórias do folclore celta são as que relatam o amor entre mortais e os seres sobrenaturais, mas que não perduram devido a certos tabus, maldições, diferenças de vibrações e costumes.
 
Acredita-se que a “amante-fada-fatal” ainda se manifesta nos dias de hoje e quando escolhe um homem mortal, este está fadado à morte certa, pois esta é a única maneira viável para que os dois possam ficar juntos e concretizar seu grande amor.
  
 Existem muitas lendas sobre as escapadas amorosas de Aine, às vezes ela casava com jovens vigorosos e tinha filhos “encantados”, que dela recebiam o poder de ver o “Povo das Fadas” com a ajuda de um anel mágico. Quando ela se apaixonou pelo jovem e belo herói Fionn, ela jurou que jamais iria amar um homem com cabelos grisalhos. Mas uma das suas irmãs também amava Fionn e através de um encantamento conseguiu que seus cabelos ficassem grisalhos, mesmo ele continuando jovem. Fiel à sua geasa (promessa mágica) Aine afastou o herói. Segundo outra, entre tantas lendas, conta que Aine estava sentada nas margens do lago Lough Gur, penteando seus longos cabelos dourados, quando Gerold, o Conde de Desmond, a viu e sentindo-se fortemente atraído por ela, roubou-lhe o manto dourado e só o devolveu, quando ela concordou em casar-se com ele. Desta união nasceu Geroid Iarla ou Earl Gerald, denominado "O Mago"; após o nascimento do menino, Aine impôs ao Conde Desmond, um tabu que o impedia expressar surpresa a qualquer coisa que o filho fizesse. Entretanto, ele quebrou tal tabu, exclamando alto quando viu o filho entrando e saindo de um frasco, fato que desfez o encanto e Aine recuperou sua liberdade. Aine dirigiu-se para a colina de Knockaine, transformando-se em um cisne; dizem que é lá que ela ainda reside em seu castelo encantado, cercada por Fadas. Em outra versão, ela se recolheu na ilha Garrod no lago Lough Gur no condado de Limerick e Gerald depois transformou-se em um ganso selvagem que voou alto seguindo o rio Lough, encontrando repouso no castelo da mãe. Lough Gur era um antigo sitio sagrado pré-histórico, com reminiscências de câmaras subterrâneas, grutas e círculos de pedras do período neolítico ao seu redor, onde foram encontrados restos de oferendas votivas e grãos.
  
 Outra lenda descreve como Gerald vivia abaixo das águas do lago, de onde saia cada sete anos cavalgando ao redor do lago até gastar as ferraduras de prata do seu cavalo, dia em que ele voltará para expulsar estrangeiros e malfeitores da Irlanda. Dizia-se também que de sete em sete anos ele emergia das águas como um fantasma montado em um cavalo branco; o lago sumia dentro da terra aparecendo no seu lugar uma árvore sobrenatural, coberta com tecidos verdes e guardada por uma anciã, que tinha o poder de elevar as águas do lago se a árvore corresse perigo.
   
Em outra lenda, o rei Ailill matou Egbal, o pai de Aine e a violentou, mas ela relutou e arrancou sua orelha, o que lhe ocasionou o apelido de Ailill-sem-orelha. Aine jurou se vingar e após um tempo, Ailill foi morto por ela com uma poderosa magia, da mesma forma como se vingou de outro rei, que também a ofendeu. Seu filho Egan - que nasceu após ela ser violentada por Aillil - se tornou rei de Munster e fundador de uma famosa dinastia. Muitas famílias de Munster com o sobrenome de O'Corra ainda acreditam que são descendentes de Aine, por eles venerada como a melhor e mais bondosa deusa. Existem muitas situações que se repetem ao longo da história celta, em que uma deusa ou rainha é violentada e conquistada por um rei, simbolizando o domínio dos invasores sobre a população nativa e a decorrente vingança da terra quando maltratada ou destruída. Em todas estas lendas percebe-se como a determinação, engenhosidade e paciência de Aine ou de outras deusas ou rainhas, as ajudaram se libertar das imposições patriarcais.
   
Aine tinha o poder de metamorfose, se transformando tanto em um cisne branco, quanto em uma égua vermelha de nome Lair Derg, e que ninguém conseguia alcançá-la. Acreditava-se que na noite do Solstício de Verão, moças virgens, que pernoitassem na colina de Knockaine, poderiam ver a Rainha das Fadas passando com toda a sua comitiva. O mundo das fadas só se tornava visível pelos portais mágicos, chamados “anéis de fada”, círculos marcados na grama ou no meio de árvores, que eram indicados pela própria Aine. Uma gruta de Knockaddon supunha-se ser ligada a Tir na n’og (o
 
“Outro Mundo” celta) e de lá Aine chegava no Lammas para dar à luz a um feixe de grãos, o seu filho Eithne (o termo gaélico para grãos). Três dias no ano eram dedicados à ela: a primeira sexta-feira, sábado e domingo após o Sabbat de Lammas. Era nestes dias que ela retornava como uma mulher sábia, que ensinava aos homens como caminhar em união e amor sobre a terra, domínio da sua mãe, a deusa Danu. No Sabbat Samhain dizia-se que Aine saia das suas colinas cavalgando um touro vermelho e era reverenciada com fogueiras acesas em todas as colinas sagradas. Sendo associada com os Sabbats, Aine podia se manifestar como a Donzela da primavera, a Mãe das colheitas e a Anciã do mundo subterrâneo. Como Donzela aparecia também como uma sereia, que penteava seus longos cabelos com um pente de ouro na margem do lago, continuando a fazer isso até o pente ia ser gasto e seu cabelos ficando brancos. Nos dias dedicados a Aine era proibido derramar sangue, para que a centelha vital não se esvaísse do corpo de outros animais ou doentes. Às vezes ela era vista numa barco junto com seu pai Manannan ajudando os marinheiros perdidos. Durante a grande fome ocasionada pela crise irlandesa das batatas, Aine aparecia no topo da sua colina entregando comida para os famintos.
  
 Aine era invocada no Solstício de verão na colina de Knockaine para ritos de amor, fertilidade e abundância das colheitas, prosperidade das pessoas, separações e desfechos dolorosos nas relações amorosas. Ela ampliava a visão e podia facilitar o contato com o mundo das Fadas, potencializando os poderes mágicos e extrassensoriais. Os camponeses saiam em procissão após acenderem as fogueiras na sua colina e caminhavam pelos campos com tochas acesas, feitas com feixes de palhas e ervas solares amarrados em postes. Eles purificavam os campos e o gado com as chamas, pedindo proteção e fertilidade e esperavam que Aine e os Sidhe aparecessem para eles, abrindo um portal para o Outro Mundo. As cinzas das fogueiras eram espalhadas depois nos campos para atrair fertilidade. Nas noites de lua cheia, os doentes eram levados para se banharem no Lough Gur; se até o nono dia eles não se curavam, as pessoas sabiam que em breve iriam ouvir o canto das ancestrais Banshee, prenunciando-lhes um sono profundo e sem dor, durante qual iam passar para o reino dos Sidhe. Após a sua passagem, havia uma vigília prolongada, quando os familiares se reuniam entoando os cantos de lamento chamados keenings, dádiva das banshees.
  
 As mulheres idosas honram ainda Aine no Samhain e Litha e queimam ervas aromáticas para purificar as casas e afastar as doenças. Elas acreditam que foi Aine que impregnou o aroma nas flores e frutos e que seu brilho aquece os corpos e ilumina as almas. Apesar da sua memoria ter se perdido na bruma dos tempos, os velhos costumes e tradições guardados no folclore são resgatados por pesquisadores e adeptos atuais das tradições celtas. Cada ano, um número maior de pessoas se reúne no solstício de verão na colina Knockaine, saúda o nascer do sol e homenageia Aine, “A Brilhante” com canções, orações e oferendas de flores, grãos e leite.
 
  A mensagem que Aine traz para as mulheres atuais é acreditar no seu próprio poder, firme e forte, mas envolto na cor diáfana da suavidade amorosa. Ela nutre o corpo e o espírito com calor e luz, sendo protetora da natureza vegetal, animal e humana. Aine confere fertilidade física, mental e espiritual, apoia e incentiva o alcance dos sonhos e ambições com palavras que poderiam ser resumidas nesta frase: ”arrisque-se e coloque o desejo do seu coração em ação!”. Mesmo quando os planos iniciais não se concretizaram, a mulher deve seguir adiante, com coragem e confiança, sem permitir que opiniões e movimentos alheios impeçam a busca dos seus objetivos. Ficar parada ou lamentar perdas e fracassos não leva a nada e o tempo passa sem perceber, deixando para trás lamentos, remorsos e inação. São as perdas e fracassos do passado que nos ensinam a viver melhor, não se pode julgar uma decisão passada com o discernimento do presente, pois as decisões são tomadas com a consciência do momento. É importante saber qual é a missão que a mulher veio realizar no mundo e se empenhar para cumpri-la, com todas as suas forças. “Confiar, se preparar e agir” é o legado deixado por Aine para as mulheres; após ter refletido, tomado uma decisão e estabelecido um plano de ação, deve ser dado inicio ao caminho escolhido, com pequenos e cautelosos passos, sem parar, titubear ou recuar. Com a ajuda de Aine, as mulheres podem resgatar, diversificar e expressar o ilimitado potencial da natureza e essência feminina.
   
Aine pode ser invocada em ritos de amor, fertilidade, na gravidez, magia natural com a ajuda das fadas, abundância, prosperidade, separação dolorosa, para punir traições e ofensas das mulheres por homens, quebras de promessas e exploração da terra. Ela amplia nossa visão e pode facilitar o contato com os mundos sutis; por dominar as artes mágicas, Aine auxilia a potencializar os dons mágicos e extrassensoriais, sendo-lhe atribuído o poder da energia vital, a centelha sagrada que sustenta os seres vivos.
   
Seus símbolos mágicos são: égua vermelha, lebre, gado, ganso selvagem, cisne, plantações férteis, bastão, sinos, flores, trevo de três folhas, madressilva, angélica, amoras, sabugueiro, linho, alho, artemísia, lavanda, urtiga, hera, visco, azevinho, bétula, freixo, teixo, carvalho, fitas multicoloridas e harpa.
 
A seguir algumas invocações tradicionais para Aine:
 
Senhora das Colinas, Filha do mar, Rainha radiante das Fadas,
Linda Aine Brilhante, Aine Chlair, que rege o calor do verão,
Venha a nós, estenda teu manto dourado e nos abençoe.
Deusa que ilumina os caminhos e orienta nossos passos
Traga alegria e harmonia para nossos corações,
Lavaremos nossos rostos com nove raios do sol
Encontraremos a paz envoltas pelo manto dourado de Aine,
Seremos abençoados ao acordar e quando deitar.
Durante o dia e à noite, quando chegarmos e sairmos,
A luz estará na nossa frente, atrás de nós, dentro de nós e fora de nós,
Pois o manto dourado de Aine Cil sempre nos envolverá.
Senhora da Luz, nós te louvamos,
Te reverenciamos e sempre respeitaremos o teu legado!

 
Aine, Grande Deusa da Irlanda
Deusa da Lua, do amor
Encorajadora da paixão no coração dos homens
Invoco o teu poder, vem até mim
Rainha das Fadas de Munster
Tu que governas a agricultura, a fertilidade, as colheitas e os animais
Sol dourado que se transforma em Lair Derg,
A égua vermelha que ninguém pode domar,
Me ensina teus mistérios, compartilha comigo tua sabedoria
Tu que és a Mãe, mostrando tua face curadora nos lagos e fontes
Tu que és a Anciã, Leannan Sidhe, que aparece aos mortais com tua grande beleza
Para levá-los ao Outro Mundo.

  
 Eu te invoco Aine, Grande Mãe
Toque a cabeça dos meus filhos para crescerem fortes
Deixe teu pó dourado cobrir meus lábios
Para atrair os beijos do meu amado
Pare a mão daqueles que cortam as árvores,
Ajude-os a descobrir como tornar a terra verde
Fortalece a mão de quem planta sementes
Nos campos e terras áridas.
Ajuda as flores a se transformarem em frutos
Que sejam degustados por todos com gratidão por Ti
Faça ouvir teu canto suave até os cantos remotos da Terra
Nutra as águas da minha alma
Toque-me com Tua sabedoria
Ao despertar em cada dia
Para que a luz do teu brilho
Desperte a minha luz interior
Abençoada sejas
Aine Deusa dourada!
 
Mirella Faur - Teia de Thea