sábado, 20 de outubro de 2012

A Iniciação ao Primeiro Grau da Bruxaria


Formalmente a iniciação de primeiro grau torna-a uma bruxa(o) comum. Mas é claro que é um pouco mais complicado que isso.

Como todos os bruxos experientes, existem algumas pessoas que são bruxas (ou bruxos) de nascimento muitas vezes podem tê-lo sido desde uma encarnação passada. Uma boa Sumo-Sacerdotisa ou Sumo-Sacerdote costuma detectá-las. Iniciar um destes bruxos não é "fazer uma bruxa"; é muito mais um gesto bi-direccional de identificação e reconhecimento e claro, um Ritual de boas-vindas de uma mais-valia de peso ao Coventículo.

No outro extremo, existem os que são mais lentos ou menos aptos muitas vezes boas pessoas, sinceras e trabalhadoras que o iniciador sabe que têm um longo longo caminho a percorrer, e provavelmente muitos obstáculos e condições adversas a ultrapassar, antes de se poderem chamar verdadeiros bruxos. Mas mesmo para estes, a Iniciação não é um mero formalismo, se o iniciador conhecer a sua Arte. Pode dar-lhes uma sensação de integração, um sentimento que um importante marco foi ultrapassado; e apenas por lhes atribuir a qualidade de candidato, (apesar de não parecer terem qualquer dom), o direito de se auto-denominarem bruxos, encoraja-os a trabalhar arduamente para merecerem esta qualidade. E alguns menos aptos podem tomá-lo de surpresa com uma aceleração súbita no seu desenvolvimento após a iniciação; então saberão que a iniciação resultou.

No meio, encontra-se a maioria; os candidatos de potencial médio e forte capacidade de evolução que, se apercebem de uma forma mais ou menos clara que a Wicca é o caminho que têm procurado e porquê, mas que ainda estão no início da exploração das suas capacidades. Para estes, uma Iniciação bem conduzida pode ser uma experiência poderosa e incentivante, um genuíno salto dialéctico no seu desenvolvimento psíquico e emocional. Um bom iniciador tudo fará para que isso aconteça.

Na verdade, o iniciador não está sozinho na sua tarefa (e não nos estamos apenas a referir ao apoio de algum companheiro ou dos outros membros do Coventículo). Uma Iniciação é um Ritual Mágico, que evoca poderes e deve ser conduzido com a confiança plena que esses poderes invocados se irão manifestar.

Toda a iniciação, em qualquer religião genuína, é uma morte e renascimento simbólicos, suportados de forma consciente. No Ritual Wicca este processo é simbolizado pela venda e amarração, o desafio, a provação aceite, a remoção final da venda e das amarras é a consagração de uma nova vida. O iniciador deve manter este objectivo claro na sua mente e concentrar-se nele, e o Ritual em si deve provocar a mesma sensação na mente do candidato.

Em séculos mais remotos a imagem de morte e ressurreição era sem dúvida ainda mais notória e explícita e provavelmente desenrolava-se ainda com muito menos palavras. A famosa bruxa de Sheffield, Patricia Crowther, refere até que ponto ela teve esta experiência durante a sua Iniciação por Gerald Gardner. O Ritual era Gardneriano normal, basicamente da mesma forma que o descrevemos nesta secção, mas antes do Juramento, Gardner ajoelhou-se ao seu lado e meditou durante um bocado. Patricia enquanto esperava entrou subitamente em transe (que veio a descobrir mais tarde ter durado 40 minutos) ao que parece recordou uma reencarnação passada. Ela viu-se a ser transportada por um grupo de mulheres nuas numa procissão de archotes que se dirigia para uma caverna. Elas saíram, deixando-a aterrorizada no meio da escuridão absoluta. Gradualmente conquistou o seu medo, acalmou e no devido tempo as mulheres voltaram. Ficaram em linha com as pernas abertas e ordenaram-lhe que passasse, amarrada como estava, através de um túnel de pernas que se assemelhavam a uma vagina, enquanto que as mulheres uivavam e gritavam como se tivessem a ter um filho. Enquanto ela passava, foi puxada pelos pés e as amarras foram cortadas. A líder encarando-a "ofereceu-me os seus seios, simbolizando que me iria proteger como ela o faria aos seus próprios filhos. O corte das amarras simbolizava o corte do cordão umbilical". Ela teve que beijar os seios que lhe foram oferecidos, tendo sido depois salpicada com água ao mesmo tempo que lhe diziam que tinha renascido no sacerdócio dos Mistérios da Lua.

Gardner comentou, quando ela voltou à consciência: "durante muito tempo eu tive a ideia que se costumava fazer algo como aquilo que tinhas descrito e agora sei que não estava longe da verdade. Deve ter acontecido há séculos atrás, muito antes dos rituais verbais terem sido adoptados pela Arte."

A morte e o renascimento com todos os seus terrores e promessas, dificilmente poderia ser muito dramatizado; e temos a sensação que a recordação de Patricia era genuína. Ela obviamente é uma bruxa nata de há muito tempo atrás.

Mas vamos retornar ao Ritual Gardneriano. Para este efeito não tínhamos apenas três textos mas quatro; somados aos textos A, B e C (ver pág. 3?) existe a obra de Gardner denominada High Magic's Aid. Esta obra foi publicada em 1941, antes da cessação da lei Witchcraft Acts na Inglaterra e, antes dos seus livros Witchcraft Today (1954) e The Meaning of Witchcraft (1959). Neste, Gardner revelou pela primeira vez em ficção algum do material que tinha aprendido com o seu Coventículo. No Capítulo XVII a bruxa Morven faz o herói Jan atravessar a sua iniciação do 1º Grau e o Ritual é descrito em detalhe. Pensamos que essa descrição foi muito útil para a clarificação de um ou dois pontos obscuros, por exemplo, a ordem de "os pés nem estarem amarrados nem livres", que conhecíamos da nossa própria Iniciação Alexandrina, mas suspeitávamos estar deslocada. (5).

O Ritual de 1º Grau, provavelmente foi alterado pelo menos à data em que o Livro das Sombras, atingiu a fase do texto C. Isto acontece porque de entre o material incompleto na posse do Coventículo de New Forest teria sido naturalmente a parte que sobreviveu mais completa na sua forma original. Gerald Gardner não teria necessidade de preencher as falhas com material Crowleiano ou outro material não wiccano e desta forma Doreen Valiente não teve que sugerir o tipo de transcrição que era necessário "por exemplo para o da energia exortação".

Na prática wiccana, um homem é sempre iniciado por uma mulher e uma mulher por um homem. E apenas uma bruxa de 2º ou 3º Grau pode conduzir uma Iniciação. Existe uma excepção especial a cada destas regras.

A primeira excepção, uma mulher pode iniciar a sua filha ou um homem o seu filho, "porque são parte deles". Alex Sanders ensinou-nos que isto poderia ser feito numa emergência, mas o Livro das Sombras de Gardner não apresenta esta restrição.

A outra excepção, refere-se a única situação em que uma bruxa(o) de 1º Grau (e uma totalmente nova), pode iniciar outra. A Wicca põe grande ênfase na parceria de trabalho homem/mulher e muitos Coventículos ficam deliciados quando um casal avança para a Iniciação juntos. Um método muito agradável de levar a cabo uma dupla Iniciação como esta, é exemplificado pelo caso de Patricia e Arnold Crowther (que na altura ainda eram casados) por Gerald Gardner.

Gardner, começou por Iniciar Patricia enquanto Arnold esperava fora do quarto, então ele pôs o Livro das Sombras nas mãos dela incitando-a enquanto ela própria iniciava Arnold. "Esta é a forma que sempre foi feita", disse-lhe Gardner mas temos que admitir que esta forma era desconhecida para nós até lermos o livro de Patricia.

Gostamos desta fórmula; cria uma ligação especial, no sentido wiccano da palavra, entre os dois Iniciados desde o princípio no trabalho do Coventículo. Doreen Valiente confirmou-nos que esta era a prática frequente de Gardner, e acrescenta: "De outra forma, no entanto, mantinhamos a regra que apenas um bruxo de 2º ou 3º Grau poderia fazer uma Iniciação".

Gostavamos de mencionar aqui duas diferenças "para além dos pequenos pontos que se notam no texto", entre o Ritual de Iniciação Alexandrino e o Gardneriano, este último temos tomado como modelo. Não mencionámos estas diferenças com algum espírito sectário todos os Coventículos vão e devem fazer o que sentem melhor para eles mas apenas para registar qual é qual e expressar as nossas próprias preferências, aquelas que nos servem de modelo.

Primeiro, o método de trazer o Postulante para o Círculo. Na tradição Gardneriana ele é empurrado para o Círculo, por trás; depois da declaração do Iniciador, "Eu dou-te uma terceira para passares através desta Porta do Mistério", ele apenas acrescenta de forma misteriosa "dá-lhe".

O livro High Magic's Aid é mais específico: "Abraçando-o por trás com o seu braço esquerdo à volta da cintura e põe o braço direito dele à volta do seu pescoço e vira-se para ela e diz: "Eu dou-te a terceira senha; "Um beijo". Ao dizer isso, ela empurra-o com o seu corpo através da porta para dentro do Círculo. Uma vez lá dentro ela liberta-o, segredando: "Esta é a forma que todos são trazidos pela primeira vez para o Círculo" (High Magic's Aid, pág. 292).

É claro que, o acto de pôr o braço direito do Iniciador à volta do pescoço não é possível se os pulsos destes estiverem amarrados; e rodar a sua cabeça com a sua mão para o beijar sobre o ombro, é quase impossível se ele for muito mais alto que ela. Esta é a razão por que sugerimos que ela o beije antes de passar por detrás dele. É o acto de empurrar por trás que é a tradição essencial; por certo que o Coventículo de Gardner sempre o fez.

"Penso que a intenção original era ser uma espécie de teste", diz-nos Patricia, "porque alguém podia perguntar, como no High Magic's Aid, quem te trouxe para um Círculo?" a resposta era "Eles trouxeram-me por trás".

A prática Alexandrina era segurar os ombros do iniciado à sua frente, beijá-lo e então puxá-lo para dentro do Círculo, rodando-o em sentido deosil. Esta foi a forma como fomos os dois Iniciados e não nos sentimos pior por isso.

Mas não vemos nenhuma razão, agora, para partir da tradição original especialmente porque ela tem um interesse histórico inerente; por isso, viramo-nos para o método Gardneriano.

Quando Stewart visitou o Museu das Bruxas na Ilha de Man em 1972 (à data aos cuidados de Monique Wilson, a quem Gardner deixou a sua colecção insubstituível que ela mais tarde de forma imperdoável vendeu à América), Monique disse-lhe que como não tinha sido empurrado por trás para dentro do Círculo na sua Iniciação, "nenhuma verdadeira bruxa se associaria a ele". Então ela ofereceu-se para o iniciar "da forma devida". O Stewart agradeceu-lhe educadamente mas declinou o convite. As precauções e os formalismos poderiam ter um fundamento válido nos tempos das perseguições; insistir no assunto agora é mero sectarismo.

O segundo maior afastamento Alexandrino da Tradição reside no acto de tirar as medidas. Os Coventículos Gardnerianos retém a medida; os Alexandrinos da Tradição devolvem-nas ao Postulante.

No Ritual Alexandrino, a medida é tirada com um fio vermelho de linho, não composto, apenas da coroa aos calcanhares, omitindo as medidas da cabeça, peito e ancas. O Iniciador diz: "Agora vamos tirar-te as medidas e medimos-te da coroa da tua cabeça até às solas dos teus pés. Nos tempos antigos, quando ao tirarem a tua medida também retiravam amostras do cabelo e unhas do teu corpo. O Coventículo guardaria então a medida e as amostras e se tentasses sair do Coventículo trabalhariam com eles para te trazer de volta e nunca mais de lá sairias. Mas como vieste para o nosso Círculo com duas expressões perfeitas, Amor Perfeito e Confiança Perfeita, devolvemos-te a medida, e ordenamos-te que a uses no teu braço esquerdo".

A medida é atada à volta do braço esquerdo do Postulante até ao fim do Ritual, depois do qual, poderá fazer aquilo que entender com ela. A maior parte dos Iniciados destroem-nos, outros guardam-nos como recordação, outros põe-nos em medalhões e dão-nos de presentes aos seus companheiros de trabalho.

O simbolismo do "Amor e Confiança" no costume Alexandrino é claro, e alguns Coventículos podem preferi-lo. Mas sentimos que há ainda mais a dizer acerca do Coventículo guardar a medida, não como chantagem, mas como uma lembrança simbólica da nova responsabilidade do Iniciado perante o Coventículo. De outra forma não parece fazer sentido algum tirá-la.

Doreen diz-nos: "A ideia de devolver a medida é, na minha opinião, uma inovação de Sanders. Na tradição de Gerald, era sempre retida pelo Iniciador. Nunca, no entanto, existia alguma intenção que a medida fosse utilizada na forma chantagista descrita no Ritual Alexandrino. Ao invés, se alguém quisesse sair do Coventículo, eram livres de o fazer, desde que respeitassem da confiança dos outros membros e mantivessem os Segredos. Afinal de contas, qual é a lógica de manter alguém no Coventículo contra a sua vontade? As suas más vibrações só estragariam tudo. Mas nos tempos antigos a medida era usada contra qualquer pessoa que deliberada e maliciosamente traísse os Segredos. Gerald disse-me que "a medida era então enterrada num local lamacento, com a maldição de que apodrecesse, assim como o traidor". Lembrem-se, traição naqueles tempos era uma questão de vida ou de morte literalmente!"

Sublinhamos de novo perspectivas das diferenças em detalhe, podem ser fortemente mantidas, mas no final é a decisão do Coventículo que interessa quanto a uma forma particular, ou até em encontrar uma forma própria. A validade de uma Iniciação não depende nunca dos pormenores. Depende apenas, da sinceridade e efectividade psíquica, espiritual do Coventículo, e da sinceridade e potencial psíquico do Iniciado. É como diz a Deusa na Exortação: "E aquele que pensa em procurar-me, saiba que procurar apenas e ter compaixão não o ajudará, a menos que conheça o Segredo: que aquilo que não procure e não encontre dentro dele, então nunca o encontrará sem ele. Para verem, eu tenho estado contigo desde o Início; E Eu sou aquilo que se alcança no fim do desejo".

Dar importância demasiado aos pormenores tem sido, infelizmente, a doença de muitas doutrinas cristãs, incluindo aquelas que tinham as suas origens na beleza; os bruxos não devem cair na mesma armadilha. Somos tentados a dizer que as doutrinas deviam ser escritas por poetas e não por teólogos.

Uma palavra para os nomes Cernunnos e Aradia, os nomes de Deuses usados no Livro das Sombras de Gardner. Aradia, foi adoptada dos bruxos da Toscânia (ver o livro de Charles G. Leland, Aradia, O Evangelho do Bruxos); sobre as suas possíveis ligações celtas, ver o nosso livro Oito Sabbats para Bruxas, p. 84. Cernunnos (ou como lhe chama Jean Markale no seu Mulheres Celtas, Cerunnos) é o nome dado pelos arqueólogos ao Deus Cornudo celta, porque não obstante terem sido encontradas muitas representações deste, em todo o lado desde o Caldeirão Gundestrop até ao monte Tara (ver fotografia 10), apenas uma destas tem um nome inscrito um baixo relevo encontrado em 1710 na Igreja de Notre Dame em Paris, que se encontra agora no Museu de Cluny na mesma cidade. O sufixo "-os"sugere ter sido uma helenização de um nome celta; os druidas são conhecidos por serem familiares com o grego e terem usado este alfabeto para as suas transacções em assuntos vulgares, apesar neste caso as letras actuais serem romanas. Note-se também que o grego para "corno" é (Keras). Doreen Valiente sugere (e concordamos com ela) era na verdade Herne (como em Herne o Caçador, do Windsor Great Park). "Alguma vez ouviram o choro de um Veado (Fallow deer) no cio?" pergunta ela. "Ouvirão sempre durante o cio outonal do Veado na New Forest, e soa exactamente como "HERR-NN... Herr-rr-nn..." repetido vezes sem conta. É um som emocionante e nunca o esqueceremos. Agora, das pinturas rupestres em grutas e estátuas que encontramos dele, Cernunnos era eminentemente um Deus-Veado. Então como é que os mortais o denominaram melhor? Certamente pelo som que da forma mais intensa lembra um dos grandes Veados da Floresta".

Para cada um deles podemos acrescentar que o intercâmbio dos sons "h" e "k" é sugerido pelos nomes de lugares como Abbas em Donset, local do famoso Gigante de Hillside. Existe um número razoável de lugares denominados Herne Hill em Inglaterra, bem como duas Herne Villages, uma Herne Bay, uma Herne Drove, uma Hernebridge, uma Herne Armour, uma Herne Pound, e por aí fora. Herne Hill é algumas vezes explicado como significando "Monte da Garça" mas, como Doreen explica, as garças procriam junto aos rios e lagos e não em montes; "parece mais provável para mim que Herne Hill era sagrado para o Velho Deus".

No Livro Alexandrino das Sombras, o nome é "Karnayna" mas esta forma não surge em mais nenhum local, que quer eu quer a Doreen tenhamos visto. Ela pensa que "é provavelmente não concerteza uma confusão auditiva com Cernunnos. O nome actual pode ter sido omitido no livro de onde Alex copiou, e ele teve que se apoiar numa recordação verbal de alguém". (conhecendo o Alex, diriamos "quase de certeza"!)

No texto que se segue, o Iniciador pode ser a Sumo-Sacerdotisa ou o Sumo-Sacerdote, dependendo se o Iniciado for homem ou mulher; assim, referimo-nos ao Iniciador como "ela" por uma questão de simplicidade, e ao "Postulante" (mais tarde "Iniciado") como "ele" apesar de poder ser ao contrário, obviamente. O companheiro de trabalho do Iniciador, quer seja Sumo-Sacerdotisa ou o Sumo-Sacerdote, tem certamente também deveres a desempenhar, e é referido como o "Companheiro".

A Preparação

Tudo é preparado como para um Círculo normal, com os itens adicionais seguintes também preparados:

Uma venda;

Uma distância de fio ou corda fina (pelo menos 2,50m);

Óleo de unção;

Um pequeno sino de mão;

Três comprimentos de corda vermelha: uma com 2,75m e duas com 1,45m.

Também é usual, mas não essencial, que o Postulante traga o seu próprio novo Athame, e corda vermelha, branca e azul para serem consagradas imediatamente após a sua Iniciação(1). Devem dizer-lhe, logo que saiba que vai ser Iniciado, que tem de adquirir qualquer faca de cabo preto com que se identifique. A maior parte das pessoas compra um punhal com bainha vulgar (a bainha é útil, para transportá-lo de e para o local de encontro) e pintam o cabo de preto (se já não for, claro). Pode não haver tempo para ele gravar os Símbolos tradicionais no cabo (ver Secção XXIV) antes de ser consagrado; isto pode ser feito mais tarde nos tempos livres. Alguns bruxos nunca chegam a inscrever quaisquer Símbolos, preferindo a Tradição alternativa, que diz que os instrumentos de trabalho não devem ser identificáveis como tal para algum estranho(2); ou porque o padrão do cabo do punhal escolhido não permite gravações. (O Athame do Stewart, agora com 12 anos, tem os Símbolos inscritos; o de Janet, com a mesma idade mas com um cabo com padrão, não tem; e temos outro Athame feito à mão por um artesão amigo que tem um cabo de pé de Veado que obviamente não dá para gravar). Sugerimos que as lâminas dos Athames sejam cegas, uma vez que nunca são usadas para cortar seja o que for mas são usadas para gestos rituais no que pode ser um Círculo apertado e populoso:

As três cordas que o iniciado tem que trazer devem ter 2,75m de comprimento cada. Gostamos de evitar que as pontes das cordas se desfaçam usando fita ou atando-as com fio da mesma cor. No entanto, Doreen diz: "Atamos nós às pontas para evitar que se soltem e a medida essencial calcula-se de nó em nó."

Também se lhe deve dizer para levar a sua própria garrafa de vinho tinto até para lhe dar a entender logo de princípio que as despesas de comida e bebida para o Coventículo, quer seja vinho para o Círculo ou alguma comida para antes ou depois do Círculo, não devem cair inteiramente para a Sumo-Sacerdotisa ou o Sumo-Sacerdote!

Quanto aos itens adicionais listados em cima qualquer lenço servirá para utilizar como venda, mas deve ser opaco. E a escolha do óleo de unção cabe à Sumo-Sacerdotisa; o Coventículo de Gardner usava sempre Azeite virgem. O costume Alexandrino diz que o óleo deveria incluir um toque do suor da Sumo-Sacerdotisa e do Sumo-Sacerdote.

O Ritual

Antes do Círculo ser fechado, o Postulante é posto fora do Círculo a Nordeste, vendado e amarrado, por bruxos do sexo oposto. O acto de atar é feito com as três cordas vermelhas(3) - uma com 2,75m e as outras duas com 1,45m. A corda maior é dobrada ao meio para os pulsos serem amarrados juntos atrás das costas e as duas pontas são trazidas para a frente por cima dos ombros e atadas em frente ao pescoço, com as pontas caídas a formar uma pega por onde o Postulante pode ser dirigido(4). Uma corda pequena é atada no tornozelo direito e a outra por cima do joelho esquerdo cada uma com as pontas bem escondidas para que o não magoem. Enquanto se estiver a corda no tornozelo, o Iniciador diz:

"Pés nem presos nem livres."(5)

O Círculo está agora aberto, e o Ritual de Abertura procede como normalmente, exceptuando o "Portão" a Nordeste que não está ainda fechado e o exortação não ter sido dita. Depois do Atrair a Lua(6), o Iniciador dá a Cruz Cabalística(7), como se segue: "Ateh" (tocando na testa), "Malkuth" (tocando no peito), "ve-Geburah" (tocando no ombro direito), "ve-Gedulah" (tocando o ombro esquerdo), "le-olam" (apertando as mãos à altura do peito).

Depois das Runas das Feiticeiras, o Iniciador vai buscar a Espada (ou Athame) ao Altar. Ela e o Companheiro encaram o Postulante.

Então eles declamam o exortação (ver apêndice B, pp. 297-8).

O Iniciador então diz:

"Ó tu que estás na fronteira entre o agradável mundo dos homens e os Domínios Misteriosos do Senhor dos Espaços, tens tu a coragem de fazer o teste?"

O Iniciador coloca a ponta da Espada (ou Athame) contra o coração do Postulante e continua:

"Porque digo verdadeiramente, é melhor que avances na minha lâmina e pereças, que tentes com medo no teu coração."

O Postulante responde:

"Tenho duas Senhas. Perfeito Amor e Perfeita Confiança"(8).

O Iniciador diz:

"Todos os que assim estão são duplamente bem-vindos. Eu dou-te uma terceira para passares através desta misteriosa Porta".

O Iniciador entrega a Espada (ou Athame) ao seu Companheiro, beija o Postulante e passa para trás dele. Abraçando-o por detrás, empurra-o para a frente, com o seu próprio corpo, para dentro do Círculo. O seu Companheiro fecha ritualmente a "porta" com a Espada (ou Athame), que depois recoloca no Altar.

O Iniciador leva o Postulante aos pontos cardeais em volta e diz:

"Tomai nota, ó Senhores do Este[Sul/Oeste/Norte] que_________está devidamente preparado(a) para ser iniciado(a) Sacerdote (Sacerdotisa) e Bruxo(a)"(9).

Então o Iniciador guia o Postulante para o centro do Círculo. Ele e o Coventículo circulam à sua volta em sentido deosil, cantando:

"Eko, Eko, Azarak,
Eko, Eko, Zomelak,
Eko, Eko, Cernunnos(10),
Eko, Eko, Aradia(10)"

Repetido sempre, enquanto empurram o Postulante para a frente e para trás entre eles, virando-o às vezes um pouco para o desorientar, até o Iniciador o mandar parar com um "Alto!". O Companheiro toca o sino três vezes, enquanto o Iniciador vira o Postulante (que ainda está no centro) para o Altar.

O Iniciador então diz:

"Noutras religiões o Postulante ajoelha-se enquanto o Sacerdote o olha de cima. Mas na Arte Mágica somos ensinados a ser humildes, e ajoelhamo-nos para dar as boas-vindas e dizemos..."

O Iniciador ajoelha-se e dá o "Beijo Quíntuplo" ao Postulante, como se segue:

"Abençoados sejam os teus pés, que te trouxeram para estes caminhos" (beijando o pé direito e depois o esquerdo).

"Abençoados sejam os teus joelhos, que devem ajoelhar perante o Altar Sagrado" (beijando o joelho direito e depois o esquerdo).

"Abençoados sejam o teu falo (ventre) sem o qual não existiríamos" (beijando acima do pêlo púbico).

"Abençoado seja o teu peito, formado na força [seios, formados na beleza]" (11) (beijando o seio direito e depois o esquerdo).

"Abençoados sejam os teus lábios, que irão proferir os Nomes Sagrados" (abraçando-o e beijando-o nos lábios).

O Companheiro passa o comprimento de fio ao Iniciador, que diz:

"Agora vamos tirar a tua medida."

O Iniciador, com ajuda de outro bruxo do mesmo sexo, estica o fio do chão aos pés do Postulante até ao alto da sua cabeça, e corta esta medida com a faca de cabo branco (que o seu Companheiro lhe traz). O Iniciador então mede-o uma vez à volta da cabeça e ata um nó para marcar a medida; outra (da mesma ponta) à volta do peito e ata outro nó a marcar; outra à volta das ancas atravessando os genitais e dá um nó.

Então retira a medida e pousa-a no altar.

O Iniciador pergunta ao Postulante:

"Antes de jurares a Arte, estás preparado para passar a provação e ser purificado?"

O Postulante responde:

"Estou."

O Iniciador e outro bruxo do mesmo sexo ajudam o Postulante a ajoelhar-se, e curvar a sua cabeça e ombros para a frente. Eles soltam as pontas das cordas que atam os tornozelos e os joelhos juntos(12). O Iniciador vai então buscar o chicote ao Altar.

O Companheiro toca o sino três vezes e diz: "Três."

O Iniciador dá três chicotadas leves ao Postulante.

O Companheiro diz: "Sete." (Não volta a tocar o sino).

O Iniciador dá sete chicotadas leves ao Postulante.

O Companheiro diz: "Nove."

O Iniciador dá nove chicotadas leves ao Postulante.

O Companheiro diz: "Vinte e Um."

O Iniciador dá vinte e uma chicotadas leves ao Postulante (a vigésima primeira chicotada pode ser mais vigorosa, como lembrança que o Iniciador tem sido contido propositadamente.)

O Iniciador diz:

"Passaste o teste com valentia. Estás pronto a jurar que serás sempre verdadeiro com a Arte?"

O Postulante responde: "Estou."

O Iniciador diz (frase a frase):

"Então repete comigo: "Eu,__________, na presença dos Todo Poderosos, de minha livre vontade e da forma mais solene juro manter sempre secreto e nunca revelar os segredos da Arte, excepto se for a uma pessoa adequada, devidamente preparada num Círculo como aquele em que eu estou agora; e nunca negarei os segredos a uma pessoa como esta se ele ou ela provarem ser um Irmão ou Irmã da Arte. Tudo isto eu juro pelas minhas esperanças numa vida futura, ciente que a minha medida foi tirada; e que as minhas armas se virem contra mim se eu quebrar este juramento solene."

O Postulante repete cada frase depois do Iniciador.

O Iniciador e outro bruxo do mesmo sexo ajudam agora o Postulante a pôr-se de pé.

O Companheiro traz o óleo de unção e o cálice de vinho.

O Iniciador molha a ponta do dedo no óleo e diz:

"Eu por este meio te marco com o Sinal Triplo. Consagro-te com óleo."

O Iniciador toca o Postulante com óleo logo acima do pêlo púbico, no seu seio direito, no seu seio esquerdo e outra vez acima do pêlo púbico, completando o triângulo invertido do 1.º Grau.

Depois molha a ponta do dedo no vinho, diz "Consagro-te com vinho" e toca-lhe nos mesmos locais com o vinho.

A seguir diz "Consagro-te com os meus lábios", beija o Postulante nos mesmos locais e continua "Sacerdote (sacerdotisa) e Bruxo(a)."

O Iniciador e outro bruxo do mesmo sexo tiram-lhe a venda e desatam as cordas.

O Postulante é agora um bruxo iniciado, e o ritual é interrompido para cada membro do Coventículo lhe dar as boas-vindas e os parabéns. Quando acabarem, o ritual prossegue com a apresentação dos instrumentos de trabalho. À medida que cada instrumento é apresentado, o Iniciador trá-lo do Altar e dá-o ao Iniciado com um beijo. Outro bruxo do mesmo sexo do Iniciador aguarda, e à medida que se acaba a apresentação de cada instrumento este leva-o de volta ao Altar.

O Iniciador explica as ferramentas como se segue:

"Agora apresento-te os Instrumentos de Trabalho. Primeiro, a Espada Mágica. Com isto, como com o Athame, dás forma aos Círculos Mágicos, dominas, subjugas e punes todos os espíritos rebeldes e demónios, e podes até persuadir anjos e espíritos bons. Com isto na tua mão, lideras o Círculo."

"A seguir apresento-te o Athame. Esta é a verdadeira arma do bruxo, e tem todos os poderes da Espada Mágica."

"A seguir apresento-te a Faca de Cabo Branco. É usada para formar todos os instrumentos usados na Arte. Só pode ser usada num Círculo Mágico."

"A seguir apresento-te a Varinha. A sua utilidade é chamar e controlar certos anjos e génios quando não seja apropriado o uso da Espada Mágica."

"A seguir apresento-te o Cálice. Este é o receptáculo da Deusa, o Caldeirão de Cerridwen, o Santo Graal da Imortalidade. Neste bebemos em camaradagem, e em honra à Deusa."(13)

"A seguir apresento-te o Pentáculo. Este tem o objectivo de chamar os espíritos apropriados."

"A seguir apresento-te o Incensário. É usado para encorajar e dar as boas vindas aos espíritos bons e banir espíritos maus."

"A seguir apresento-te o Chicote. É o símbolo do poder e do domínio. Também é purificador e iluminador. Por isso está escrito, "Para aprender deves sofrer e ser purificado". Estás disposto a sofrer para aprender?"

O Iniciado responde: "Estou."

O Iniciador continua: "A seguir e por fim apresento-te as Cordas. Elas são usadas para prender os Sigilos da Arte; também a base do material; e também são necessárias para o Juramento."

O Iniciador diz: "Agora saúdo-te em nome de Aradia, novo Sacerdote(Sacerdotisa) e Bruxo(a)", e beija o Iniciado.

Finalmente, conduz o Iniciado a cada um dos pontos cardeais em volta e diz: "Ouçam ó Todos Poderosos do Este [Sul/Oeste/Norte]; ___________foi consagrado Sacerdote (Sacerdotisa), Bruxo(a) e criança escondida da Deusa."(14)

Se o Iniciado trouxe o seu novo Athame e/ou as Cordas, ele pode agora, como seu primeiro trabalho mágico, consagrá-los (ver Secção IV) com o Iniciador ou com a pessoa que irá ser o seu Companheiro de Trabalho, se já for conhecido, ou se (como no caso de Patricia e Arnold Crowther) eles foram iniciados na mesma ocasião.

Notas 

(1) Estas cordas são para trabalhar a 'magia da corda' e cada bruxa deve ter o seu próprio conjunto pessoal. (Não se deve confundir com a corda longa e duas curtas, mencionados na lista acima, que são usadas para atar o Postulante; sugerimos que coventículo deva manter um jogo destas cordas separadas das outras, para ser usado somente em iniciações). Um modo tradicional de usar uma corda de 2,74 m pode ser, de a atar em laço, pô-la sobre o athame espetado no solo, esticando o laço totalmente (1,36 m) e usa-lo como um compasso para desenhar o círculo mágico. Doreen diz: Este método era realizado antigamente em que os soalhos das casas era, constituídos de terra batida. penso que poderiam ter usado a faca branca ou giz para desenhar o círculo real, dependendo da superfície em que trabalhavam'.

(2) Uma das nossas bruxas, doméstica, que tivesse que realizar as suas práticas de uma forma secreta, tinha como athames, duas facas brancas entre o seu conjunto de cozinha, identificável somente por ela; o seu pentáculo era um determinado prato de prata no seu armário; e assim, por diante. Tal secretismo era necessário, nos dias de perseguição, e naturalmente a vassoura tradicional de bruxa num passe de mágica disfarçada num espanador.

(3) Na prática Alexandrina, utilizam-se somente duas cordas. Uma vermelha para a garganta e os pulsos e uma branca para um dos tornozelos. Ainda segundo Doreen: 'As nossas cordas eram geralmente vermelhas, a cor da vida, tendo sido também usadas outras cores,como o verde, azul ou preto. Nenhum significado particular foi unido a esta cor, excepto ser uma cor da nossa preferência vermelho apesar de não ser fácil encontrar corda de seda de qualidade apropriada para o efeito.

(4) Isto assemelha-se a uma característica da iniciação Maçónica, apontando ao peito do Postulante.

(5) Dos textos de Gardner, isto aparece somente no Hight Magic's Aid. O ritual Alexandrino usa-o, mas como uma regra.

(6) Drawing Down The Moon (Atrair a Lua) Se o Iniciador é o Sumo-Sacerdote, pode sentir ser uma altura apropriada para acrescentar o Drawing Down The Sun (ver Secção VI) ao Ritual tradicional.

(7) A Cruz Cabalística é pura prática da Aurora Dourada (ver Israel Regardie, The Golden Dawn, 3ª edição, vol. I, p. 106). Surge nos textos de Gardner, "mas na prática não me lembro de alguma vez termos feito isto" diz-nos Doreen. Incluímo-lo aqui para ficar mais completo, mas também não o usamos nas Iniciações; como muitos bruxos, usamos muitas vezes Magia Cabalística, mas sentimos que está fora do contexto em algo como tradicionalmente wiccano num Ritual de Iniciação. Malkuth, Geburah e Gedulah (de outra forma Chased) são obviamente Sephorith da Árvore da Vida, e a declaração Hebraica significa claramente "porque Teu é o Reino, e o Poder, e a Glória, para sempre" uma pista interessante de que Jesus conhecia a sua Cabala. Alguns cabalistas acreditam que foi este conhecimento, mesmo quando era rapaz, que espantou os doutores do Templo (Lucas II, 46-7).

(8) O High Magic's Aid dá esta forma; o Texto B descreve "Perfeito Amor para a Deusa, Perfeita Confiança na Deusa".Preferimos a forma mais curta, porque também significa Amor e Confiança para com o Coventículo, e pode ser citado e guradado como um modelo a manter.

(9) O High Magic's Aid dá esta forma; o Texto B descreve "Ó Senhores Misteriosos e gentis Deusas". Uma vez que os Guardiães das Torres de Vigia são os reconhecidos Guardiães dos Pontos Cardeais e foram invocados no ritual de fecho do Círculo, preferimos a forma do High Magic's Aid. Aqui é utilizado o nome vulgar do Postulante, uma vez que só se toma um nome mágico a partir do Segundo Grau.

(10) Ou qualquer nome de Deus ou Deusa que o Coventículo use (ver os nossos comentárioa aos nomes Cernunnos e Aradia na p.14).

(11) Os textos de Gradner utilizam a mesma expressão para ambos os sexos: "peitos formados na beleza e força." Doreen explica-nos: "Esta expressão era uma alusão ao corpo humano como uma forma de Árvore da Vida, com Gedulah de uma lado e Geburah do outro." Preferimos "peitos, formados na beleza" para uma mulher e "peito, formado na força" para um homem; este identifica-se mais com o Beijo Quíntuplo como uma saudação à polaridade homem/mulher, e com o tom essencialmente Wiccano (em vez do Cabalístico) das outras quatro declarações.

(12) Noutro ponto (ver p.54) o Livro das Sombras diz que enquanto se ajoelha a ponta do fio deve estar presa ao Altar.

(13) Esta é a nossa própria contribuição para a lista de apresentações do Livro das Sombras: fazê-mo-lo pelas razões que damos na página 258.


Fonte:Mortesubita.org/

O Sacerdócio na Bruxaria



A palavra ‘sacerdote’ é originada do Latim, sacer = sagrado + dos = dom. O que nos faz crer que se trate de uma pessoa que “possui um dom". Neste sentido, uma pessoa não necessita de aprovação alheia para reconhecer-se portador de um ‘dom’, basta exercê-lo. Eu diria até que o ‘dom’, um ‘talento natural’, é muito mais democrático do que se pensa. Tem aquele que possui o dom para engenharia e há aquele outro que o possui para a poesia, e ainda outros com dons diversos, alguns ligados aos mundos do sobrenatural.

É com estes que gostaria de falar. Pessoas assim são ‘tocadas’ por estímulos diferentes do mundo material e mensurável. Elas possuem uma ‘sensibilidade’. Para cada ‘sensibilidade’ há uma sintonia natural entre pares de sensibilidade similar. E como existem muitas formas expressão de sensibilidade, encontramos os estudiosos de áreas específicas da Arte – uma questão da linguagem desta sensibilidade natural. Não é questão de aprender ou desvendar-se a linguagem, mas de possuí-la inerentemente ou não. Sem linguagem, sem sintonia.

Um bruxo, então, nasce bruxo. Não vai haver ‘iniciação’ que plante esta linguagem, como é comumente chamada, ‘semente’ ou ‘marca’, dentro de você. Ou você tem, ou não tem. Ou você é tocado, ou não. Pode se falar em iniciação vertical ou horizontal, até em zigue zague, mas “caminhar o caminho” ao invés de somente “falar do caminho” só é possível com esta linguagem específica. Como conjurar um espírito se você não possui este dom? Quem dirá então invocar Deuses, elementais, etc.?

Daí chegam as ‘ordens bruxas’, que são as institucionalizações ligadas aos mitos, que hoje estão tão desconectadas com esta realidade que acabam passando uma idéia errada do que é ser uma bruxa. Eles dizem que você pode ser um bruxo na marra, só porque alguém colocou a mão sobre a sua testa e disse: “Sois um bruxo!”. Mas uma ‘iniciação’ é somente um ‘início’ de aprendizado daquilo que você já tem dentro de si, se você não tem o acúmulo de estudos só lhe trará o mesmo resultado que o burro carregado de livros. Se a iniciação é motivada pelo desejo de reconhecimento entre pares, a iniciação é tão vazia de sentido quanto ensinar um pato a fazer rimas com seus grasnados.

Um sacerdócio, em todas as suas graduações, envolve não só a compreensão da liturgia envolvida em uma tradição, culto ou uma religião, mas a vivência real dos ideais alcançáveis pelos seus membros através de seus mistérios. Correto?

Então um ‘sacerdote bruxo’ não pode ser uma pessoa infeliz, pois só demonstra consigo ser incapaz de atingir os ideais de felicidade por ele pregados. A menos que seu ideal paradisíaco seja mais afeito à danação.

O ‘sacerdote bruxo’ que quer ajudar outras pessoas com seus problemas financeiros não o fará bem se não fizer isto primeiramente para si. Uma pessoa que não está feliz com sua vida sentimental jamais seria capaz de auxiliar outra pessoa em uma complicação amorosa. A explicação disto é simples: ninguém dá o que não tem para si.

Um Alto Sacerdote possui ainda uma função que se situa apenas oitava acima, e isto não significa de importância, mas de habilidade. Ele é responsável em educar seus sacerdotes para que encontrem seu rumo à felicidade – somente viável através da realização de seus próprios destinos. E também só é possível se possuir um corpo de ensinamento tradicional, que são ensinamentos ancestrais descrevendo os dramas que a humanidade vive desde o seu nascimento, suas decisões e seus resultados. Um corpo de ensinamento tradicional de menos de cem anos de existência pode ser útil, mas extremamente limitado. A limitação consiste no fato de quanto maior nossa visão do passado, maior ela é para o futuro. E é por isto que um bruxo tradicional se ocupa em buscar o conhecimento na filosofia e folclore dos povos, sem distinção, mais do que a busca insana de receituários de rituais e feitiços.

É interessante quando observamos as pistas históricas da figura da bruxa, em especial as deixadas pelos folclores rurais, e uma em especial é interessante: que o gênero de plantas mais usadas das bruxas medievais fosse justamente as solanaceae, ou seja, as ervas ‘consoladoras’. Dentre este gênero, há uma ampla gama de vegetais simples, como a batata, mas também um considerável número de venenos, o que as possibilitavam tanto curar quanto matar. As bruxas eram as ouvintes da sociedade, eram as ‘consoladoras’, com seus chás e ervas, simpatias e bênçãos.

Nada disso seria possível sem conhecer seu próprio eixo, sem conhecer o mundo em que ela vive, sem conhecer o que veio antes, e sem ter aprendido a usar o seu dom tão pacientemente, na mesma medida em que é obrigado um virtuose com o violino.

As bruxas históricas viviam em sintonia com o mundo ao seu redor porque o mundo era sua ferramenta de trabalho. Trabalho, sim. Ofício é uma profissão, pois se observarmos a pista etimológica, encontraremos a palavra originada do latim officiu, que significa o dever, trabalho de uma pessoa. O povo é que elege a bruxa, procurando-a como a sabia, a ‘consoladora’, a que traz paz de espírito. Seja pela palavra, pelo oráculo, pelo chá servido e o recomendado, ela dá força para que a labuta diária continue apesar dos dramas humanos. Ela prova o valor do herói e determina assim seu destino. Ela abençoa, e às vezes, sob o disfarce da maldição que avassala as paixões e esmaga ilusões, ela abençoa novamente.


Katy de Mattos Frisvold - Dia de Desgoverno, 2011.


Fonte: Diablerie.com.br/

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Lua Vermelha



Na antigüidade o ciclo menstrual da mulher seguia as fases da lua com tanta precisão que a gestação era contada pelas luas. Com o passar dos tempos, a mulher foi se distanciando dessa sintonia e perdendo, assim, o contato com seus próprios ritmos e seu corpo, fato que teve como conseqüências vários desequilíbrios hormonais emocionais e psíquicos.

Para restabelecer essa sincronicidade natural, tão necessária e salutar, a mulher deve se reconectar à Lua, observando a relação entre as fases lunares e seu ciclo menstrual. Compreendendo o ciclo da Lua e a relação com o seu ritmo biológico, a mulher contemporânea poderá "cooperar" com seu corpo, fluindo com os ciclos naturais, curando seus desequilíbrios e fortalecendo sua psique.

Para compreender melhor a energia de seu ciclo menstrual, cada mulher deve criar um "Diário da Lua Vermelha", anotando no calendário o início da menstruação, a fase da Lua, suas mudanças de humos, disposição, nível energético, comportamento social e sexual, preferências, sonhos e outras observações que queira.

Para tirar conclusões sobre o padrão de sua Lua Vermelha, faça essas anotações durante pelo menos três meses, preferencialmente por seis. Após esse tempo, compare as anotações mensais e resuma-as criando, assim, um guia pessoal de seu ciclo menstrual, baseado no padrão lunar. Observe as repetições de emoções, sintonia, percepções e sonhos, fato que vai lhe permitir estar mais consciente de suas reações, podendo evitar, prever ou controlar situações desagradáveis ou desgastastes.

Do ponto de vista mágicko há dois tipos de ciclos menstruais, determinados em função da fase lunar em que ocorre a menstruação.

Quando a ovulação coincide com a lua cheia e a menstruação com a lua negra, a mulher pertence ao "Ciclo da Lua Branca". Como o auge da fertilidade ocorre durante a lua cheia, esse tipo de mulher tem melhores condições energéticas para expressar suas energias criativas e nutridoras por meio da procriação.

Quando a ovulação coincide com a lua negra e a menstruação com a lua cheia, a mulher pertence ao "Ciclo da Lua Vermelha". Como o auge da fertilidade ocorre durante a fase escura da Lua, há um desvio das energias criativas, que são direcionadas ao desenvolvimento interior, em vez do mundo material.

Diferente do tipo "Lua Branca", que é considerada "boa mãe", a mulher do ciclo "Lua Vermelha" é "bruxa, maga ou feiticeira", que sabe usar sua energia sexual para fins mágickos e não somente procriativos.

Ambos os ciclos são expressões da energia feminina, nenhum deles sendo melhor ou mais correto que o outro. Ao longo de sua vida a mulher vai oscilar entre os Ciclos Branco e Vermelho, em função de seus objetivos, de suas emoções e ambições ou das circunstâncias ambientais e existenciais.
Além de registrar seus ritmos no "Diário da Lua Vermelha", a mulher pode reaprender a vivenciar a sacralidade de seu ciclo menstrual.

Para isso é necessário criar e defender um espaço e um tempo dedicado a si mesma. Sem poder seguir o exemplo de suas ancestrais, que se refugiavam nas "Tendas Lunares", para um tempo de contemplação e oração, a mulher moderna deve respeitar sua vulnerabilidade e sensibilidade aumentadas durante a Lua. Ela pode diminuir seu ritmo, evitando sobrecargas ao se afastar de pessoas e ambientes "carregados", não se expondo ou se desgastando emocionalmente e procurando encontrar meios naturais para diminuir o desconforto, o cansaço, a tensão ou a agitação.

Com determinação e boa vontade, mesmo no corre-corre cotidiano dos afazeres e obrigações, é possível encontrar seu "tempo e espaços sagrados" para cuidar de sua mente, de seu corpo e de seu espírito.

Meditações, "banhos de luz lunar", água lunarizada, contato com seu ventre, sintonia com a Deusa regente de sua lua natal ou com as Deusas Lunares, "viagens xamânicas” com batidas de tambor, visualizações dos animais de poder, uso dos florais ou elixires de gemas contribuem para o restabelecimento do padrão lunar rompido e perdido ao longo dos milênios de supremacia masculina e racional.
O mundo atual - em que a maior parte das mulheres trabalha - ainda tem uma orientação masculina.

Para se afastar dessa influência, a mulher moderna deve perscrutar seu interior e encontrar sua verdadeira natureza, refletindo-a em sua interação com o mundo externo.

Texto extraído do "Anuário da Grande Mãe” - de Mirella Faur, ed Gaia, 1999.

Abençoando a Si mesmo



Pode-se usar água - "lunarizada", de fonte ou da chuva - ou essência - do seu signo ou da Deusa escolhida.

À medida que recita em voz alta as seguintes invocações, toque cada parte de seu corpo, sentindo seu poder de mulher sendo restabelecido.

Toque seus olhos:
- "Abençoe, Mãe, meus olhos, para ter visão clara".

Toque sua boca:
- "Abençoe, Mãe, minha boca, para falar a verdade".

Toque seus ouvidos:
- "Abençoe, Mãe, meus ouvidos, para ouvir tudo que está sendo dito para mim".

Toque seu coração:
- "Abençoe, Mãe, meu coração, para preencher-me com amor".

Toque seu ventre:
- "Abençoe, Mãe, meu ventre, para poder conectar-me à energia curativa do Universo e fortalecer minha criatividade e sexualidade".

Toque seus pés:
- "Abençoe, Mãe, meus pés, para poder caminhar na minha verdadeira senda e voltar a Ti ".


Retirado do " Anuário da Grande Mãe " - Mirella Faur

Invocação para o Portal da Lua Cheia



FAÇA-SE A LUZ

INVOCO neste momento os meus Mestres pessoais e todos os seres Superiores da Sabedoria Cósmica que me concedam passar por este portal para que eu possa receber as orientações com clareza das metas e objetivos de minha vida.

Que eu possa concretizar a vida perfeita na matéria.

Que eu possa me libertar dos pesos e das amarras do passado, que impedem a concretização, realização e materialização dos meus valores na Terra.

Que eu possa desapegar-me das ilusões e de tudo que é velho e que não serve mais ao meu Bem Supremo. Abrindo-me assim ao NOVO, renovando os valores para libertação da minha consciência.

Que se façam as ligações espirituais e materiais da abundância cósmica em todos os níveis, materializando assim minha realização pessoal, profissional, material, afetiva e espiritual.

Que eu possa enxergar os projetos, metas e objetivos de minha vida com clareza e lucidez, sem apegos ou ganâncias, mas percebendo-me como simples administrador de minha vida.

Que possa mudar minha conduta com relação aos meus familiares, libertando-os de meus apegos, para que possam seguir seus rumos com sabedoria na vida.

Que este Portal traga para mim a conexão, proteção e orientação espiritual, mostrando-me os caminhos em todos os sentidos, abrindo minha percepção extra sensorial, para que eu possa receber as instruções de meus mestres, para passar o que for necessário da melhor maneira possível ao meu próximo.

Que possa cortar todas as ligações cármicas que estão bloqueando a minha evolução pessoal e nos meus relacionamentos, seja em que nível for para libertar-me.

Que eu possa resolver as questões pendentes da melhor maneira nesta vida.

Que seja feita a Vontade Divina e não a minha.

ESTÁ CONCLUÍDO.

Fonte: Celene Thaumaturgo - Livro das Invocações - Ed. Roca.

As Faces da Lua



Donzela

"Quando a Lua cresce nos Céus, sou Ártemis dos bosques. Busco os caminhos virgens e neles mostro minha força em cada ramo. Sou Ártemis quando busco os montes e anseio por novos rumos, quando repudio os limites e não existe o medo.
Sou Ártemis quando me lanço, sem amparo, do cume feito com todas as pedras que tentam, inúteis, bloquear meus atos deliciosamente insanos. Assim sou Ártemis. "No aspecto crescente encontramos os mitos das Deusas donzelas. Forte, corajosa e poderosa, a donzela é a Dama dos bosques, a
corajosa virgem caçadora que nenhum homem possui.
Ela é sempre retratada como a jovem que vai crescendo e se tornando mais forte e corajosa a cada dia que passa. Independente, na floresta ela aprende a tomar conta de si própria e, posteriormente, de seus filhos que um dia chegarão."
Traz consigo a sabedoria das coisas selvagens, e diversas vezes é figurada com um chifre nas mãos, tirado de seus animais especiais: o touro, a vaca, o cervo. Este chifre é também a trompa de caça, tocada em sinal de triunfo - aliás, a vitória é mais uma de suas propriedades, uma vez que ela
conhece como ninguém os mistérios profundos dos animais da floresta, com os quais mantém um elo de amizade, respeito e amor. Quando os céus são dominados pela Donzela, é tempo de pedir força a todas as coisas que queremos ver crescer; tempo de pedir coragem, força e perseverança. Algumas das
Deusas que representam a Donzela são: Ártemis ou Diana, Bast, Brigid, Kore ou Perséfone, Pallas Athena, Parvati, entre outras.

Mãe

"Quando no céu a Lua é Cheia, sou Deméter de coração nos olhos. Busco o amor imensurável e ofereço aquele que habita em meus infinitos braços. Sou Deméter quando procuro meu filho em cada ser, quando quero ser ave-mãe e ninho em um só tempo. Sou Deméter quando meu colo se torna porto e suplica dolorosamente pelo lançar de âncoras de todas as embarcações. Assim sou Deméter.
"O aspecto da Lua Cheia nos mostra a face da Mãe, a boa Deusa de onde vieram todos os viventes, com seu ventre inchado, contendo vida nova. Ela é a confortadora, a Deusa bondosa cujo amor incondicional estende a todos os seres. Seu grande poder é inegável, uma vez que Ela conhece os mistérios da Vida, os quais transmite a todos os seus filhos em seu nascimento. Dentre todos os períodos lunares, este é o que concentra maior poder, que nos leva a procurar por lugares sagrados, como grutas, cachoeiras ou simplesmente um campo aberto invadido por Sua luz - lugares inclusive que a mulher primitiva teria procurado para poder dar à luz.
A Lua Cheia é o tempo em que a Deusa da Caça se transforma na Rainha da Colheita, a Senhora dos Grãos cuja abundância se espalha por toda a Terra. É ela que concede a vida ao Deus, o jovem caçador que, no tempo certo, se transformará em seu amante e consorte - nada de incestuoso, quando nos lembramos que, miticamente, todas as mulheres fazem papel de mãe para seus companheiros, ao menos uma vez na vida. Quando a Lua é cheia, é tempo de invocar Seus nomes que remetem ao Amor e à Abundância: Ela é Deméter, a Senhora dos Grãos e Mãe de Perséfone, raptada pelo Senhor do Submundo, Hades. Este mito grego nos ensina um pouco dos mistérios da Terra: quando está com sua filha, que é também chamada de Perséfone, irradia em felicidade e cobre a Terra com seu manto verde e fértil - mas quando Perséfone a deixa para retornar ao submundo, Ela se entristece e vagueia procurando por sua filha, fazendo com que o inverno chegue e nada possa florescer. Algumas das Deusas Maternais são: Bonna Dea, Magna Mater, Deméter, Ceres, Pacha Mamma, Ceridwen, Tara, Selene, Ísis, Maria e Lakshmi.

Anciã

"Quando a Lua mingua, sou Hécate de toda a escuridão. Busco a linguagem da alma e descubro ser eu mesma tudo aquilo que me ameaça. Sou Hécate quando a solidão importa e quando o fim se torna causa e razão. Sou Hécate quando penso na morte e encontro o que sou antes de tornar-me outra. Assim sou Hécate. "Mostrada em algumas culturas como a Inevitável, a Anciã é aquela na qual toda mulher um dia irá se transformar - afinal de contas, um dia o ciclo menstrual cessará, e a mulher então conserva consigo o poder que agora fará parte dela para sempre. Ela agora é sábia, e poderosa, pronta para conhecer o mistério da morte, desaparecendo na escuridão como a Lua some durante três noites de trevas. Apesar de ser a promessa da morte, Ela também é a certeza da vida. Afinal de contas, nos mostra que é assim que se renasce: seu corpo retorna à terra, e, em devido momento, esta renasce, saudável e viçosa como a Lua nova em sua primeira noite visível.
A Grande Anciã é aquela que conhece todos os mistérios: antigamente, eram as parteiras versadas nos conhecimentos das ervas, dos encantamentos e das poções que podiam oferecer a ajuda para a vida ou infelizmente, para a morte - por isso, é necessário muito cuidado ao trabalhar com as energias da Anciã, uma vez que ela é a Velha Ceifeira, a Senhora das Trevas, a Rainha dos Submundos. É tempo de reflexão, de meditar acerca daquilo que realmente queremos afastar, tempo de pedir sabedoria e coragem para enfrentar os estranhos desígnios de morte e renascimento que encontramos ao longo de nossa jornada. E assim, os três ciclos se fundem: a Donzela que dá lugar à Mãe, que se transforma na Anciã, nos mostrando o importante ciclo eterno de morte, crescimento e renascimento.
Algumas de Suas faces enquanto Anciã são: a Mãe Negra, Baba Yaga, Cailleach, Circe, Hécate, Morrigan, Kali Ma, entre outras.

Fonte: Magia Zen

A Deusa Tecelã



Dos tempos que se perdem nas brumas, emerge majestosa a Grande Deusa Tecelã, aquela que, assim como faz a aranha até os dias de hoje, produziu do seu ventre os fios que formam a estrutura do universo. Estes mesmos fios que, ao se organizarem e reorganizarem continuamente, formam todos os diferentes elementos que compõem o mundo múltiplo, variado e diverso. Contendo tudo que foi, é e será, sua teia-vida estabelece as relações mútuas que vinculam esta grande variedade de seres no que a Ciência denomina de Campo Unificado de Energia ou Consciência.

No Egito Antigo, esta fiandeira cósmica era conhecida como a Deusa Neit. Dela emanam os fios essenciais que se interconectam na teia multidimensional, a estrutura básica de tudo que existe no universo. Dela também emana o primeiro movimento da criação, que se desdobra no trançar dos fios em infinitas possibilidades, que vão tecendo a realidade cósmica.

A Grande Deusa fia e tece toda a existência do caos bruto em realidade. Por isto, o fiar e o tecer são, desde os primórdios, atribuídos ao universo feminino. A magia que permite transmutar lã, seda, linho, algodão ou outro material vegetal em fio e com ele tecer panos para os mais variados usos, permitiu aos nossos ancestrais sobreviverem nas regiões mais frias e mais quentes do planeta. E esta magia era realizada pelas mãos das mulheres, sob a inspiração da deusa.

A mais conhecida tecelã é a deusa grega Atena, patrona de todas as artes e ofícios. Como todas as divindades, ela ilumina um amplo espectro da existência humana. Quando nos desvencilhamos do viés patriarcal, que enfatiza seus aspectos relacionados com o mundo masculino, percebemos que a maior entre as dádivas de Atena é imbuir com alma todos os trabalhos civilizatórios. Em assim fazendo, ela propicia a nós mulheres uma compreensão do valor e da importância de nossos poderes criativos. Ela nos mostra como tecer o sagrado em todos os atos cotidianos.

De sua origem anterior à vinda dos helenos para a Grécia, ela incorpora a sabedoria aquática e intuitiva de sua mãe Métis, uma oceânide, finamente sintonizada com os sutis processos de transformação que ocorrem continuamente na vida das pessoas, receptiva aos sentimentos pessoais, poéticos e sensíveis, próprio do princípio feminino. Ao mesmo tempo, representa o saber abstrato, manifestado através da produção artesanal, da arte da guerra, do poder institucionalizado, introduzido pelo princípio masculino. Em sua virgindade, ela integra espírito e alma, apontando o caminho para nos relacionarmos a partir de nossa integridade, de nossa autonomia.

Na tradição hindu, a deusa tecelã recebe o nome de Maya. Posicionada no centro de sua teia, ela não apenas tece a ordem cósmica, mas a reproduz em nosso mundo dos sentidos de forma tão perfeita, que não distinguimos entre a realidade em si e nossa versão dela. Assim como Maya se posiciona no centro da teia cósmica, cada ser humano percebe a si mesmo como o centro da própria existência. Da perspectiva psicológica, cada qual fia e tece sua própria realidade, a partir de um centro que denominamos de Eu.
Mas, ao tecermos nosso próprio tecido, nossa própria individualidade, não devemos perder a noção de que estamos conectados com todos os demais seres, por meio do fio de que é feita a grande teia. Como emanações que somos da Grande Deusa Tecelã, todos nós somos constituídos da mesma substância e compartilhamos a essência divina dos fios de Neit.

Tecer significa ativar e misturar nossas experiências de vida, para produzir um padrão individual, único e inimitável, aquilo que distingue cada qual dentre todos os seres no cosmos. Quando permitimos que uma nova experiência se integra no nosso viver, quando não tememos as transformações que isto inevitavelmente traz consigo, estamos tornando nosso padrão pessoal mais complexo e, com isto, enriquecendo o padrão coletivo. Tornamo-nos co-criadores da grande teia.

Como co-criadoras, participamos na criação do nosso próprio destino individual e coletivo. Pois o destino também é atributo de deusas tecelãs. Na mitologia nórdica, tão rica em histórias que envolvem o fiar e o tecer, o destino é decretado pelas Nornas, que compunham a teia do destino com uma miríade de fios e linhas. A mais velha das três, que também parece ter sido a mais antiga, está sempre sentada ao lado de uma fonte, a Fonte de Urd, onde o próprio Odin foi buscar conselho e conhecimento.

Fiar está arrolado entre os ofícios mais antigos conhecidos, cujas origens se perdem na pré-história. Para as comunidades Kajaba da Colômbia, a condição para ser mulher é saber fiar e tecer, um ofício cujos segredos são transmitidos às jovens moças, quando de sua reclusão na tenda vermelha. Seu mito da criação diz que, quando a Mãe Universal fincou seu imenso fuso verticalmente na terra recém criada, dele se desprendeu uma fibra de fio de algodão, com a qual traçou um círculo, declarando que esta seria a terra de seus filhos. Como uma atividade desempenhada pelas mulheres em suas casas, desde a antiguidade até a revolução industrial, o processo de fiar e tecer tornou-se uma simbologia poderosa para a criação de nova ordem a partir do caos, definindo o destino humano.

E a força desta simbologia também manifesta sua influência na elaboração da moderna Teoria das Cordas, que se utiliza da imagética da fiação, descrevendo o tecido microscópico de que é feito nosso universo multidimensional como ricamente urdido a partir de cordas que vibram sem cessar e, com sua vibração, introduzem o ritmo da vida no cosmos.

Por Monika von Koss

terça-feira, 16 de outubro de 2012

O Sabbat de Samhain

Winter

Hemisfério Norte: 31 de Outubro.
Hemisfério Sul: 30 de Abril.

Samhain (pronunciado "sou-en") é o mais impor­tante dos oito Sabbats dos Bruxos. Como Halloween, é um dos mais conhecidos de todos os Sabbats fora da comunidade wiccana e o mais mal-interpretado e temido.
Samhain celebra o final do Verão, governado pela Deusa, e marca a chegada do Inverno, governado pelo Deus. (O nome Samhain significa "Final do Verão").
Samhain é também o antigo Ano-Novo celta/druida, o início da estação da cidra, um rito solene e o festival dos mortos. É o momento em que os espíritos dos seres amados e dos amigos já falecidos devem ser honrados. Houve uma época na história em que muitos acreditavam que era a noite em que os mortos retomavam para passear entre os vivos. A noite de Samhain é o momento ideal para fazer contato e receber mensagens do mundo dos espíritos.

A versão cristã do Samhain é o Dia de Todos os Santos (1º de novembro), que foi introduzido pelo Papa Bonifácio IV, no século VII, para substituir o festival pagão.
O Dia dos Mortos (que cai a 2 de novembro) é outra adaptação cristã ao antigo Festival dos Mortos. É observado pela Igreja Católica Romana como um dia sagrado de preces pelas almas do purgatório.
Em várias regiões da Inglaterra acredita-se que os fantasmas de todas as pessoas destinadas a morrer na­quele ano podem ser vistos andando entre as sepulturas à meia-noite de Samham. Pensava-se que alguns fantasmas tinham natureza má e, para proteção, faziam-se lanternas de abóboras com faces horrendas e iluminadas, que eram carregadas como lanternas para afastar os espíritos malé­volos. Na Escócia, as tradicionais lanternas Hallows eram esculpidas em nabos.
Um antigo costume de Samhain na Bélgica era o preparo de "Bolos para os Mortos" especiais (bolos ou bolinhos brancos e pequenos). Comia-se um bolo para cada espírito de acordo com a crença de que quanto mais bolos alguém comesse, mais os mortos o abençoariam.

Diz-se que acender uma vela de cor laranja à meia-noite no Samhain e deixá-la queimar até o nascer do sol traz boa sorte; entretanto, de acordo com uma lenda anti­ga, a má sorte cairá sobre todo aquele que fizer pão nesse dia ou viajar após o pôr-do-sol.
As artes divinatórias, como a observação de bola de cristal e o jogo de ninas, na noite mágica de Samhain, são tradições wiccanas, assim como ficar diante de um espelho e fazer um pedido secreto. Os alimentos pagãos tradicionais do Sabbat são maças, tortas de abóbora, avelãs. Bolos para os Mortos, milho, sonhos e bolos de amoras silvestres, cerveja, cidra e chás de ervas.

Incensos: Maçã, heliotropo, menta, noz-moscada e sálvia.
Cores das velas: Preta, laranja.
Pedras preciosas sagradas: Todas as pedras negras, especialmente azeviche, obsidiana e ônix.
Ervas ritualísticas tradicionais: Bolotas, giesta, maçãs beladona, dictamo, fetos, linho, fumária, urze, verbasco, folhas do carvalho, abóboras, sálvia e palha.

Fonte: Livro "Wicca - A Feitiçaria Moderna" - Gerina Dunwich.

Ritual de Samhain



O Ritual de Samhain

Material necessário: 
· Caldeirão; 
· Uma vela preta; 
· Uma vela laranja; 
· Uma maçã; 
· Um pão feito por você; 
· Uma romã; 
· Dois pedaços de papel em branco; 
· Lápis; 
· Alecrim; 
· Uma colher de pau; 
· Álcool de cereais; 
· O Cálice com vinho. 

Procedimento: Coloque o Caldeirão sobre o Altar e disponha a vela laranja do lado direito e a vela preta do lado esquerdo. Coloque a maçã perto da vela laranja e a romã perto da vela preta. Trace o Círculo Mágico e então diga:

Neste dia sagrado, no qual o véu que separa os mundos se encontra mais fino, somos visitados por nossos ancestrais.
Que a Deusa Anciã e o Senhor das Sombras possam abençoar todos os amados que viverem partilhar deste Rito de Sabbat. 

Acenda as velas, dizendo:

Sagrados Ancestrais, venham a mim.
Nesta noite eu canto a magia e realizo este ritual em homenagem àqueles que partiram ao País de Verão. 
Que este Rito seja agradável aos olhos daqueles que já se foram. 
Abençoados sejam todos eles. 

Eleve o Caldeirão, dizendo:

Este é o ventre da Mãe, o Caldeirão dos fins e recomeços. 

Coloque-o novamente no lugar e pegue um pedaço de papel. Nele escreva tudo o que você quer afastar de sua vida. Acenda-o na vela preta e deixe-o queimar dentro do Caldeirão.
Pegue o outro pedaço de papel e escreva tudo o que você quer atrair para a sua vida. Acenda-o na vela laranja e deixe-o queimar dentro do Caldeirão. 
Coloque o alecrim no Caldeirão, junto com as cinzas, e comece a mexer a mistura no sentido horário, dizendo: 

Que o velho morra e que o novo possa entrar.
Pelo poder da Vida e da Morte, 
Saúdo os espíritos desta noite de Samhaim. 

Coloque um pouco de álcool no Caldeirão e então ponha fogo, dizendo:

Através desta luz e o elo mar além, 
Saúdo todos os espíritos nesta noite de Samhaim. 

Olhe para as chamas do fogo e mentalize todos os seus desejos. 
Com o seu Athame, abra a romã, com algumas sementes, enquanto pensam todas as coisas negativas que quer afastar de sua vida. Coloque algumas sementes no fogo. 
Parta a maçã ao meio, coma uma das partes e jogue um pequeno pedaço nas chamas do Caldeirão. Mentalize agora tudo o que você quer atrair de positivo. 
Com a sua colher de pau, mexa o conteúdo de seu Caldeirão e então diga: 
Que o negativo se torne positivo, 
Que o mal se transforme em bem, 
Que a doença se torne saúde, 
E o ódio em amor. 

Beba um gole do vinho e despeje um pouco dentro do Caldeirão, fazendo uma libação, enquanto diz: 

Faço esta libação em homenagem à Deusa e ao Deus. 
Homenageio também a todos os meus Ancestrais. 
Que assim seja e que assim se faça! 
Toque o pão com o Bastão e diga: 
Eu te consagro em nome dos Antigos. 
Que você me traga saúde, sucesso, prosperidade e amor. 
Coma um pedaço do pão. 
Cante, dance e festeje em homenagem à Deusa e aos seus antepassados. 
Agradeça aos Ancestrais e destrace o Círculo.

Coloque o resto do pão no seu jardim ou aos pés de uma árvore como oferenda aos seus ancestrais.

(fonte: WICCA A Religião da Deusa de Claudiney Prieto)